Combater o mal mesmo no lugar sagrado

Combater o mal no lugar sagrado

Neste quarto domingo comum, o evangelho Marcos 1, 21 – 28 nos mostra um dia típico de Jesus. O evangelho começa a contar a atividade de Jesus, como se descrevesse um dia único, passado na cidade de Cafarnaum para mostrar como era o seu dia a dia. Este dia da ação messiânica de Jesus é apresentado como um sábado, como para deixar claro que todo o tempo é de consagração. Já aí aparece o esforço de alargar a visão de sagrado para além dos limites que a religião tradicional tinha colocado.

Conforme Marcos, a primeira atividade de Jesus é o enfrentamento do mal. Para as culturas antigas, o mal vem de uma entidade, ou espírito. Religiões orientais como a da Pérsia acreditavam em um deus do bem e um deus do mal. Profetas e profetizas da Bíblia aceitam a noção de espírito mau – energia negativa, mas não divina. Tem se submeter ao poder de Deus.

Hoje, em uma visão mais histórica e crítica, compreendemos que, em tempos de enorme opressão econômica, de fome e miséria, como foi aquele no qual Jesus viveu na Galileia, só podia ter muita gente com doenças nervosas e desequilíbrios emocionais, sem falar em paralíticos, aleijados e feridos de guerra. O evangelho não discute a existência do demônio. Mostra que, para testemunhar o projeto divino no mundo, antes de tudo, é preciso ver o mal presente e dominante que oprime as pessoas e precisa combatê-lo, venha de onde vier. Tenha a natureza que tiver. O mal tem de ser combatido.

Antes deste texto, Jesus tinha feito isso. Começou enfrentando os as forças maléficas no mar – de onde ele tirou os primeiros discípulos. Agora, começa o seu sábado, como todo judeu, indo à sinagoga. O evangelho diz que ele ensinava na sinagoga. Como Jesus era leigo, podia participar dos debates, mas não podia fazer o que, hoje se chama sermão. Só o rabino podia e Jesus não era rabino. Mas, o evangelho diz que ele ensinava “como quem tem autoridade e não como os escribas, professores da Bíblia”.

Essa contraposição de Jesus aos escribas é própria de Marcos. Reaparece em outros momentos do seu evangelho. De acordo com a tradição judaica, maior do que a autoridade dos escribas, só havia a autoridade profética de Moisés (Cf. Dt 18, 15). Agora, Marcos diz que a autoridade maior (no grego exousia) é de Jesus.  E essa autoridade consistia em ensinar ao povo, isto é, em devolver a todo o mundo, a palavra de Deus que havia ficado restrita ao clero (sacerdotes e escribas). No Brasil, há 40 anos, quem tem feito  isso é o Centro de Estudos Bíblicos, o CEBI. O CEBI foi fundado para devolver a Bíblia ao povo. A inspiração do CEBI foi esta de falar a palavra de Deus com exsousia – autoridade e credibilidade moral.

É assim, em um clima de comparação entre Jesus e as autoridades religiosas da sinagoga que Marcos conta que, no próprio lugar sagrado da sinagoga, aparece alguém com energia negativa. O texto original grego diz: um homem com um sopro mau… A maioria das traduções traduz sopro por espírito e por isso diz: um homem possuído por um espírito mau ou impuro. Esse sopro do mal, a energia ruim dentro do homem o faz dizer a Jesus: “O que existe entre  tu e nós, Jesus de Nazaré?”. Quem é esse “nós”? Será que além daquele homem, o espírito mau também estava em outros religiosos que se centravam no “sagrado” para tirar dele proveito?

Quando o sagrado aprisiona a pessoa e provoca medo, angústia, desamor e julgamento dos outros, a pessoa está dominada por um sopro impuro. De certa forma, está alienada de sua autonomia pessoal. Jesus expulsa o sopro impuro, o espírito mau para mostrar a todos que precisamos estar conscientes, abertos, críticos e libertos das ideologias da morte.

No evangelho, as histórias de expulsão de demônios ou expulsão do mal seguem um mesmo esquema de narrativa. Primeiramente, há uma tentativa de resistência do espírito mau. Depois Jesus o ameaça e ordena ao espírito mau que liberte a pessoa. O espírito mau é expulso. E o texto termina com a reação admirada das testemunhas e do povo que vê o episódio.

É importante perceber que a mesma autoridade com a qual Jesus diz aos discípulos: Segue-me, diz ao espírito mau: “Cale-se e saia dessa pessoa. Deixe-a livre!”. Para o evangelho, obrigar o mal a se calar é vencê-lo. E a reação das pessoas é a admiração: O que é isso? Quem é esse que tem um ensinamento novo? Essa pergunta (Quem é Jesus?) se mantém durante toda a primeira parte do evangelho de Marcos.

É incrível que seja justamente em um lugar de oração e de escuta da palavra de Deus que Jesus descobre essa pessoa dominada pelo mal. É como se insinuasse que, às vezes, a forma de apresentar a fé dos escribas e doutores da lei pode gerar um espírito mau e negativo. Em hebraico, a palavra sinagoga é correspondente ao termo grego Igreja – assembleia reunida. Até hoje em nossas sinagogas cristãs, o espírito mau – a energia do desamor e da opressão se manifesta. Há pessoas com energia negativa. Isso acontece quando uma compreensão fechada da Palavra de Deus inspira pessoas a construírem projetos de poder, de ambição econômica e de intolerância em nome de Deus.  Se a palavra de Deus defende políticas assassinas, Deus virou o espírito mau. Transformaram Deus em Satanás.

Para Jesus, o enfrentamento do mal começou no lugar mais sagrado, na sinagoga. Nós também somos chamados/as a discernir e descobrir mesmo no santuário mais puro, as energias más e opressoras que possam se instalar ali dentro. E, como Jesus, sermos força do Amor.

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