‘Desigualdade não é herança infeliz, é processo construído e em plena expansão’, afirma Dowbor

Ladislau Dowbor | Site dowbor.org

Economista analisa dados da Oxfam e explica como 12 pessoas possuem mais riqueza do que a metade da população mais pobre no planeta.

São Paulo,

Anualmente, a Oxfam aproveita a proximidade do Fórum Econômico Mundial – evento que reúne o PIB mundial em Davos, na Suíça – para divulgar um relatório sobre os índices da desigualdade social que impera no mundo.

Nesta semana, por conta do Fórum de Davos, ocorrido entre 19 e 23 de janeiro, a entidade composta por 19 organizações e mais de 3 mil parceiros lançou a última edição deste documento, revelando que os 12 bilionários mais ricos do mundo detêm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, composta por quatro bilhões de pessoas.

“Desigualdade não é herança infeliz, mas um processo construído e em plena expansão”, afirmou o economista Ladislau Dowbor, ao analisar os dados do relatório a Opera Mundi, explicitando os mecanismos em curso, criados pelas grandes corporações financeiras, para garantir tamanha concentração de renda.

Autor de dezenas de livros, disponíveis online em seu site, sobre o tema, como “Era do Capital Improdutivo” (Autonomia Literária, 2019) e, mais recentemente, “Os Desafios da Revolução Digital” (Elefante, 2025), o professor de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) explicita alguns desses mecanismos e aponta como o rentismo se tornou a principal alavanca desse processo.

Confira a entrevista:

Opera Mundi: Quais os principais dados que o senhor destacaria do relatório da Oxfam, divulgado nesta semana, por ocasião do Fórum de Davos?

Ladislau Dowbor: O relatório da Oxfam apresenta números explosivos, mas pouco conhecidos, e menos ainda compreendidos. São números muito elevados. Um dado básico como ponto de partida é que “os 12 bilionários mais ricos do mundo têm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de quatro bilhões de pessoas”. E uma pessoa em cada quatro está em insegurança alimentar.

O nível de absurdo que isso representa exige um pouco de reflexão. Não é apenas “muita desigualdade”. Como ponto de comparação, peguem o dono de apenas R$ 1 bilhão, que aplica o seu dinheiro na dívida pública no Brasil, com uma margem de 15% de lucro. Ele só aplicou R$ 1 bilhão, mas 15% de um bilhão são R$ 150 milhões. É isso que ele irá ganhar, de mãos no bolso, sem produzir nada e drenando os nossos impostos, ao ano. Isso equivale a R$ 411 mil reais por dia.

Se considerarmos que os 12 indivíduos acima mencionados detêm, cada um, acima de US$ 100 bilhões, é só fazer as contas. Em finanças, isso é chamado de efeito bola de neve, quanto maior a bola, mais neve acumula a cada volta. Ou seja, quanto mais rico você é, mais rapidamente você enriquece.

O relatório da Oxfam e vários outros estudos mostram que os bilionários estão acumulando suas fortunas de forma cada vez mais acelerada. Hoje, eles dispõem de uma riqueza da ordem de US$ 18 trilhões (R$ 95 trilhões) enquanto a massa da população – e isso envolve também os Estados Unidos – mal fecha o mês. A grande maioria não está pensando em “o que fazer com o dinheiro que sobra”, mas sim em como sobreviver.

Como você explicaria o rentismo para os leigos em economia?

Poucas pessoas se dão conta das transformações geradas pelo rentismo. De forma simples, o rentismo constitui ganhos sem contribuição produtiva. Se eu me aproprio, sem trabalhar, do dinheiro que está no seu bolso, resultado do seu trabalho, isso é chamado de roubo. Se eu sou um banqueiro, ou um acionista de banco, e pratico agiotagem, eles chamam de “apropriação indébita”. Agora, se eu ganho dinheiro em gigantesca escala, sem produzir absolutamente nada, apenas fazendo “o dinheiro trabalhar”, isso é rentismo.

A financeirização, ganhos sobre a produção de outros, não por contribuição produtiva própria, constitui rentismo. É uma forma muito mais ampla de concentração de renda do que a exploração por mais valia, que evidentemente ainda permanece. A diferença é que antes, para explorar por salários baixos, o capitalista precisava pelo menos gerar um emprego, produtos e pagar impostos. Hoje, ele não precisa mais.

No Brasil, desde 1995, lucros e dividendos distribuídos são isentos de impostos. Graças, precisamente, à compra de políticos. Os nossos políticos têm todo o interesse, por exemplo, em manter uma taxa Selic (taxa de juros) elevada.

Outra forma semelhante de apropriação dos nossos recursos pode ser constatada no uso dos cartões de crédito. O lucro global da Visa, por exemplo, é da ordem de 55% ao ano, sem produzir nada, apenas uma identidade financeira, com computadores realizando a intermediação. São lucros gigantescos e não é surpresa que entre os acionistas da empresa, estejam as mesmas corporações de gestão de ativos.

Igualmente importante é a dimensão internacional. No Brasil, o dreno sobre os recursos públicos é realizado essencialmente sobre a dívida pública, mas análises sobre a situação econômica dos 140 países mais pobres do planeta revelam que, na média, eles destinam 42% dos seus orçamentos públicos para pagar dívidas externas, transferindo juros justamente para os grandes grupos financeiros dos países mais ricos.

Os ganhos nesta escala, em geral, são colocados em paraísos fiscais, um nome charmoso para “fundos” situados, por exemplo, em Luxemburgo, Ilhas Virgens Britânicas ou no Estado de Delaware nos Estados Unidos, que é maior paraíso fiscal do mundo. Esses paraísos fiscais são protegidos por lei, pois as grandes fortunas permitem eleger políticos que fazem com que as leis sejam favoráveis a elas.

O relatório, inclusive, denuncia esse processo abertamente: “esse poder dá aos bilionários controle sobre o futuro de todos nós, enfraquecendo a liberdade política e desrespeitando os direitos da maioria”. Isso significa que, a partir de um certo nível de desigualdade econômica, não há espaço para a democracia.

Quais são esses grupos? A Oxfam menciona, por exemplo, que Elon Musk ganha em quatro segundos o total que uma pessoa comum recebe ao ano.

A BlackRock, por exemplo, administrou em 2025 US$ 13,5 trilhões, enquanto o orçamento federal dos Estados Unidos foi de US$ 7 trilhões. Larry Fink, administrador dessa gigante corporativa, tem o equivalente a seis vezes o PIB do Brasil. Essa é a dimensão da financeirização.

Na pirâmide de poder, vemos as “sete magníficas” corporações, como são chamadas nos Estados Unidos: Apple, Microsoft, Nvidia, Alphabet, Amazon, Meta e Tesla. As maiores big techs. Elas detêm um poder muito concentrado, pois compram as concorrentes que surgem. Este é um oligopólio planetário, o Facebook atinge hoje quase 4 bilhões de pessoas no mundo.

Particularmente, a partir de 2010, nós acompanhamos o crescimento exponencial das big techs. Entre os principais acionistas dessas empresas, estão os gigantes financeiros como BlackRock, State Street, UBS, Vanguard, Fidelity, JPMorgan, Goldman Sachs e outros gestores financeiros globais.

Isso significa que o controle da informação e da indústria da atenção está articulado com o controle financeiro global. É um aspecto importante, porque na chamada indústria da atenção, que envolve as big techs, os lucros resultam menos da produção, e essencialmente da capacidade de se apropriar das informações privadas, gerando um imenso potencial de manipulação comercial e política.

A invasão incessante da nossa privacidade por anúncios que não pedimos representa custos para todos nós, nas compras que fazemos. Cerca de 98% dos lucros do Facebook provêm da publicidade e esses custos estão incluídos nos preços que pagamos por esses produtos que compramos; e também no tempo perdido nas interrupções que fragmentam a nossa atenção.

A Oxfam aponta que Donald Trump reduziu impostos dos super-ricos e a pressão fiscal internacional sobre as grandes corporações. Como você vê o papel dos Estados Unidos neste processo?

Os Estados Unidos desempenham um papel particular, ao constituir o maior sistema de dreno financeiro no planeta, e também na história. Trump se queixa de sua balança comercial deficitária, ou seja, os Estados Unidos compram mais do que vendem. Mas isso significa que consomem mais do que produzem, vivendo da produção de outros países.

Como eles pagam? Acumulando a dívida, que hoje atinge US$ 38 trilhões (R$ 200,6 trilhões), quando o seu próprio PIB é de US$ 29 trilhões (R$ 153 trilhões). No caso norte-americano, quando eles precisam pagar, basta emitir dólares, informação imaterial com dinheiro digital, que não geram inflação, pois os dólares emitidos são utilizados como reservas no resto do mundo.

De Gaulle, o ex-presidente francês, resumiu isso nos anos 1960: “nós os pagamos para que eles nos comprem”, e começou a trocar os dólares da França por ouro. Então, os norte-americanos simplesmente tiraram a cobertura de ouro para o dólar em 1971, quebrando os acordos de Bretton Woods e liberando a emissão monetária. Agora, se eu emito dinheiro na minha casa, é crime.

Qual o impacto de tamanha desigualdade?

Essa dimensão da desigualdade gerou um planeta fraturado. O mundo se dividiu em Norte Global e Sul Global, e a divisão se aprofunda. O grupo de países ricos, com 16% da população mundial, tem 56% da riqueza global acumulada. O movimento dos BRICS faz parte desta busca por batalhar uma divisão internacional mais justa.

A desigualdade não é uma herança infeliz, é um processo construído ativamente e em plena expansão. O escândalo é particularmente chocante quando nos damos conta de que o que produzimos no mundo é amplamente suficiente para assegurar a todos uma vida digna e confortável.

Não me passa pela garganta a estupidez e ignorância dos bilionários deste mundo, que pensam em Marte e outras besteiras quando 750 milhões de pessoas passam fome, 2,3 bilhões estão em insegurança alimentar, e cerca de 6 milhões de crianças morrem anualmente de fome no mundo. Sem falar dos lucros que eles fazem com as guerras. Permitam-me citar Robert de Niro: “Fuck Trump”.

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