Ataque do Gen. Maynard à Comissão da Verdade foi transgressão disciplinar

Figurinha carimbada da extrema-direita militar, o chefe do Departamento Geral do Pessoal do Exército, general Maynard Marques, lançou uma catalinária contra a Comissão da Verdade que o Governo Federal está instituindo para, principalmente, apurar as atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85.
Sua nota A Comissão da “Verdade”? está amplamente disponibilizado nos sites fascistóides e demais espaços virtuais das viúvas da ditadura, como o Coturno Noturno.

Depois de manifestar sua convicção autoritária na prevalência de uma verdade “absoluta, [que] transcende opiniões e consensos, e não admite incertezas”, desanda a atirar na fogueira os que ousam expressar o outro lado, cujo direito a existir e manifestar-se é a própria essência da democracia.

Segundo ele, “a ‘Comissão da Verdade’ (…), certamente, será composta dos mesmos fanáticos que, no passado recente, adotaram o terrorismo, o seqüestro de inocentes e o assalto a bancos, como meio de combate ao regime, para alcançar o poder”.

No seu entender, seriam fanáticos os que combateram o regime, exercendo seu legítimo direito de resistência à tirania, mas nenhuma restrição faz àqueles que conspiravam há mais de uma década para usurpar o poder e, aprimorando seus métodos de tentativa em tentativa, acabaram por obter êxito, o que foi ponto de partida para assassinatos, torturas, estupros, detenções ao arrepio da Lei (sequestros, portanto), ocultação de restos mortais, cassação de mandatos legítimos, extinção arbitrária de entidades e partidos políticos, demissão ilícita de funcionários, censura aos meios de comunicação e, enfim, de todo tipo de perseguições, intimidações e pressões truculentas.

Incidindo em humor involuntário, o gen. Maynard Marques finge não perceber que, ao barbarizar dezenas de milhares de brasileiros em seus famigerados porões, a ditadura militar se definiu como legítima sucessora da Santa Inquisição. Ele tenta penosamente enfiar na cabeça dos adversários a carapuça que Deus e o mundo sabem repousar melhor sobre quepes:

“A História da inquisição espanhola espelha o perigo do poder concedido a fanáticos. Quando os sicários de Tomás de Torquemada viram-se livres para investigar a vida alheia, a sanha persecutória conseguiu flagelar trinta mil vítimas por ano no reino da Espanha”.

Que palpite infeliz! Não escapará a nenhum cidadão civilizado que as realizações de Torquemada e seus sicários têm tudo a ver com as de Médici e seus Ustras…

Com sua nota insubmissa — em que chega a qualificar a Comissão da Verdade de “excêntrica”, comparando-a a uma “Comissão da Calúnia” –, o gen. Maynard Marques desrespeitou pelo menos duas proibições do Regulamento Disciplinar do Exército:

  • “manifestar-se, publicamente, sem que seja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”; e
  • “censurar ato de superior hierárquico ou procurar desconsiderá-lo, seja entre militares, seja entre civis”.

Devemos, portanto, EXIGIR do general Enzo Martins Peri (comandante do Exército) e de Nelson Jobim (ministro da Defesa) que façam cumprir o Regulamento Disciplinar, aplicando as punições cabíveis ao general boquirroto.

Quanto aos seis integrantes da Comissão da Verdade, designados pela ministra Dilma Rousseff, têm motivos de sobra para levar aos tribunais quem os qualificou de fanáticos, terroristas, sequestradores e assaltantes, antes mesmo de conhecer os nomes dos indicados para a função.

Obs: desta vez agiu correta e rapidamente o Governo, cortando o mal pela raiz. Exonerou o General Maynard Marques pouco depois que lancei este artigo e pelos motivos nele alinhavados, conforme pode ser constatado na notícia da “Folha On Line” Jobim anuncia exoneração de general após declaração sobre plano de direitos humanos.

2 comentários sobre “Ataque do Gen. Maynard à Comissão da Verdade foi transgressão disciplinar”

  1. Relembrando o RDE

    Ari Cunha

    O general Maynard Santa Rosa pertence ao grupo de 15 membros do Alto Comando do Exército. Divulgou carta com pensamento pessoal, na qualidade de cidadão. Sabia o que ia acontecer. Conhece o Regulamento Disciplinar do Exército, as atividades, inclusive as punições.

    Preferiu expressar pensamento próprio, mesmo usando uniforme da ativa. Assinou embaixo. Deu no que deu. Perdeu o cargo de chefe do Departamento Geral de Pessoal do Comando do Exército. Sabia com antecedência. Mesmo conhecendo a punição, não hesitou e teve a coragem que falta a muitos cidadãos comuns e políticos.

    Ficou na tropa como adido ao gabinete do comandante Enzo Peri até 3l de março. É nessa data que termina o tempo de permanência no generalato, de 12 anos. Passará à reserva remunerada.

    Não respondeu a “rigoroso inquérito”. A sentença estava dentro do que dissera. Tinha conhecimento de tudo. Preferiu expor o pensamento. Fez uso da liberdade pessoal, mesmo arcando com consequências que sabia serem certas.

    Quando servia à EIM-280, durante a guerra, em Fortaleza, o que mais me impressionou foi o Regulamento Disciplinar do Exército. Sem caso omisso, diz tudo sem rodeios, sem direito a interpretações.

    O fato de discutir e apresentar propostas são ofício dos políticos, mesmo os implicados em desvio de verbas e comportamento alheio às atividades legislativas.

    Nas Forças Armadas a conduta é em linha reta, sem alternativas. Como dizia o filósofo de Mondubim, “por dentro feito talo de macaxeira”. Não desvia de nada.

    O general Maynard Santa Rosa preferiu não citar exemplos. Nenhum companheiro foi lembrado. Achou melhor dizer que a apuração dos crimes da ditadura militar (1964-1985) competia à “Comissão da calúnia” formada por “fanáticos”. Dessa forma, expressou pensamento claro, ao dizer o que pensava.

    Outras considerações surgiram ao escrever com consciência a carta divulgada, hoje de conhecimento popular.

    O ministro Jobim havia conversado com o comandante Enzo Peri, que estava a serviço no Rio Grande do Sul. Confirmada a autoria da carta, adotou o Regulamento Disciplinar do Exército, que não aceita discussões.

    O general Maynard de Santa Rosa disse com todas as palavras que “fanáticos adotaram o terrorismo, sequestro de inocentes e assalto a bancos como meio de combater o regime para alcançar o poder”. A carapuça cabe na cabeça de dona Dilma Rousseff. Era membro da Comissão, participante da luta armada e está convocada para expor seus pensamentos, tudo antes do acontecido. Certa vez o general Santa Rosa havia sido afastado do ministério da Defesa por discordar do governo sobre a reserva indígena Raposa, Serra do Sol.

    Peito aberto, consciência tranquila, ostenta posto de envergadura na profissão que escolheu desde criança. Deixa o exemplo à posteridade para os descendentes. Guarda mente limpa perante a família, à qual deve sua formação íntegra de pensamento livre. Guarda os amigos no coração. E sente o dever cumprido ao agir sozinho, sem envolver colegas.

    Aí está a biografia do homem disciplinado do Exército. Não aceitou fugir ao pensamento de cidadão.

  2. O comentário acima comportaria acompanhamento de violinos.

    No entanto, antes de se cogitar a canonização do Gen. Maynard, é bom ter em mente que ele atuou no DOI-Codi entre 1971 e 1972, constando das relações de torturadores da era Médici (ou seja, pode ter falado em causa própria); e que já vinha de longe defendendo de forma insubmissa as posições de extrema-direita, o que lhe valeu até uma punição disciplinar anterior.

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