Churrascão da Cracolândia: veja o protesto e leia manifesto

No sábado (14), mais de mil pessoas passaram pelas ruas Helvétia e Dino Bueno, na Luz, região central de São Paulo. Nesse cruzamento é localizada a região conhecida como “Cracolândia”, que atualmente vem passando por um processo de repressão policial e limpeza étnica. Por isso, diversos movimentos sociais organizaram o “Churrascão na Luz”, com o objetivo de divulgar a repressão enfrentada pelos frequentadores e moradores da região (veja mais fotos ao final do texto e no link abaixo).
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Veja fotos do Churrascão da Cracolândia
Às 14 horas, os organizados já debatiam com os moradores detalhes do churrasco. Logo as churrasqueiras estavam acessas e mais pessoas chegavam. Cartazes e faixas foram pendurados nas paredes e em grades, colorindo o ambiente. Uma delas dizia: “A especulação imobiliária é dependente da violência policial”. Mais tarde, os manifestantes promoveram oficinas de Kraft socializando as tintas com os moradores, que deixaram sua mensagem: “não sou tão ruim como você pensa, nem tão pior como você deseja”.

Não demorou muito para que a carne fosse servida, acompanhada da cervejinha que podia ser comprada nos bares vizinhos. Uma roda de samba improvisada dava o tom para o evento. Entre os sambas clássicos, uma ou outra palavra de ordem, “o povo não se ilude, não é a polícia que vai trazer saúde”, gritavam. Além disso, ocorriam as manifestações individuais, “abaixo a ditadura do Kassab”, esbravejava uma moradora.
Nem chuva atrapalha
Nem as pancadas de chuva foram suficientes para desmobilizar o churrasco, enquanto alguns abriam seus guardachuvas, a maioria das pessoas procurava abrigos no bar. Quando a água parou de cair e o sol voltou a brilhar, os manifestantes improvisaram um varal para secar suas roupas. Nesse momento, todos puderam contemplar um arco íris que aparecia por entre os prédios.
Durante todo o evento o ambiente se manteve pacífico, policiais militares cercavam o local e circulavam entre os manifestantes, mas sem abusos. Em cima da van da PM, um policial carregava uma filmadora e pegava a identificação facial de todos os participantes. Apesar da tranquilidade no local, moradores da região denunciaram abusos no entorno, onde os policiais revistavam os moradores e os impediam de chegar ao churrasco.
Os manifestantes ficaram até o começo da noite, trocando ideia com os moradores. Assim como o churrasco, os movimentos sociais preparam um grande ato no dia 25 e um debate sobre criminalização da pobreza para o fim de janeiro.
Para conhecer mais sobre as reivindicações do movimento leia o manifesto abaixo:
“Manifesto – Chega de dor e sofrimento na Luz


Desde o dia 3 de janeiro, a região da Luz no centro de São Paulo, conhecida como “cracolândia”, vem sendo palco de uma ostensiva ocupação militar com quase 300 PMs, dos quais 152 são da Rota (tropa de elite), 12 bombeiros, helicóptero, 117 carros, 26 motos, 12 cães farejadores e 40 cavalos. O aparato de guerra tem abertamente o intuito de reprimir uma população pobre, em parte consumidora de crack, majoritariamente formada por moradores de rua ou pessoas em situação de rua.
A “guerra às drogas”, ou nesse caso mais especificamente a “guerra ao crack” – como se fosse possível guerrear contra uma substância e não contra pessoas – tem servido como pretexto para os governos estadual de Geraldo Alckmin (PSDB) e municipal de Gilberto Kassab (PSD) implementarem o processo violento de higienização e criminalização da pobreza. A denominada Ação Integrada Centro Legal, ou “Operação Sufoco”, orquestrada pela prefeitura com o governo do estado, já conta com inúmeras denúncias de abuso de autoridade, racismo, violação de direitos humanos e tortura, e infelizmente ainda não foi questionada com veemência pelo governo federal.
Se a operação militar por si só já é motivo para rechaço e indignação, por militarizar seletivamente questões sociais e de saúde, os interesses por trás de sua sustentação são capazes de piorar ainda mais o quadro. Pouco importa o que será dos que ali vivem ou frequentam. Se existisse essa preocupação a abordagem não só não seria policial e violenta, mas por meio de assistentes sociais e agentes de saúde, como não poderia trazer como resultado a total dispersão daqueles a quem supostamente se quereria alcançar. Se as autoridades afirmam que o crack é questão de saúde pública, a prática evidencia o contrário. Se publicamente alegam que a ação é para combater o tráfico, fica visível que a repressão está voltada para o usuário, atingindo no máximo o que se chama de “peixe pequeno” (vide a apreensão de apenas meio quilo de crack), aquele que em grande maioria recorre ao comércio ilegal para sustentar seu próprio consumo, e está longe do estereótipo perigoso que a polícia usa para justificar sua violência.

A política de causar “dor e sofrimento”, nas palavras do próprio coordenador de Políticas sobre Drogas do governo, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, tem o claro objetivo de “limpar” aquelas pessoas dali de modo a abrir espaço para a implementação do projeto Nova Luz, que prevê a demolição de um terço das construções da região para a reconstrução e valorização do espaço com vistas ao lucro da especulação imobiliária – financiadora esta dos políticos que ocupam o poder.
A internação compulsória – dispositivo no qual pessoas em condição de consumo de crack são internadas à força sob ordem judicial em clínicas sem a menor regulamentação ou qualidade – tampouco tem como objetivo o cuidado com as pessoas, já que pesquisas patrocinadas pela ONU como apresentou o PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) indicam que a eficácia de internações contra a vontade é de apenas 2%. Legitimadas pela demonização do crack e por um imaginário social mais baseado em medo do que em informações (estimuladas pela grande mídia e pelos discursos de nossos políticos), medidas de terrorismo de Estado como essa vêm se tornando mais frequentes, não por acaso à medida em que se aproximam a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil.
O crack na região da Luz aparece como o sintoma de um problema infinitamente maior. O consumo abusivo desta droga nestes contextos não é a causa, mas sim a consequência de falta de moradia, emprego, saúde, educação, enfim, condições dignas de vida às quais todos temos direito.
Nesse sentido, nos articulamos no intuito de denunciar e enfrentar a ação militar impetrada por nossos governantes e reivindicar condições dignas a todos aqueles que estão marginalizados de seus direitos mínimos. No caso do uso problemático do crack ou qualquer outra droga, defendemos um tratamento de saúde que tenha como base a autonomia e o respeito ao indivíduo, com o fortalecimento e ampliação da rede inter-setorial de atenção psicossocial.
Janeiro de 2012.
Assinam:
Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura (ACAT-Brasil), Ação e Cidadania Planeta 21, Amparar – Associação de Amigos e Familiares de Presos, Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasmesp), Associação de Moradores e amigos da Santa Ifgênia e Luz (AMOALUZ), Associação Pró Falsêmicos (Aprofe), Associação Sem Teto da cidade de São Paulo (ASTC-SP), Avoa núcleo artístico, Barricadas Abrem Caminhos, Bloco do Saci do Bixiga, Campo Debate Socialista, Cedeca Interlagos, Central de Movimentos Populares (CMP), Centro de Convivência É de Lei, Centro Franciscano Chá do Padre (Sefras), Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, Circulo Palmarino, Coletivo Desentorpecendo A Razão (DAR), Comitê para a Democratização da Informática – SP, Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça, Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE-SP), Conselho Regional de Psicologia (CRP) de São Paulo, Conselho Regional de Serviço Social do Estado de São Paulo, Contraponto, Espaço Cultural Latino-americano (ECLA), Folias D´ Arte – Grupo de teatro, Fórum Popular de Saúde Mental da Região do ABCDMRR, Forum Regional de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente – Sé, Frente Estadual Antimanicomial de São Paulo, Fórum Centro Vivo, Fórum de Juventudes RJ, Forum Regional de Defesa do Direito da Criança e do Adolescente – Sé, Frente de Luta por Moradia (FLM), Grupo de Estudos Pandiá Calógeras (GEPC), Grupo de Luta pela Diversidade Sexual, Instituto Cultural Lyndolpho Silva (ICLS), Instituto Práxis de Direitos Humanos, Juventude Libre, Mandato Deputado Estadual Adriano Diogo (PT), Mandato Deputado Estadual Carlos Giannazi (PSOL), Mandato Deputado Federal Ivan Valente (PSOL), Mandato Vereador Ítalo Cardoso (PT), Mandato Vereadora Juliana Cardoso (PT), Marcha da Maconha – SP, Marcha da Maconha – Recife, Marcha Mundial das Mulheres, Militância em Ambientes Virtuais do PT – (MAVPTSP), Movimento Água Branca, Movimento de Moradia da Região Central – MMRC, Movimento dos Sem Juízo, Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), Movimento Nacional de Luta Antimanicomial, Movimento Negro Unificado – MNU, Movimento Passe Livre – MPL-SP, Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), NEILS (Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais (PUC), Núcleo de Direito à Cidade da Faculdade de Direito da USP, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), Ocupa Sampa, Partido Comunista Brasileiro – PCB, Promotora Legal Popular, PSOL-SP, Rede de Juventudes de Favela – RJ, Setorial de Direitos Humanos do PSOL, Sindicato dos Guardas Civis de São Paulo – Sindguardas, Sindicato dos Trabalhadores da Saude do Estado de São Paulo – SindSAÚDE, Tribunal Popular – O Estado no banco dos réus, UneAfro, União de Movimentos de Moradia – UMM-SP, Unidos Pra Lutar!.”
(*) Reportagem publicada na página da Caros Amigos. Fotos: Jesus Carlos.

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