Democracia: novos tempos e antigas práticas

Um dos principais argumentos utilizados para convencer que vivemos numa sociedade verdadeiramente democrática é que, no nosso Brasil (quase todo privatizado), os homens são livres e têm direito a liberdade de expressão. Lindo isso, não acha? Mas a realidade não é bem assim. Pelo menos não para todos.
Cotidianamente nos deparamos com o discurso de liberdade, do indivíduo livre que tem direito de fazer todas as suas escolhas – políticas, amorosas, profissionais, etc. A palavra escravidão, foi abolida da sociedade neo capitalista democrática – apesar de chegarem ao conhecimento público denúncias de pessoas trabalhando em condições escravas.
A grande verdade é que o homem nunca foi tão escravo do trabalho como na atualidade. O sistema apenas mudou a forma de escravizar. O chicote tornou-se desnecessário frente ao novo método. A publicidade, a alma do negócio, é o recurso utilizado para submeter o indivíduo a escravidão. Hoje somos – não me exclua fora dessa – escravos do consumismo desenfreado, do modismo ditado pela grande mídia. Trabalhamos e não vemos a cor do dinheiro que, já está todo pré-destinado a quitar parcelas do cartão de crédito. Na verdade, nem o direito a escolha temos, pois as sedutoras campanhas publicitárias criam em nós novas necessidades e desejos de consumo, que na maioria das vezes são supérfluos. No final das contas nos pegamos vivendo para trabalhar e não trabalhando para viver.
Liberdade de expressão: muitos acreditam que esse direito é garantido a todos os cidadãos brasileiros. Um grande engano. Experimente organizar uma manifestação reivindicando direitos ou protestando algum ato político e verás a calorosa recepção que o aguarda – Policiais equipados com armas, ditas, não letais; balas de borracha, cassetete, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. É sempre assim. Não importa a origem da manifestação e quem dela participa, todos são rotulados como vagabundos e desordeiros. E querem que acreditemos que a censura é coisa do passado, assim como a ditadura.
Outro exemplo de censura aconteceu na última terça-feira (03/05) quando a Polícia Federal, junto com a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), subiu o Morro Santa Marta, exclusivamente, para desarticular a rádio comunitária da comunidade. Sem mandato, apreenderam o transmissor da Rádio Santa Marta e levaram os líderes desse movimento (Rapper Fiell e Peixe) para prestarem depoimentos.
A Rádio Santa Marta tem como principal finalidade dar voz ao morador, ou seja, garantir o seu direito de liberdade de expressão. Mas iniciativas desse gênero, que têm como proposta a organização política da comunidade, são encaradas pelas nossas autoridades governamentais como uma afronta. Censurar e desarticular movimentos sociais que vão contra o sistema é uma cultura política do nosso país.
Ao final do que foi refletido aqui, podemos afirmar que os tempos mudaram, mas as práticas políticas, não.
(*) Artigo publicado originalmente no blog Barraco@dentro.

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