
Campesinos paraguaios reivindicam que o governo de Fernando Lugo distribua cerca de 20 mil hectares de terra no distrito de Nacunday, a 400 quilômetros da capital Assunção. Os trabalhadores rurais querem que o governo reveja a situação dessas terras. Eles afirmam que parte do território foi grilado pelo brasileiro Tranquilo Favero, conhecido como “rei da soja”. O latifundiário possui mais de um milhão de hectares no Paraguai.
Os conflitos em Nacunday se intensificam desde o dia 12 de janeiro, quando o Instituto Geográfico Militar chegou à região para medir as propriedades e demarcar os territórios. Latifundiários brasileiros e brasiguaios entraram em conflito com camponeses na região. Diante da situação, o governo paraguaio, representado pelo chefe de gabinete civil, Miguel Lopes, afirmou que o Estado pode suspender a demarcação de terras. No entanto, essa medida revoltou os trabalhadores campesinos, que se mobilizam para realizar uma ocupação de terras em massa nesta região paraguaia.
Contextualizando o conflito
Há aproximadamente quarenta anos, Tranquilo Favero (maior latifundiário do Paraguai) comprou terras desvalorizadas “no meio do mato”na região de Nacunday. A escritura é duvidosa, sendo até os dias atuais contestada por signatários. Mas tarde essa região foi arrendada e vendida a colonos que são hoje “os donos dessas terras”. Segundo a Coordenação Nacional para a Recuperação de Terras Ilícitas, que reúne as principais organizações camponesas do país, os documentos provam que há violações legais por parte de estrangeiros e uma promíscua relação entre latifundiários brasileiros e os setores econômicos elitistas do Paraguai. Para alguns camponeses, a luta na região é somente pela reforma agrária, mas contra a pilhagem dos tesosuros nacionais do país. O modelo de agricultura desenvolvido no Paraguai, assim como no Brasil, é do agronegócio, que devasta o meio ambiente e as pequenas propriedades. No paraguai o agravante é que a maioria dos latifundiários são Brasileiros – o Brasil exportou latifundiários ao Paraguai. Na atual conjuntura da luta por reforma agrária no país entra em cena também a questão do “nacionalismo”, alguns proprietários brasilerios acusam os movimentos campesinos de uma relação xenofóbica com brasileiros.
O Cerco midiático
Setores das mídias convencionais do Brasil tem mais uma vez tratado essa situação de forma isolada do seu contexto social. Alguns jornais da cidade de Foz do Iguaçu que cobrem o conflito, não divulgam o nome do latifundiário catarinense Tranquilo Favero, seu nome é substituído pela expressão “grande produtor”. Manchetes sobre o conflito são corriqueiras como “sem terras revoltados ameaçam ocupar as terras do “grande produtor” ou de “produtores”. Isso tem revoltado o movimento camponês paraguaio que tem emitido algumas notas divulgada pelo periódico de Assunção, o www.ea.com.py. Em um pronunciamento oficial do movimento divulgado no site é clara a denúncia sobre a visão da mídia corporativista: “Cada vez podemos notar más el carácter antidemocrático del acceso a la información que proponen los grupos de poder que concentran la propiedad sobre los medios masivos de comunicación”, afirma o pronunciamento do movimento Organizaciones Campesinas.
(*) Danilo Georges é historiador e membro do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu.
