Como o que faço hoje se enraiza na minha história de vida?

TCIEstes dias que tenho estado em Lagoa Seca, participando do curso de Cuidando do Cuidador no Centro Marista de Eventos, tenho tido oportunidade de participar de algumas das sessões de estudo e reflexão. Resgate da criança interior. Criança amada e criança ferida. Longe de se criarem novas classificações ou estereótipos, redescobrem-se as próprias realidades das pessoas, tão distintas do que aprenderam muitas vezes a acreditar sobre si mesmas.

Talvez seja isto o que mais aprecio nestes encontros de pessoas que querem aprofundar no cuidado de si mesmas e das pessoas de quem elas tomam conta: perde-se a sensação de estranheza, de ser alguém sem raízes, alguém perdido no tempo e no espaço. Ao escutar as histórias de vida das pessoas participantes, re-encontro a minha própria história de vida, no meio a um coletivo de pessoas que querem saber mais de si mesmas, querem aprender a se amar mais, a deixar de viver como vítimas ou como burros de carga ou autômatos.

Como o que hoje faço se insere na minha história de vida? A carência que gera competência. Os traumas e sofrimentos potencializam as forças restauradoras da pessoa. Não foi por acaso que, após a sessão de ontem, escrevi um texto sobre uma história que nos tocou viver aos argentinos a partir do golpe de estado de 1976. Ter recebido no meio do grupo, o impulso para escrever esse texto, me libertou de dores que sempre estão a demandar uma nova visita, uma visita mais amorosa e compreensiva, porque inserida no meio a histórias de pessoas que estão em busca de si mesmas, de uma vida mais amorosa e consciente, mais plena e feliz.

Mas as lições continuam a chegar. Hoje de manhã, na sala de reuniões, via as pessoas à minha frente. Um rapaz passando, umas moças por perto. Gente de várias idades. Percebi então com alívio, que nesse ambiente, nesse espaço, não havia ameaça alguma. Não havia possibilidade de morte, de ataque imprevisto. Isto me tranquilizou. A vida adquiriu um valor incomensurável.

Neste mesmo local de Lagoa Seca, no ano passado, formou-se a primeira turma de jovens Terapeutas Comunitários da Paraíba. Ao olhar para o piso de mosaico com desenhos que lembravam os da minha casa em Mendoza, onde morei quando criança, não pude deixar de sentir o retorno desse tempo feliz. Percebi que passei quase toda minha vida na Argentina, sob regimes ditatoriais.

Como estudante, participei da resistência à ditadura de 1966-1973. Dos meus 13 anos, até os 20 anos. Um tempo também de utopia, de construção. Hoje, vejo nestas atividades de Cuidando do Cuidador e da Terapia Comunitária Integrativa, a continuação dos ideais educativos e libertários de Paulo Freire.

Profissionais que se dedicam a capacitar às pessoas da base da sociedade, para que tenham uma vida de mais qualidade. Então vejo que o meu ontem e o meu hoje, esse ontem em que participei de mobilizações pela justiça e pela liberdade e na construção de uma universidade aberta ao povo, e este hoje de acompanhar estes trabalhos de empoderamento de pessoas e comunidades, são uma continuidade.

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