Comunicado de Imprensa: Uma Igreja a renovar (Nota de Nous sommes aussi l´Église)

Uma instituição de um outro tempo

Gostaríamos de que a decisão honrosa de Bento XVI, de se resignar fosse vivenciada como um momento privilegiado para convidar as comunidades católicas para repensar sua estrutura de governo e os privilégios medievais que essa estrutura comporta. O papado e o Vaticano constituem um Estado masculino à parte, que possui uma representação diplomática influente, e que também é servido por milhares de mulheres através do mundo, em diferentes instâncias de sua organização. A instituição é um sistema dominado por funcionários convencidos de sua ideologia que eles atribuem ao Espírito Santo. Esse sistema está bem distanciado da atenção de Jesus aos mais fragilizados da sociedade, da gratuidade de Jesus, de sua postura confiante em relação ao Mundo. Jesus sabia ler os sinais de seu tempo; para fazer isto hoje, é preciso estar de olho na realidade.

À escuta do mundo de hoje

Os cardeais que se vão reunir e que têm a responsabilidade de decidir sobre o futuro da Igreja, será que vão ignorar que fora deles existe o mundo – que vive grandes dificuldades – e que são os leigos que nele trabalham? E que, em consequência disto, haveria interesse em escutar o eles têm a dizer, em sua diversidade de culturas e de expressões de fé? Haveria interesse em confiar no Povo de Deus, em vez de ser o seu guardião, em confiar nos homens e nas mulheres que, por todo o mundo, se comprometem em anunciar o Evangelho e sua mensagem libertadora e emancipadora.

Rumo a uma ousadia evangélica.

Dos cardeais eleitores esperamos que o medo, a vergonha, a humilhação que, neste momento, cercam a Igreja enquanto instituição, não os desviem de tentar o “novo” lá onde o “velho” está morto, de buscar uma alternativa profética, capaz de fazer surgir de novo as ideias mais revolucionárias para lhe dar uma nova força evangélica.
Da Igreja esperamos que ela repense sua relação com a Escritura, segundo a qual Deus teria revelado verdades eternas, contidas na Bíblia, e das quais ela seria a única depositária. Porque Deus entra em relação com a humanidade, e que a Bíblia é a narrativa da experiência desta relação, pensamos que o papel da Igreja é de facilitar a continuidade dessa experiência e não de dar lições a todos – inspirando-se nas Escrituras e pondo-se à escuta dos mais pobres.

Libertar a inteligência da Igreja

A Igreja em crise tem, mais do que nunca, necessidade de espíritos livres. Uma primeira medida a tomar seria dar voz aos teólogos profetas que foram condenados ao silêncio, para, com eles, abrir novos caminhos de esperança para uma humanidade que busca, também ela, novos horizontes. Trata-se de libertar com confiança a inteligência da Igreja que foi travada por condenações e excomunhões de um outro tempo.
Estamos abertos à esperança de uma mudança na cabeça da Igreja, e acolheremos, com alegria, tudo quanto vier no sentido de uma maior fidelidade ao Evangelho. Mas estamos sobretudo convencidos de que nossa primeira missão não é de trabalhar pela manutenção de uma estrutura eclesial, mas de corrermos o risco de viver o Evangelho no coração da humanidade.

Texto adotado pelo Conselho de Administração de NSAE, em sua reunião de 2 de março de 2013.

Trad.: Alder Júlio Ferreira Calado

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