Congresso de Extrativistas termina com esperanças na juventude e nas lutas da nova diretoria

Nova diretoria do CNS eleita no congresso para os próximos três anos. Foto: Eduardo Sá.

Macapá (AP) – Ao final do III Encontro Nacional de Populações Extrativistas, que acabou na última quinta-feira (08), foi elaborada coletivamente uma carta política com diversas propostas e reivindicações do movimento para servir de subsídio à agenda em 2013 e dialogar com o governo. Em seguida foi realizada a eleição para presidência do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), que por aclamação unânime será liderado por Joaquim de Souza Belo. A coordenação é composta por 27 pessoas, dentre elas o atual presidente, Manoel Cunha, e tomará posse a partir de janeiro de 2013 para um mandato de três anos.
O documento final foi construído com base nas discussões dos eixos nas mesas temáticas: reforma agrária, assistência técnica, saúde e educação para as populações das florestas e das águas. É reivindicada a criação de 10 reservas extrativistas e a ampliação de 16, além do destaque para a elaboração do Plano Nacional do Extrativismo, iniciativa interministerial de coordenação de políticas para as populações extrativistas, lançado nesta ocasião.
“O III Congresso acontece em um momento em que enfrentamos graves problemas em relação à questão fundiária, à constante pressão sobre os recursos naturais, à crescente emissão de gases poluentes que alteram o equilíbrio do clima e à ausência de políticas públicas eficazes que invertam esta situação. Também enfrentamos a lentidão na aplicação de ações relacionadas aos planos de manejo, assistência técnica, crédito, agregação de valor no processo produtivo, introdução de novas tecnologias, além da precariedade nas questões de saúde, educação, comunicação, infraestrutura e segurança”, afirma a introdução da carta política.
O presidente eleito disse ter consciência de sua responsabilidade e que a atual conjuntura é muito importante para as lutas do CNS. Ele destacou que ainda precisa avançar muito além das 59 reservas extrativistas e as 30 de desenvolvimento sustentável, além das centenas de assentamentos.
Joaquim Belo, no presidente do CNS. Foto: Eduardo Sá.

“O CNS tem que atuar de forma diferente. Não tem como uma agenda tão grande ficar nos ombros de tão poucas lideranças. As secretarias de mulheres e juventude, dentre outras, terão o papel de fortalecer as regionais junto às cooperativas e reservas. Temos que ir juntos nessa caminhada. A juventude tem um papel importante nessa luta e na continuidade das reservas, espero que ela venha mais forte no próximo encontro”, disse Joaquim Belo.
A próxima reunião, segundo ele, será em Rondônia por ser um estado muito fragilizado. E no início do ano, complementou, serão definidas as estratégias e metas a partir das resoluções que foram tiradas durante o congresso. Belo agradeceu ainda o apoio do governo e de outras instituições pela realização do evento, e observou que é preciso fazer um balanço da conjuntura dos governos da Amazônia e federal para estabelecer algumas alianças.
Uma das referências da luta ambientalista no Brasil, a antropóloga Mary Allegretti, presidente do Instituto Chico Mendes Memorial, elogiou o congresso e reforçou a importante participação dos jovens. Anunciou uma nova sede em Brasília, graças ao apoio da Fundação Ford, que será parceira do CNS. Ela também parabenizou a diretoria que está saindo, por ter atingido tantas conquistas em meio a muitas dificuldades financeiras.
“É muito importante que os filhos estão dando sequência às lutas. E essa diretoria atravessou muitos problemas financeiros e convênios que não foram realizados em cima da hora. Mesmo assim conseguiu se manter coesa e com respeito nacional tão alto quanto na época do Chico Mendes. Essa nova diretoria vem composta pela diversidade de gênero e idade com desafio de avançar a partir do que já foi conquistado”, afirmou Allegretti.
O secretário nacional de Meio Ambiente do Partido dos Trabalhadores (PT), Júlio Barbosa, resgatou a trajetória das lutas travadas por Chico Mendes e destacou a importância de uma mensagem deixada pelo seringalista aos jovens em 1988. Segundo ele, Mendes era um visionário e acreditava que só haveria mudanças com muita organização.
“Foi assim que nasceu o CNS e o debate do uso da terra na Amazônia. A criação das Resex (reservas extratovistas) não cai do céu, só é viabilizada para atender nossos interesses se tivermos unidos, organizados e lutando. Se hoje temos 59 e milhares sob nosso domínio mas muitos ainda não têm direito a usar, então ainda está muito longe de transformarmos naquilo que sonhamos. Os jovens precisam ter consciência que todas as conquistas custaram”, alertou.
O Congresso encerrou com a fala de Manoel Cunha, presidente do CNS que será substituído a partir do ano que vem e assumiu a tesouraria do movimento. Ele agradeceu a presença de todos os delegados, levando em consideração a dificuldade que muitos enfrentaram para chegar até o evento. Sua conclusão foi de esperança com a continuidade da luta através da juventude.
“Esse congresso desconstruiu uma sensação, os jovens sentem sim essa necessidade no coração e peço que continuem. Vocês que estarão no futuro, têm que se empoderar. Estou contente com a chapa eleita, foi a melhor que poderíamos construir na delegação que temos. A nata do movimento extrativista está nela, e tenho certeza que vai fazer um bom trabalho. É previsto avançar na coluna vertebral: a melhoria das condições de vida e o empoderamento das comunidades extrativistas”, concluiu Cunha.
(*) Matéria reproduzida da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

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