Blanka Wladislaw, a ‘Marie Curie’ brasileira

A ciência no Brasil é levada pouco a sério e, além de alguns nomes como Carlos Chagas, poucos são reconhecidos, situação que só piora quando são mulheres.

Penelope Nogueira

Escrito em História,

Marie Curie é, sem dúvida, um dos nomes mais conhecidos da história da ciência. Foi pioneira no estudo da radioatividade, a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel — e a única a receber dois, em áreas diferentes (Física e Química). Curie também é lembrada por ter rompido com o machismo estrutural das academias científicas europeias do século XIX e início do século XX.

Entretanto, o que poucos sabem é que o Brasil também teve uma cientista brilhante, que enfrentou os mesmos desafios em solo nacional e fez importantes contribuições à ciência: Blanka Wladislaw. Apesar de seu trabalho notável, ela permanece praticamente esquecida pela maioria dos brasileiros.

Quem foi Blanka Wladislaw?

Blanka Wladislaw nasceu em Varsóvia, na Polônia, em 1917, e imigrou para o Brasil com sua família durante a infância, fugindo do antissemitismo e da instabilidade política da Europa. Naturalizou-se brasileira e trilhou um caminho extraordinário na ciência em uma época em que as mulheres raramente tinham espaço no meio acadêmico.

Formou-se em Química Industrial pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) em 1940, e posteriormente concluiu o doutorado em Química Orgânica pela mesma instituição. Tornou-se professora e pesquisadora respeitada, e dedicou-se principalmente ao estudo de compostos orgânicos nitrogenados e reações de oxidação, temas de grande importância na química moderna.

Blanka foi uma das pioneiras no desenvolvimento da química orgânica no Brasil, ajudando a formar gerações de cientistas em uma área até então pouco desenvolvida no país. Sua carreira foi marcada por:

  • Mais de 80 artigos científicos publicados em revistas nacionais e internacionais;
  • Participação em congressos de química no Brasil e no exterior;
  • Orientação de diversos mestres e doutores;
  • Dedicação ao ensino e à pesquisa por mais de 40 anos na Universidade de São Paulo (USP).

Ela também contribuiu para a consolidação do Instituto de Química da USP, ajudando a estruturar laboratórios e desenvolver linhas de pesquisa inovadoras.

Escola Politécnica – POLI USP
(Foto: Poli-USP)

Uma vida de resistência e dedicação

Em uma época em que o meio acadêmico era ainda mais elitista e machista do que hoje, Blanka se destacou por sua competência e perseverança. Por ser mulher e judia, enfrentou preconceitos duplos, tanto no Brasil quanto no exterior. Ainda assim, sua trajetória é uma prova de que talento, trabalho duro e paixão pela ciência podem romper barreiras sociais.

Apesar de sua importância, o nome de Blanka Wladislaw é raramente mencionado nos livros didáticos ou homenageado em instituições públicas. Isso revela uma tendência histórica de invisibilizar mulheres cientistas, especialmente aquelas que atuaram fora dos grandes centros europeus ou norte-americanos.

Sua história também reflete um problema maior da educação científica no Brasil: a falta de valorização da produção científica nacional e de seus protagonistas. Enquanto nomes como Marie Curie ganham o devido destaque — e merecidamente —, figuras como Blanka Wladislaw permanecem nas sombras, mesmo tendo contribuído imensamente para o desenvolvimento científico brasileiro.

Resgatando a memória de Blanka

Conhecer a história de Blanka Wladislaw é uma forma de valorizar a ciência nacional, de dar visibilidade às mulheres na ciência e de inspirar novas gerações de pesquisadoras brasileiras. Assim como Marie Curie, Blanka provou que o lugar da mulher também é nos laboratórios, nas universidades e na liderança científica.

Sua vida e obra merecem ser lembradas, estudadas e celebradas — não apenas como uma cientista brilhante, mas como um símbolo de resistência, inteligência e dedicação ao conhecimento.

Foto de capa: Blanka Wladislaw. Carta Capital

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