Desfavores à humanidade

Mesmo aqueles entre os mais céticos e avessos à religiosidade devem concordar que as religiões têm sua importância e que a fé é, talvez, uma das manifestações humanas mais bonitas e sadias de que se tem conhecimento.

Por outro lado, não é difícil encontrar devotos que tenham uma visão crítica quanto a determinadas posições e práticas de instituições religiosas e que não entendem como pode ser possível, em pleno século 21, que certas declarações sejam feitas “em nome de Deus”.

Um clássico exemplo é o desfavor que a Igreja Católica faz à humanidade ao desestimular o uso de preservativos em países pobres, particularmente na África, continente em que o vírus é absolutamente epidêmico, e onde milhares de bebês já nascem contaminados todos os anos.

Outra questão que também se mostra um tanto quanto atrasada para os tempos de hoje diz respeito às pressões da Igreja para que sejam embarreiradas as pesquisas com células tronco, as quais poderiam dar origem a uma verdadeira revolução nas pesquisas genéticas.

A recriminação do aborto corresponde também a um posicionamento que, embora admirável, não condiz com a realidade que vivemos. Ao assumir tal postura, a Igreja exerce significativa influência para que o tema não seja sequer discutido por governos, como o brasileiro, quando se sabe que milhares de mulheres põem suas vidas em risco para realizar o procedimento junto a clínicas ilegais ano após ano.

Em todos esses casos, porém, não deixa de ser compreensível que a Igreja aja de tal forma, pois está, teoricamente, seguindo preceitos e orientações divinos – se a interpretação bíblica está correta e se a Bíblia é mesmo um documento que, de fato, traduz a fala de Deus, aí já são outros quinhentos…

Os casos mais graves, entretanto, parecem ser aqueles que extrapolam o âmbito da instituição religiosa e seus representantes, e envolvem diretamente devotos fanáticos que, para piorar, possuem relevante poder de influência junto às massas.

Esta semana, por exemplo, o deputado do Partido Republicano dos EUA, Todd Akin, declarou que dificilmente uma mulher estuprada engravida. Para justificar a pérola, o político – que é membro do Comitê de Ciência da Câmara dos Deputados (!!!!!) – disse que, no caso de um “legítimo estupro”, as mulheres teriam como evitar a gravidez.

É incrível como, em apenas algumas palavras, uma só pessoa tenha a capacidade de cometer tantos atentados contra a inteligência humana e, ao mesmo tempo, dar margem à manutenção de preconceitos que só poderão trazer contribuições negativas para a sociedade.

Senão vejamos: em primeiro lugar, o deputado apresenta claramente uma visão machista quanto ao assunto, dado que, até não muito tempo atrás (e ainda hoje isso acontece), boa parte das mulheres estupradas eram consideradas culpadas – como se fossem “vadias” que permitiram que o homem lhes tivesse atacado.

Segundo: o que ele quis dizer com “legítimo estupro”? Isso significa que há estupros consentidos? Ora, estupro consentido é sexo casual, e isso nada tem a ver com estupro. Ao utilizar essa expressão, o deputado simplesmente quer mostrar que é contrário ao sexo casual – e tente imaginar você, leitor, quais as chances de ele mesmo nunca ter feito isso –, de certa forma condenando o coito fora do casamento e dando a entender que mulheres adeptas a tal prática talvez mereçam mesmo ser estupradas.

Por último, o criativo político procura dar um pano de fundo científico a sua bestial declaração, ao implicar que as mulheres teriam mecanismos de defesa que impediriam que o espermatozoide do estuprador fecundasse o óvulo da vítima, quando não há nada na medicina que prove que o organismo feminino seja capaz de realizar tal proeza.

Acontecimentos como este nos fazem lembrar que as religiões em si de nada têm de ruim. O problema são seus porta-vozes, principalmente aqueles que assumem espontaneamente tal condição. Claro que, eventualmente, as instituições religiosas cometem equívocos ao se comunicar com o povo, mas há um limite e até certo grau de bom senso que costumam cercear seu discurso (ao menos no caso das sérias).

Declarações como a de Todd Akin só não causam tanto estrago porque, com a difusão dos meios de comunicação, rapidamente uma onda reativa chega ao alcance de milhões de pessoas, que logo têm acesso aos contra-argumentos. No entanto, sempre haverá aqueles que reforçarão suas convicções ao escutar oportunistas hipócritas como o deputado republicano.

Oportunista sim, porque tudo o que Akin desejava, com isso, era conquistar um nicho de eleitores – conservadores, puritanos, etc. E hipócrita porque ele certamente sabe que não existe estupro que não seja legítimo. Fica a pergunta: se fosse sua filha a vítima, será que vossa excelência manteria essa posição?

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