Como se livrar da pobreza?

Em um primeiro momento até que foi fácil. Com ajuda das mais modernas técnicas de edição, os vídeos oficiais da candidatura do Rio de Janeiro à sede dos Jogos Olímpicos de 2016 fizeram desaparecer todas as favelas da cidade. O problema é que, uma vez campeões, Eduardo Paes e Sérgio Cabral perceberam que, veja só, elas ainda estavam por lá – e mais: abrigando quase um terço da população do Rio em condições notoriamente precárias de infra-estrutura. A questão, então, passou a ser como livrar-se delas o mais rápido possível.

A estratégia, no entanto, havia começado muito antes. O governo já tinha lançado a chamada Unidade de Polícia Pacificadora, que começou em uma experiência – hoje considerada modelo – na favela Santa Marta. O objetivo, segundo a Secretaria de Segurança Pública, era devolver o controle do território, antes em poder de bandidos, aos seus verdadeiros donos: os moradores das comunidades ocupadas. A ideia, em um primeiro momento, parece boa, mas é preciso cuidado.

Antes de tudo, é importante lembrar que, para a grande maioria dos moradores, viver nas favelas não é uma escolha, é sua única possibilidade. Não é vontade de ninguém, vale reforçar, morar em localidades sem infra-estrutura de serviços. Afinal, ninguém realmente deseja viver sob a ocorrência constante de apagões, falta de água e problemas de esgoto. Mas como fazer quando é preciso sustentar uma família inteira e não há um sistema de transporte de qualidade que possibilite o deslocamento casa-trabalho? Simplesmente não há opção.

As famílias que vivem nas favelas só estão lá porque não têm poder aquisitivo para estar em um lugar com mais qualidade de vida. As UPPs, no entanto, desconsideraram esse fato e trouxeram uma tarifação de serviços – ainda por cima de qualidade duvidosa – que não permite que grande parte da comunidade ali instalada possa pagar. Conclusão: os moradores, sem a capacidade de suportar essa tarifação, vêem-se obrigados a se mudar das favelas para outros lugares mais afastados dos grandes centros. Ocorre, como se pode notar, uma remoção camuflada, já que os morros passarão a ser ocupados por uma classe média baixa, estes sim com poder aquisitivo para pagar pela tributação. A violência e a pobreza, no entanto, continuam existir – mas agora longe dos olhos da Zona Sul carioca.

Mas é claro que seria inviável fazer isso com todas as favelas. Até porque algumas delas, como as localizadas ao longo da Linha Vermelha, atrapalham mais por estarem localizadas justamente na principal rota de boas vindas da cidade. E é então que a Secretaria Municipal de Obras anuncia a construção de uma “barreira acústica” ao longo de uma das maiores vias expressas do Rio.

A tática seria quase perfeita, se não fosse por uma questão. Depois de abandonar a população dos morros cariocas por décadas, o poder público voltaria finalmente sua atenção às favelas para proteger seus moradores do grave problema da poluição sonora causada pelos carros que trafegam em alta velocidade na Linha Vermelha? Dificilmente.

O projeto é, obviamente, um reflexo da política do poder público com relação às comunidades carentes que, ao invés de buscar promover as favelas por meio da oferta de uma infra-estrutura habitacional de qualidade, prefere cobri-las dos olhos das elites, atuando a partir da violência policial e de uma remoção maquiada. E o pior: é aplaudida pela sociedade que, embriagada pela mídia, parece não ver as implicações reais de tais medidas.

Parece evidente, portanto, diante do contexto em que nos encontramos, a necessidade de parar e refletir sobre a atual política adotada pelo poder público com relação às favelas. E, segundo essa lógica, é necessário que haja, antes de tudo, participação das comunidades afetadas pelos planos do governo – e não somente a aplicação direta de decisões tomadas nas portas fechadas dos gabinetes.

2 comentários sobre “Como se livrar da pobreza?”

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  2. Vale mencionar, Ricardo, que as UPPs não alteram, no fundo, a relação de sempre do Estado com os pobres: por meio da força, do aparelho repressor do Estado. No mínimo, as UPPs devem consistir num projeto transitório, que permita a inserção de serviços e infraestrutura nas comunidades. Assim, não mais excluídas oficialmente e sob a luz do “panoptico”, não haveria como traficantes retornarem.

    Quanto às barreiras acústicas, trata-se de uma piada! E isso condiz contraditoriamente – já que estamos num contexto de choque de ordem – com a velha malandragem e jeitinho brasileiros! Isto é, arrumem aí uma forma rápida e barata de esconder a “sujeira” dos olhos do mundo; depois da copa e das olimpíadas, que se f*&%da!

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