Campo acadêmico, ideologias e incoerências

ideologiaEm nossa sociedade, a ideologia está impregnada em tudo. Ela está presente em todas as atividades humanas. Porém, a ideologia que predomina na sociedade, enquanto cultura, modo de vida e senso comum, aparenta ser natural. A ideologia liberal-conservadora “funciona de maneira a apresentar suas próprias regras de seletividade, tendenciosidade, discriminação e até distorção sistemática como “normalidade”, “objetividade” e “imparcialidade científica”.[1] Querem que aceitemos determinados valores como naturais, sem que esbocemos a mais leve crítica. Se ousamos duvidar, os ideólogos liberais-conservadores nos criticam e afirmam que somos ideológicos, parciais, não-científicos, como se eles fossem axiologicamente neutros, imparciais, objetivos e científicos. É uma estratégia de desqualificação da crítica, sempre em nome da “objetividade” e da “ciência”.

Mas também a crítica à ideologia liberal-conservadora tende a recair no mesmo equivoco, isto é, a reivindicar o status de ciência desvinculada da ideologia. Por outro lado, esta crítica tende a ficar prisioneira das disputas intestinas da política acadêmica, a ser utilizada como combustível para a ocupação de cargos e a consolidação do poder burocrático e dos interesses particularistas. A crítica ideológica torna-se mero discurso legitimador da política interna ao campus e carregada de sentido maniqueísta.

A ideologia liberal-conservadora está entranhada em nosso ser. Sua capacidade de legitimação é imensa. Mesmo os mais revolucionários são influenciáveis e influenciados por ela. Se a retórica é crítica, as atitudes nem sempre o são. Nossas ações se pautam por necessidades imediatas e tendemos a reproduzir o que é predominante na sociedade. Assim, é possível ser crítico à predominância dos valores mercantis e ser um consumidor quase obsessivo e aceitar acriticamente estes mesmos valores como critério de ascensão no campus.

Por outro lado, há comportamentos de adaptação à estrutura do Estado, ainda que abominável no âmbito da retórica. O que é a política acadêmica senão a disputa ferrenha e apropriação por grupos e indivíduos dos recursos estatais? Claro, as forças em disputa no campo acadêmico precisam metamorfosear seus interesses particularistas no discurso universal da defesa da universidade pública, da comunidade acadêmica e da sociedade (e até mesmo, da humanidade).

Temos, portanto, algumas situações no mínimo irônicas. O anti-capitalista radical no âmbito da retórica corre atrás de patrocinadores capitalistas para o bancar eventos acadêmicos, nos quais, invariavelmente, predominam o discurso da revolução anti-capitalista. O crítico da propriedade privada e do Estado busca os recursos privados e estatais. O revolucionário de plantão nega a política burguesa e o Estado, mas luta politicamente para ocupar cargos na instituição estatal e garantir a sua gratificação – poder e moeda corrente.

Não quero julgar, mas apenas observar o quanto somos incoerentes. Estamos vinculados ao sistema ideológico dominante e este influencia nossas ações. Vivemos sob determinada ordem social e, por mais que a neguemos, somos contraditórios. Nem sempre teoria e prática se complementam. Terminamos por reproduzir a ideologia dominante, ainda que ideologicamente a neguemos. Portanto, não deveria ser surpresa quando observamos que, no campo acadêmico, críticos do sistema vigente e profetas do paraíso na terra, reproduzem as mesmas atitudes que criticam nos opositores. Recorrem, muitas vezes, a meios semelhantes, encobertos pela retórica crítica e universalizante.


[1] MÉSZÁROS, István. O Poder da Ideologia. São Paulo: Ensaio, 1996, p. 13.

3 comentários sobre “Campo acadêmico, ideologias e incoerências”

  1. Oi Antonio, importante a análise. Devemos procurar identificar no nosso dia-a-dia, e primeiramente em nós mesmos, determinados comportamentos e atitudes que julgamos as mais “oportunas”. Úteis, na verdade, para nos adequarmos a um discurso que nos favorece em uma determinada conjectura, mas que nada trazem de transformador e agregador para o desenvolvimento de nossa sociedade.

    Adiciono também minha felicidade em ter me tornado, depois de anos por trás dos confusos códigos de informática, um leitor voraz da Revista Consciência.Net, com mais calma para me aprofundar nos conhecimentos aqui divulgados.

    Um abraço.
    Gustavo Barreto

  2. Oi Antonio, Sempre oportuno revisitar tema tão presente no nosso cotidiano. No meu livro sobre Max Weber, ciência e valores, já lançado em espanhol na Argentina, é questionada justamente essa “naturalidade” do discurso ideológico que tenta impor a aparência como coisa natural, como essência, como o que é, e não como o que querem os donos do poder, os que estão do lado de cima no sistema de dominação em que vivemos e que, sistema capitalista, por nada ter de natural e sim de imposto, haverá de ruir com o nosso esforço coletivo e individual por acabar, como Paulo Freire ensina, com todo tipo de dominação. Muito oportuno seu comentário, que agradeço. Rolando Lazarte

  3. Olá Antonio!Extremamente, relevante essa análise.Por mais que neguemos somos levados a pensar, sentir e agir de forma contrária a que queremos, estamos tão condicionados aceitar o que inconscientemente refutamos por acharmos ser mais coerente, normal por sermos a grosso modo, covardes em impor nossos ideais!

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