Cobertura jornalística na era digital

A alta tecnologia nas comunicações foi essencial para a divulgação da morte do pop-star Michael Jackson na semana passada. E ninguém no planeta escapou de saber da notícia. A informação, hoje em dia, está em todo lugar, virtualmente – ou nem tanto.
Mesmo quem não tinha o mínimo interesse em ficar sabendo do falecimento do cantor Michael Jackson ficou imune ao ataque de informações gerado após a confirmação do acontecido. O primeiro a dar a notícia foi o site de fofocas de celebridades TMZ, da AOL. Temendo pelo conhecido sensacionalismo do site, a grande mídia só começou a informar a notícia depois de ela ter sido “oficializada” publicada, ao que parece. Muitas publicações ditas “sérias” só publicaram seus primeiros textos após um dos grandes – neste caso o LA Times – dar a notícia.
Segundo o site do Knight Center, especializado em jornalismo nas Américas, o LA Times informou a morte do astro da música pop pela primeira vez 16 minutos após o TMZ. E ainda perdeu totalmente o começo da história, publicada no dia anterior à sua morte, a de que Michael Jackson teve uma parada cardíaca e foi reanimado na ambulância a caminho do hospital, onde viria a falecer. O Knight Center ainda publicou uma análise de como a mídia falhou na cobertura do ocorrido. Assim como os protestos no Irã e a trágica morte da jovem Neda, os usuários de sites de relacionamentos como Orkut, Facebook e o sucesso absoluto Twitter souberam da coisa toda muito antes dos maiores jornais mandarem seus emails de alerta.
Microposts inundaram a rede, causando o maior tráfego já registrado na net sobre um único evento. As buscas por mais informações no Google e outros sites de busca de resultados sobrecarregou todo o sistema. O próprio TMZ relatou que a notícia sobre o falecimento do cantor teve tantos acessos que saiu temporariamente do ar. O Google, por sua vez, interpretou o grande volume de buscas pelo nome do cantor como um ataque cibernético e mostrava uma mensagem de erro ao usuário ávido por mais informações sobre a morte repentina do astro pop.
Após o fato dado e consumado, todos os veículos de comunicação de todo o mundo publicaram a notícia, numa das maiores coberturas de todos os tempos. Mas houve relatos inusitados das diferentes maneiras como cada um ficou sabendo do fato. Os internautas chegaram na frente na quinta-feira, é verdade, mas a maioria das rádios e estações de TV já divulgavam a morte de Michael Jackson na sexta de manhã. Quem acorda com um daqueles rádios-relógios soube ali mesmo, ainda na cama. Ou pele televisão, tomando o seu café da manhã.
Houve os que ouviram falar do acontecido no carro, pelo rádio, ou por alertas no celular. No Reino Unido, muitos ficaram sabendo através dos jornais gratuitos distribuídos nos transportes públicos. Ou um colega contou no trabalho. O filho contou o que soube na escola para os pais. Onde havia o mínimo de “civilização”, a notícia foi reportada. É quase impossível escapar, ainda mais agora que a internet está chegando aos lugares mais remotos.
Na Europa, por exemplo, muitos países já tornaram realidade projetos de inclusão digital para os alunos da rede pública. Em Portugal, inclusive, o laptop que o governo distribuiu aos alunos e professores é carinhosamente conhecido como “Magalhães”. No Brasil, segundo o jornal português Diário Digital – aliás, o primeiro jornal de conteúdo exclusivamente online do país – a cidade de Piraí, no interior do estado do Rio, será a primeira cidade do mundo com um pc por aluno.
Outro dado assombroso é a quantidade de pessoas que acessam a internet através de cibercafés ou Lan Houses, cerca de metade da população brasileira. É tamanha a quantidade de gente que foi lançado no Rio, no dia 25 de junho, o projeto CDI Lan, que visa criar negócios rentáveis mas com responsabilidade social. Depois disso tudo, a dúvida agora é saber quem, no planeta, ainda vai ficar sem saber da morte de Michael Jackson. Porque a maior lição aqui não é a de que o jornalismo de qualidade vai chegar a um maior número de pessoas. A grande jogada é a inclusão digital, que vai permitir que um número maior de pessoas torne-se divulgador de notícias.
(*) Andreia Nobre é jornalista e foi correspondente do Fazendo Media em Lisboa. Atualmente encontra-se em Edimburgo, na Escócia.

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