Comunidade, corpus políticos, em diálogo à luz do Movimento de Jesus

Pretendo nestas breves linhas, desenvolver algumas experiências e reflexões com a finalidade de contribuir para o debate e a ação inspirada pela XI Semana Teológica Pe. José Comblin.

Para começar, direi que o conceito de comunidade têm uma ressonância muito forte na minha experiência de vida. Desde bem cedo aprendi que são os trabalhos em comum o que constrói a unidade entre as pessoas. Aquilo que fazemos cooperando para um bem comum. Podem ser tarefas domésticas, atividades educacionais. Aquilo que nos faz saber de maneira concreta e direta, que precisamos de outras pessoas para ser felizes, para sobreviver, para crescer, para o que for.

Muitos anos depois destas primeiras lições de vida, já aposentado do meu trabalho como docente na UFPB, vim para a Terapia Comunitária Integrativa, como uma atividade de extensão do Departamento de Enfermagem em Saúde Pública e Psiquiatria da UFPB no conjunto dos Ambulantes, em Mangabeira (João Pessoa, PB). Eu estava tentando desde fazia tempo, sair de uma depressão profunda. Estava difícil. Nessas jornadas de preparação e realização de rodas de TCI com pessoas bem pobres materialmente mas ricas em alegria e disposição de melhorar, fui vindo eu também à tona.

Lembro de uma canção daqueles tempos: “Quem disse que não somos nada, que não temos nada para oferecer, repare nossas mãos abertas trazendo as ofertas do nosso viver. Recebe Senhor…”

Participei do crescimento e expansão da TCI pelo Brasil, tanto na Paraíba como em outros estados (Mato Grosso) e também no exterior (Uruguay, Argentina, Bolívia).

Esta caminhada foi me trazendo de volta, e continua a fazê-lo. Recuperei uma sensação de que se pode agir em colaboração com secretarias municipais de saúde, movimentos sociais, universidades, gerando espaços de construção de vínculos solidários, reforço da autoestima e da capacidade resiliente, e sentimento de pertencimento.

Isto é comunidade. Me vejo nas histórias das demais pessoas, que se veem na minha própria história. Não tentamos nos homogeneizar nem pensar ou agir da mesma maneira. Antes ao contrário, aprendemos a conviver com as diferenças, tentando fazer do choque uma possibilidade de crescimento, em direção a uma cultura de justiça e paz.

Como se conecta esta ação cidadã com a ação cristã?

Posso dizer que a TCI é uma ação cristã, no sentido de que, como o Pe. José Comblin afirma, ela faz com que apareça a pessoa esquecida.

A pessoa fala de si, do que lhe tira o sono, as suas preocupações, e também das suas vitórias e conquistas.

Vamos perdendo sensações de vazio ou sem-sentido. O fatalismo cede espaço para a esperança. Saímos do imobilismo.

A atividade de TCI em Mangabeira que mencionei no início desta nota, ativou a auto-confiança das pessoas da comunidade, em conjunto com a ação do pessoal do Programa de Saúde da Família. As reuniões motivavam a dançar e cantar. Reclamar junto à prefeitura municipal a respeito da coleta do lixo.

Neste ano e meio já quase de confinamento e restrições ao contato direto, a TCI on line vêm sendo um espaço de potenciação da recuperação da identidade e do sentido de viver para muitas pessoas.

 

 

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