Custo Brasil

Há alguns meses, publicaram-se em portais da internet imagens das impecáveis obras de recuperação de uma estrada concluídas pelo governo do Japão seis dias após o Tsunami que atingiu o país em março deste ano.

O destaque dado ao evento era compreensível, não só pela indiscutível proatividade e disciplina dos japoneses, mas pelo fato de que, no Brasil, prejuízos de menores proporções que os ocasionados pela tragédia nipônica dificilmente são sanados pelos governantes em tempo hábil e com os recursos inicialmente previstos.

Imagem do Portal G1 mostra a estrada destruída pelo terremoto e, apenas seis depois, reconstiuída

Pois bem, já chega ao fim o mês de novembro e as chuvas começam a ganhar intensidade novamente na cidade de Nova Friburgo (RJ), município mais afetado pelas chuvas que resultaram na destruição de bairros e em milhares de mortes na serra fluminense, em janeiro passado. E o que foi feito até agora?  Ao que parece, muito pouco.

Na realidade, afora as sirenes colocadas em áreas de risco para alertar os moradores sobre a chegada de tempestades, e a recuperação de algumas áreas-chave da cidade – principalmente no Centro de Friburgo –, nada de substancial foi realizado.

Por substancial, entendem-se medidas que procurem cortar o mal pela raiz, e não apenas fazer uso cosmético dos milionários recursos destinados a projetos que evitem que novas tragédias em função das chuvas ocorram.

Entre as ações que deveriam ser tomadas estão obras de drenagem e contenção de encostas, além da realocação de famílias que vivem em pontos de geologia crítica, ação esta a ser preferencialmente orientada pelo desenvolvimento de uma política de habitação pública decente.

Por decente, entende-se uma iniciativa que não tenha como objetivo último agradar empreiteiras (não raro, generosas financiadoras de campanhas políticas) que venham a ser favorecidas em licitações milionárias para, depois – como se não bastasse o fato de não terem vencido o bid por oferecerem preço menos oneroso ao Estado –, executarem obras com material de segunda ou terceira qualidade.

Um projeto de habitação correto é aquele que não serve apenas como fonte de propinas para fiscais, dirigentes e políticos, além de palanque para estes últimos angariarem votos junto à população mais afetada pela tragédia – logicamente, a massa mais pobre e miserável que, em troca de qualquer lata de leite em pó, costuma conceder seu voto.

Mas, no Brasil, ao contrário, talvez, do que ocorre no Japão, o processo que intermedeia o recebimento e a aplicação de recursos públicos é dominado por práticas ilícitas, que acabam redundando no desvio de verbas. Qualquer cidadão minimamente antenado sabe, por exemplo, que, para que uma obra seja tocada, é preciso que diversos pares de mãos sejam “molhados”.

Enquanto isso não ocorre, dificilmente as ações previstas são executadas, mesmo em casos de extrema necessidade, como os de cidades como Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Trata-se do “Custo Brasil” – não aquele reclamado por associações industriais e empresários, sempre às voltas com os altos encargos e burocracia estatal que embolam seus negócios, mas o relativo ao ônus de uma estrutura política arcaica, movida basicamente ao fisiologismo.

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A reboque da ocupação da Rocinha, grandes jornais brasileiros vêm detalhando esquemas de pagamento de propinas a policiais articulados por traficantes, mostrando, inclusive, as diferentes taxas cobradas caso a caso. Que tal divulgar também os preços estabelecidos por políticos e autoridades para deixarem as coisas acontecerem na Região Serrana do Rio de Janeiro? Seria, no mínimo, educativo e, talvez, esquentasse um pouco os ânimos das populações locais.

 

 

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