Católicos e cristãos entre Francisco e Feliciano

É só acompanhar os noticiários e perceber que o papa Francisco é um dos assuntos preferidos. O início de mandato do novo pontífice vem sendo palco de especulações, e, principalmente entre os católicos, sinal de esperança. O símbolo da genuína esperança católica junto a Francisco são os apontamentos do importante teólogo Leonardo Boff. Pelas leituras dos textos recentes do Boff se percebe como a áurea católica se anima com o novo pontífice. Claro, por vezes, com denúncia de algumas incongruências, mas no geral, sua tônica é de contentamento, de incentivo. Digno de nota que mesmo no alto das vivências do Boff ainda posta esperança na estrutura. Evidente que não se pode perder de vista que o próprio Boff no passado quando João Paulo II assumiu a cúria escreveu textos e livros exaltando o então papa polonês. Na continuação de seu mandato compôs-se conservador com muitas exclusões e processos aos intelectuais da tradição católica, inclusive ao próprio Boff.
Excomunhão
Em linhas gerais acredita-se que a empolgação não pode ser perdida do horizonte. Mas, ela não pode sonegar os dados que surgem. Como, a recente excomunhão do presbítero que preferiu discutir dentro da paróquia a questão da homossexualidade, o agora ex-padre de Bauru, Beto (Roberto Francisco Daniel). Mostra que mesmo com um papa latino-americano, de um sorriso a mais no rosto, que a Cúpula Católica segue as mesmas tônicas dos últimos pontificados. Pouco, muito pouco se vem mudando. Evidentemente, se espera mais. Além da expulsão do padre Beto o que se vê na política brasileira, é vergonhosamente um projeto supra-religioso de aliança de setores religiosos regressistas. Claro, isso não é culpa (diretamente) da Cúria Romana.
Platafoma Evangélica
A preocupação tem outro lobby. Vem se constituindo no Brasil uma plataforma evangélica liderada pelo pastor Marcos Feliciano – com claras pretensões presidenciais. Projeto supra-religioso político de defesa raivosa da família tradicional, de aspirações fascistas típicas dos tempos da ditadura militar brasileira. Plataforma que vem alavancando adeptos inclusive nos setores conservadores católicos, como a do deputado Bolsonaro que se diz: “soldado do capitão Feliciano”. Algo impensável noutros dias. Outros apoios arrecadados pelo ‘capitão’ Feliciano são do ex-pastor da Assembléia de Deus, o estridente dono da Igreja/marca: “Vitória em Cristo”, Silas Malafaia; além de setores da CNBB como o próprio Feliciano declara (1). Assim, o maior problema é que essa plataforma política/religiosa conservadora pode inclusive (no futuro) colocar ‘em cheque’ bases do estado laico brasileiro.
Enfim se reforça que as esperanças de Leonardo Boff se estabeleçam e o papado do Francisco traga uma guinada na igreja. Contudo, o que mais chama a atenção é a articulação de grupos conservadores da própria igreja unidos no projeto fascista contra certas minorias históricas. Conservadores católicos e evangélicos vêm dando ás mãos nas trincheiras como pouco se viu antes. Inclusive, nos últimos dias umas das pautas colocadas pelo ‘capitão’ Feliciano a frente da guerrilha da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal é a ‘velha’ notificação de que a homossexualidade seja doença. Algo conhecido principalmente a partir das políticas educacionais nazistas, ensino que deve ter construído nesse novo ‘capitão’ que os negros são subespécie da humanidade (como declarou). Infelizmente, Feliciano é um novo ‘capitão’: que porta velhos modus, manias e frases. Símbolo do conservadorismo dos evangélicos hoje, pena, que até os católicos se identifiquem com sua intolerância.
(1) Vide o texto da professora Magali Cunha, “Caso Marco Feliciano’: um paradigma na relação religião-mídia-política no Brasil” (acessado em 05/05/2013).
(*) Fábio Py Murta de Almeida é teólogo, historiador e doutorando em Teologia pela PUC-RJ. Autor do livro Para inverter os ocasos. Critica a baixa ecologia: Deuteronômio 5,12-15 por fios condutores sociais, que será publicado pelo CEBI (no prelo).

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