DA CRÍTICA DOS EFEITOS À CRÍTICA DA RAIZ: Democratizar o Estado ou seguir ousando construir um outro mundo possível e necessário?

Já perdemos a conta de quantas vezes temos citado uma afirmação feita por José Dolores, personagem do filme “Queimada”: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.” No processo de humanização que somos chamados a protagonizar, importa-nos tanto ir tendo clareza do rumo que perseguimos, quanto dos caminhos, métodos e posturas que devem acompanhar-nos nessa trajetória. A liberdade a que aspiramos, só alcançamos por caminhos também de liberdade! Feita essa ressalva, voltamos à afirmação de José Dolores, com o propósito de nos alertar quanto à perda de rumo a que tendemos a sucumbir, habituados que estamos a trilhar pistas, fazendo mil coisas, sem nos perguntarmos para onde elas estão nos conduzindo. Eleição após eleição, escândalo após escândalo, numa sucessão crescente de graves deslizes ético-políticos, quanto a descumprimento de promessas públicas solenes, política de aliança, abandono de causas ético-políticas por figuras e grupos de referência histórica respeitada, acelerado nivelamento por baixo com outras forças políticas antes combatidas…

A quem se disponha a perceber, com discernimento, multiplicam-se os sinais de comprometimento irreversível de nossa realidade, a afetar suas distintas esferas: social, econômica, política, cultural, ambiental… E, não obstante, diferentemente do modo de analisá-la posto em prática nos anos 80 e mesmo nos anos 90 – em que as forças de esquerda de então, comprometidas com as transformações estruturais, primavam por uma análise macro-social -, hoje prevalece largamente a tendência de se limitar a críticas pontuais e astutamente seletivas em cima de um ou outro aspecto do espectro social.

Analistas de referência dos anos 80 – época de intensa fermentação dos movimentos sociais com projeto alternativo de sociedade, nas pegadas de forças expressivas que surgiam como movimentos sociais, a exemplo do PT e da CUT – que primavam por uma análise macro-social de consistência e de grande fôlego, hoje, com raras exceções, preferem ater-se, estranhamente, a críticas seletivas de pontos isolados da realidade, feitas a varejo. À medida que o sistema faz desfilar suas incessantes (e crescentes!) “disfunções”, aqueles analistas passam, espertamente, a tecer críticas – às vezes até contundentes! – sobre cada uma delas, tendo a “prudência” de não tomá-las em seu conjunto, ainda que o ritmo e a sucessão dessas “disfunções” vão acabar por desmascarar as razões que se escondem por trás de sua postura seletiva, tentando “esconder o sol com a peneira”…

Intelectuais de indiscutível prestígio nos anos 80 e 90, passam estranhamente a negligenciar o caráter estrutural dessa sucessão de “malfeitos”, sobretudo a partir dos anos 2000. A cada ocorrência de escândalos, tratam de assumir procedimentos vulpinos de lidar com a nova situação:

– ora omitindo ou amaciando suas denúncias, inclusive diante de fatos que antes criticavam com veemência;

– ora preferindo recorrer a um repertório temático desfocado da conjuntura nacional;

– ora enfrentando fatos espinhosos, mas aliviando sensivelmente o tom das críticas, em relação ao que antes adotavam quanto às políticas sociais de governos precedentes…

Passaram a lidar com as mazelas sociais, cada uma de per si, como se cada uma pudesse esgotar-se em si mesma, e como se não estivessem todas organicamente entrelaçadas à mesma lógica do sistema que as caracteriza. E assim, passam a denunciar, a varejo, fios soltos do mesmo modelo: do “mensalão” à política de alianças; da sucessão de escândalos nas distintas esferas do sistema às prometidas e não implementadas reformas estruturantes; das graves questões ambientais às políticas sociais compensatórias… Em breve, passaram do habitual exercício da crítica à raiz dos problemas à crítica dos seus efeitos.

Procedimento que passa a ter uma influência considerável – de involução! – sobre distintos segmentos da sociedade – no meio acadêmico, em amplos círculos eclesiais ligados às pastorais sociais e a serviços de referência progressista à luz da Teologia da Libertação. E aqui não nos referimos às novas e necessárias abordagens de caráter holístico assumidas na produção teológica, mas às novas avaliações que passaram a ser feitas, de notável condescendência à política econômica adotada nos governos pós-FHC, ainda quando a nova política econômica carrega(va) os mesmos vícios.

De repente, a gente decide complicar as coisas, tanto no plano macro-social como ao interno de segmentos de igrejas cristãs antes colados às lutas e movimentos populares. Parte destas – referimo-nos a segmentos da Igreja Católica e de outras igrejas evangélicas que compõem o CONIC (Conselho de Igrejas Cristãs) -, durante um bom tempo, empenhava-se na luta por uma nova sociedade. Basta recorrer a inúmeros relatos, documentos e registros de um número considerável de experiências do que se costumava chamar de “Igreja na Base” ou “Igreja dos Pobres”, o que se fazia presente nas CEBs (ver os lemas dos intereclesiais dos anos 80…), no CIMI, na CPT, na CPO, na PJMP, na ACR, nos CDDHs, etc.

À medida que as forças políticas aliadas foram conquistando espaços estatais, graças a seu acesso às Câmaras Municipais, às Prefeituras, às Assembléias Legislativas, aos Governos estaduais, ao Congresso e à Presidência e respectivos órgãos, boa parte desses segmentos também passou a mudar seu procedimento de análise, mesmo quando os fatos apreciados tinham o mesmo caráter de antes. Mais: cresce a tendência a um apoio incondicional a essas instâncias, ao ponto de um número não desprezível de ministros ordenados e de leigos antes comprometidos com as lutas populares passarem a disputar mandatos populares, e, uma vez eleitos, não apenas já não se dispunham a voltar às bases, como tratavam de reforçar o apoio incondicional às políticas sociais implementadas, mesmo quando tinham o mesmo caráter assistencialista antes tão criticado, com veemência.

Seguindo esse compasso, já não simpatizam com setores que continuam empenhados na construção de uma sociabilidade alternativa ao modelo capitalista de organização e de gestão de sociedade. Isto até pode continuar presente nos discursos, mas as práticas falam outra coisa. A Utopia aí já não tem lugar. Agora já não se trata de superar – ainda que a longo prazo – o Capitalismo, mas de buscar “humanizá-lo”, torná-lo palatável. O Estado já não é visto como aquele instrumento indispensável à exploração capitalista pela ação devastadora (dos humanos e do Planeta!) protagonizada pelas grandes corporações que, em última instância ditam as políticas do Estado. Agora, à semelhança do que se dá em relação ao Capitalismo que cumpre “humanizar”, passa-se a buscar “democratizar o Estado”…

E assim, vai-se fazendo vistas grossas às crescentes contradições que a atual conjuntura vai apresentando, no que diz respeito às ações do Estado de crescente cumplicidade com os brandes grupos financeiros (que lucram como nunca antes), com o agronegócio, com as empreiteiras, com as grandes empresas, à custa dos interesses das políticas sociais estruturantes que ficam jogadas às calendas gregas.

Já não se dá atenção à qualidade social e à direção ético-política das ações rotineiras. Prevalece a tendência a tudo justificar. Tornamo-nos, não raro, uma indústria de auto-justificativas. Inclusive a de que, sendo mulheres e homens do “nosso tempo”, não há como fugirmos às injunções históricas. Já que não podemos vencer o Capitalismo, cuidemos de amenizar seus efeitos, isto implicando “nossa” participação orgânica na máquina estatal, sob a alegação – quase nunca expressa, mas tácita – de que “nós lá, a coisa será outra”… Será mesmo? Que tal nos colocarmos algumas perguntas?

Se temos tanta certeza da qualidade social desse caminho, seguindo empenhados na “democratização do Estado”, como explicar os esdrúxulos índeces de desigualdade social reinantes no Brasil, em relação a tantos países de economia bem aquém da nossa? O que acontecerá conosco, se insistirmos em tudo (auto)justificar, com euforia, pelos resultados alcançados dos programas de benefícios compensatórios? Em que tais políticas têm incomodado os grandes grupos econômicos, em seus lucros escandalosos? O que dizer dos escandalosos lucros auferidos pelo setor financeiro, no tocante à dívida pública, em que ocorre uma sangria estimada em mais de dois bilhões de reais por mês? Um verdadeiro assalto ao tesouro público, um “mega-mensalão”, sobre o qual poucos falam!

Que lugar ocupa o Brasil na classificação geral dos países por índices como o Gini (o terceiro pior do mundo, em matéria de desigualdade social) e o IDH (lá pelo 84º lugar)?

O que tem sido feito das reformas estruturantes, a exemplo da Reforma Agrária? Que percentual do orçamento é destinado à agricultura familiar (uns trinta bilhões de reais?) e que fatia do mesmo é destinada ao agronegócio (mais de cem bilhões de reais)?

Dá para nos contentarmos com o fato de que o PAC está prometendo construir, em oito anos!, dois milhões de casas, enquanto o déficit habitacional ultrapassa bem mais de três vezes esse número, sem mencionar que o déficit real de moradias pode ser dobrado, dados os critérios de computação estatística de moradias, em que são registrados casebres indignos à morada de humanos?

Quem se beneficia na sustentação acrítica desse modelo? Que pessoas e grupos de militantes tiram proveito pessoal ou grupal das benesses desse modelo?

Ser mulheres, ser homens do nosso tempo deve implicar um enquadramento automático às regras do jogo em curso, uma composição acrítica e uma assimilação incondicional dos valores hegemônicos?

Mais preocupante ainda, quando se trata de cidadãos e cidadãs que, também em nome de sua fé cristã, após terem tido uma trajetória profética, durante determinada conjuntura, passam a tomar distância daquela posição, diante de fatos semelhantes ou mais graves que antes denunciavam.

Como um dos veios de autojustificação, há quem se contraponha a esses questionamentos, alegando que se trata de uma atitude de alguém que não vive neste mundo, não aceita que somos seres limitados, vivemos com pessoas de carne e osso, e não entre anjos. Alegam, também, que, já não sendo razoável pensar-se em ruptura da ordem vigente, dada a correlação de forças, o jeito é ir convivendo em paz com o atual modelo, buscando amenizar seus efeitos perversos, e dele buscando recolher o máximo de proveito… Há, a esse respeito, gente que assim pensa e age, com convicção e sem intenções segundas.

Nada temos a cobrar dessas pessoas, a não ser desejar-lhes que aprimorem, dia após dia, sua consciência crítica. Há, também, quem assim haja com esperteza. No fundo, quem assim age, está tirando proveito pessoal ou grupal da situação. Esses se enquadram melhor no mesmo alvo da crítica feita por Paulo Freire, num ensaio escrito nos inícios dos anos 70, intitulado “O papel educativo das Igrejas na América Latina” (ver FREIRE, P. Ação Cultural para a Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, 3ª. Ed., pp. 105-127), em que trata de desvelar tanto as ações indênuas, como as astúcias de quem age em proveito próprio, apesar das prédicas, discursos e declarações de compromisso.

Reconhecendo que as coisas são misturadas, e que as críticas aqui formuladas tomam em conta exceções preciosas de pessoas que seguem apostando, de boa fé, nas trilhas da rotina institucional, tratamos de exercitar um diálogo aberto, a partir das inquietações aqui levantadas, seguindo, quanto a nós, apostando em que é possível e necessário investir trabalho e tempo na busca de reinventar uma sociabilidade alternativa que faça justiça ao sonho de uma sociedade justa, solidária, fraterna, amorosa em suas relações com os viventes e com o Planeta.

João Pessoa, 1 de agosto de 2012.

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