Como o que eu faço se integra na minha trajetória de vida?

Como o que eu faço se integra na minha trajetória de vida? Não tentaria dar a esta pergunta uma ou mais respostas, ao menos agora de início e, sim, como temos feito com outras da abordagem barretiana(1), trataria de acolher a interrogação. Dar um espaço para a pergunta, receber a pergunta. Isto é importante, porque, como iremos ver enseguida, a pergunta em si está plena de determinações.

Pode ser que o que eu faço esteja de fato integrado na minha trajetória vital, mas não de maneira muito direta e imediata, e que seja necessário, assim, prestar mais atenção, deter um pouco o ritmo da minha vida. Estou me referindo a fatos triviais, a ocorrências do cotidiano.

Hoje de manhã, por exemplo, ao voltar do supermercado do bairro onde tinha feito algumas compras, pus uma caixa de ovos no teto do carro. Quando vi estes ovos ali alguns instantes depois, ao carregar o resto da compra no carrinho do prédio, rumo ao meu apartamento, tive uma lembrança súbita dos primeiros ovos e galinhas que vi na minha vida.

Talvez porque estivesse um pouco cansado e era perto do meiodia, prestei atenção aos ovos não como mais uma compra das que tinha que subir para o apartamento, e sim como ovos, como algo que tinha a ver com a minha vida. Mas foi uma lembrança tão fugaz, que me chamou a atenção de como o ser humano é sutil.

Lembrei dos primeiros galinheiros, a observação das galinhas quando criança, com colegas em volta. O campinho dos meus avós paternos, o galinheiro da minha avó materna. No primeiro, as galinhas pininas voavam pelas árvores, para minha grande admiração. No segundo, o arame contendo as aves, perto de um limoeiro. Subi ao apartamento com uma sensação nova.

Não estava apenas executando uma tarefa necessária à satisfação das necessidades familiares, mas estava preenchendo um vácuo na minha vida, costurando passado e presente. Uma sensação de plenitude veio nessa hora. Pensei depois, penso agora, que a pergunta tem muitos desdobramentos.

Mas agora tenho que ir a uma livraria para ver se compro ou não um livro, e isto ira nos levar a outras indagações. De volta da livraria, já no dia seguinte, que é hoje, continuo com estas reflexões. Aliás, ir a uma livraria, ou a uma biblioteca, tem muito enraizamento com a minha vida.

Esta pergunta sobre como o que faço se integra na minha trajetória de vida, pode nos levar a uma presença maior em cada pequena coisa do nosso cotidiano. Aliás, se vivermos cada vez mais conscientes do encadeamento de cada ato presente com o nosso passado, poderemos ir desmontando armadilhas de repetência e de vazio de sentido, com as quais podemos estar convivendo sem nos darmos muita conta.

O presente pode ir se enraizando cada vez mais na totalidade da nossa vida, e se projetando ao mesmo tempo, para um futuro em que o nosso ser necessariamente ira se desdobrando. A vida é uma continuidade. Somos uma continuidade dos nossos pais, avós, cultura, historia. O presente continua um passado que se projeta para um futuro, ou para muitos futuros.


(1) Adalberto Barreto, criador da Terapia Comunitária Integrativa.

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