Atilio Boron: Donald ou Hillary, Hillary ou Donald?

donald-trump-hillary-clinton“Hillary e Trump representam, com ligeiros matizes, o mesmo: a ditadura “legal” do grande capital nos Estados Unidos. (…) Nenhum presidente dos EUA se afastou, desde George Washington até aqui, das premissas fundantes que guiam as relações hemisféricas e que condenam nossos países (da América Latina) à condição de inertes satélites do centro imperial”.
Traduzi e apresento o artigo abaixo, de autoria do reconhecido cientista político e sociólogo argentino – “de nascimento”, porque ele se diz “latino-americano por convicção”.
Aproveito para registrar a previsão feita pelo cineasta estadunidense Michael Moore, conhecido por suas posições políticas à esquerda, dando como certa a vitória do “imprevisível” Donald Trump.
Moore – que tem como crédito o fato de ter previsto a escolha do candidato republicano – apresenta cinco razões, relacionadas com a revolta de pessoas brancas, de classe média, de áreas decadentes dos EUA, bem como a revolta de “homens brancos zangados”, que seriam contra a escolha duma mulher como a primeira presidenta do país.
Argumenta com a “depressão” da parte do eleitorado do Partido Democrata que preferia o “socialista” Bernie Sanders como candidato e realça as deficiências de Hillary Clinton, que considera sem popularidade e identificada com uma política ultrapassada e corrupta. Menciona ainda que os eleitores estão fartos de um “sistema político saturado”. (Endereço para a matéria: http://www.tvi24.iol.pt/cinema/presidenciais-eua/michael-moore-da-5-razoes-para-trump-vencer-as-eleicoes ).
Aproveito ainda para lembrar uma avaliação ácida do grande Noam Chomsky, crítico mordaz da política imperial de seu país: “O Democrata é o partido dos ricos, enquanto o Republicano é o partido dos muito ricos”.
Por Atilio A. Boron – no jornal argentino Página/12, edição de 22/07/2016 – Tradução: Jadson Oliveira
Nestes dias, depois da homologação de Donald Trump como candidato pelo Partido Republicano, vários órgãos de comunicação me perguntaram quem seria mais conveniente para América Latina, se ele ou Hillary Clinton. Minha resposta: nenhum dos dois, porque o que importa não são tanto as pessoas mas a aliança social que eles representam. E esta aliança é a “burguesia imperial” ou o “complexo militar-industrial-financeiro”, a que ambos estão vinculados, se bem que com características idiossincráticas próprias.
Por isso creio que a pergunta está mal formulada. Nenhum presidente dos Estados Unidos se afastou, desde George Washington até aqui, das premissas fundantes que guiam as relações hemisféricas e que condenam nossos países à condição de inertes satélites do centro imperial:
(a) manter a América Latina e o Caribe como o “quintal” dos Estados Unidos, que não admitem a intromissão de terceiras potências (Doutrina Monroe, 1823);
(b) fomentar a desunião e a discórdia entre os países da área e opor-se com total intransigência diante de qualquer processo de integração ou unificação (por isso, Washington sabota a Unasul, a Celac, também o Mercosul, e nem falemos da Alba-TCP, Petrocaribe, Banco do Sul ou Telesur (TV – Telesul). Esta política começa desde os tempos do Congresso Anfictiônico do Panamá de 1826 e continua até hoje);
(c) o tristemente célebre “corolário de (Theodore) Roosevelt”, de 1904, em que os Estados Unidos se arrogam o direito de intervir nos países da área quando seus governos sejam “incapazes de manter a ordem dentro de suas fronteiras e não se comportem com uma justa consideração ante suas obrigações com o estrangeiro.” E mais adiante prosseguem dizendo que “sempre é possível que as ações ofensivas contra esta nação (Estados Unidos) ou contra os cidadãos desta nação (eufemismo para empresas norte-americanas) de alguns Estados incapazes de manter a ordem entre sua gente, incapazes de assegurar a justiça para os estrangeiros que a tratam bem, possam nos levar a adotar ações para proteger nossos direitos; mas tais ações não seriam adotadas visando uma agressão territorial e se dariam somente no caso duma extrema aversão e quando fique evidente que qualquer outro recurso foi esgotado”.
Fiéis a estas premissas, não há sentido algum perguntar se Trump ou Clinton seriam mais convenientes para América Latina. Quiçá poderíamos especular sobre quem seria menos ruim. Em tal caso creio que entre estas duas pessoas ruins, imorais e corruptas, talvez a menos prejudicial poderia ser Hillary, porém nada mais que isso.
Ela e Trump representam, com ligeiros matizes, o mesmo: a ditadura “legal” do grande capital nos Estados Unidos. Trump é mais imprevisível e isto não seria necessariamente ruim. Até poderia se despregar ocasionalmente do “complexo militar-industrial-financeiro”, mas seu companheiro de chapa – um cristão evangélico de ultradireita – é um troglodita intragável.
Hillary é muito previsível, mas seu desempenho como secretária de Estado no governo Obama é terrível. Recorde-se, entre muitas outras coisas, a gargalhada com que recebeu a notícia do linchamento de Muammar Kadafi, gesto moralmente imundo. Como senadora se consagrou como uma ostensiva lobista de Wall Street, do complexo militar-industrial e do Estado de Israel.
A América Latina não pode esperar nada de bom de nenhum governo dos Estados Unidos, como tem demonstrado a história ao longo de mais de dois séculos. Pode, ocasionalmente, aparecer algum presidente que marginalmente possa produzir situações pontualmente favoráveis aos nossos países, como foi o caso de James Carter e sua política de direitos humanos, concebida para fustigar a União Soviética e o Irã, mas que, indiretamente, serviu para debilitar as ditaduras genocidas dos anos setenta. Porém nada mais do que isso.
Nós temos que forjar a unidade de nossos povos, como queriam Artigas, Bolívar e San Martín nos albores das lutas por nossa independência. Não temos que esperar nada de bom dos ocupantes da Casa Branca qualquer que seja a cor de sua pele ou sua procedência partidária.

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