Arte nas carceragens do Rio de Janeiro

caravana_o_golpeKalil cantando com a sua banda G.O.L.P.E, no extinto projeto Caravana Liberdade e Expressão, na Casa de Custódia Cotrim Neto, em Japeri (2007). Foto: Arquivo Rafael Kalil.
Rafael Kalil é músico, diz que sempre como compositor abordou temas sobre a situação social e política do Brasil como forma de expressão artística. Trabalhou também com projetos sociais (ONG’s e rádios comunitárias). Com o tempo foi em busca de conciliar uma atividade à outra, a arte e a política, então em 2006 comunicou à sua banda, Grupo Organizado Livre nos Pensamentos e Escolhas (GOLPE), que ia atuar de perto nas mazelas nacionais para abordar as questões em sua música com mais propriedade.
Decidiu descer ao submundo da pirâmide social, o Sistema Penitenciário, para tentar exercer as mudanças que deseja de baixo para cima. Seu primeiro contato foi a Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (Seap-RJ), duas semanas depois estava promovendo um evento na Unidade Penitenciária Industrial Esmeraldino Bandeira, em Bangu. Na ocasião, outros artistas participaram, como BNegão, e a Favela Filmes registrou a atividade: Caravana Liberdade e Expressão, foi batizada por Kalil.
Para surpresa do músico, a comunicação com os presos fluiu naturalmente, ao longo do ano de 2007 foram tocar em outras unidades penitenciárias: “o ar comprimido, o clima tenso, denso, se torna leve e sereno, uma verdadeira transformação depois das apresentações, emoção diferente de tudo que já havia experimentado na vida”, disse Kalil. Entre 2006 e o primeiro semestre de 2008 se apresentou em doze Unidades Penitenciárias, mas a inquietação de que a música não era suficiente para a transformação o levou para a ação.
A idéia veio de um preso, conhecido como Raposão, detido no Instituto Penal Plácido de Carvalho, condenado por seqüestro desde 1992, bandido de alta periculosidade que agora procura na poesia uma nova maneira de viver. O projeto foi chamado de “Oficina do Disco”, com a finalidade de musicar poemas dos presos e gravá-los em discos de baixo custo para vendê-los, por cinco reais, em periferias com um potencial de consumo ainda não explorado: mapear, oficializar, distribuir e gerar emprego, enfim.
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Equipe do projeto Caravana em frente ao Portão de acesso do Instituto Penal Plácio Sá Carvalho (Bangu) em 2008. Foto: Arquivo Rafael Kalil.
Logo de cara surgiram os problemas, os presos não sabiam escrever. Com dificuldades de ortografia, falta de vocabulário e conteúdo, mesmo com muito a transmitir, os presos começaram a receber aulas do músico: sozinho, para facilitar, começou exercitando o conteúdo através da exibição de filmes variados, na Unidade Bangu V. Quanto à forma, recorreu à música popular brasileira, ensinando fórmulas básicas de redação de textos. Levou livros também, para melhorar o vocabulário, encaminhando alguns presos à escola da Unidade, fazendo com que muitos retomassem os estudos.
No começo da oficina era exigido um texto por semana, isto foi criando um hábito no cotidiano de alguns alunos, mudando o comportamento de muitos deles. Em quatro meses, indo duas a três vezes por semana na Unidade, foram produzidos 150 textos, 10 deles escolhidos para serem distribuídos aos intérpretes que farão a gravação do primeiro disco da oficina. A intenção é produzir mil cópias e entregá-las para os internos vendê-las, a fim de mapear seus sistemas próprios de distribuição através das visitas. Feito isto, o próximo passo é colocar um computador na Unidade e montar um “home estúdio”, tornando os internos independentes nesse negócio. Kalil busca criar uma cultura nova, para que essas iniciativas tomem vida própria no inconsciente popular e se tornem um instrumento de reformulação social em meio a arte, partindo de baixo para cima como hábito coletivo. Isso para não dependerem da boa vontade das classes dominantes, dos governantes ou instituições filantrópicas. Trata-se de um esforço pela conscientização daqueles que se encontram esquecidos pela sociedade.
galera_caravanaGrupo Caravana Liberdade e Expressão, Rafael Kalil é o segundo abaixo da esquerda para a direita. Foto: Arquivo Kalil.
Ao final de 2008, “as mudanças eram claras como água limpa”, afirma Kalil. Mas em 2009, com problemas pessoais, inclusive financeiros, pois tudo saia do seu bolso, até as passagens para Bangu, a oficina teve de ser interrompida. No retorno, a Seap não liberou o resgate de sua turma, começaram seus problemas com a administração das carceragens: reuniu-se com Secretário, Sub-Secretário de Tratamento Penitenciário, com a chefe de Inserção Social, etc. e nada de autorização.
Três meses de tempo e dinheiro gastos, sendo jogado de cúpula em cúpula. A diretora da escola da Unidade Elizabeth Sá Rego (Bangu V), lhe informou por telefone que a sua turma quase toda havia sido transferida e um dos alunos morrido de tuberculose. Ficou arrasado, agradeceu e, por conta da burocracia, abandonou a empreitada. Foi tudo praticamente em vão, um semestre no lixo. Essa é uma característica dos trabalhos na cadeia, têm que ser realizados em tempos curtos já que os presos são transferidos, soltos ou morrem com frequência.
Quando menos esperava, já desanimado, surgiu uma oportunidade de voltar para dentro do cárcere com mais liberdade e autonomia. O cineasta Jonas Resende queria gravar um trecho do seu filme no cárcere, Kalil entrou em contato com o delegado Orlando Zaccone, que em 2007 chefiava a 52ª DP, em Nova Iguaçu (RJ), período em que o delegado instalou o projeto Carceragem Cidadã: fundação de biblioteca, exibição de filmes, alfabetização, obras, assistências jurídicas, eventos de música e direito ao voto, inédito na cidade. Esse trabalho tornou Zaccone coordenador da Polinter, responsável por dezesseis unidades carcerárias em delegacias com cerca de 4 mil pessoas. Nesse contato através do filme, Kalil se aproximou mais do delegado, ao ponto de ser chamado para coordenar a parte da educação, trabalho e cultura do projeto Carceragem Cidadã. Por fora, ele se sustenta dando aula de violão para jovens (ao todo quatro alunos, cobrando 50 reais) e participando da produção de shows musicais em casas noturnas do Rio de Janeiro.
Atualmente esse é o seu desafio. Começou reativando o Cine Clube Carceragem, passando filmes com telão e projetor, e estimulando o artesanato nas delegacias. Mas se deparou com outra realidade, as carceragens da Polinter não têm recursos, oferecem aos presos somente alimentação fornecida pelo Estado. Um ambiente que era para o preso ficar provisoriamente, enquanto está sendo julgado, para ser encaminhado para a Casa de Custódia, muitas vezes se torna local de toda a sua pena em condições precárias; sobretudo, em função da superlotação. Nesse novo cenário, sem espaço para nada, o jeito foi começar as atividades no convívio com os presos, nas celas.
entevista_kalilKalil entrevistando a detenta Sheila Carvalho, na Penitenciária Nelson Hungria, em Bangu (2006). Foto: Arquivo Kalil.
Ao se ambientar e entender como as coisas funcionam, resolveu trabalhar em três unidades até atingir um padrão de atividades suficiente para irradiar em outras unidades: alfabetização, artesanato, cinema, música, informática e algum curso profissionalizante, essa é a sua meta. Tudo no improviso, pela falta de verba. Na alfabetização, por exemplo, ninguém quer entrar para dar aula a presos dentro das celas, a solução foi pegar os internos mais pacientes e espertos e multiplicar a função. Não tem base científica, nem é o ideal, mas é o que dá para ser feito e está funcionando. As unidades eleitas como prioridade no momento são a 73ª DP, que fica em Neves, São Gonçalo, a 59ª DP, no município de Caxias, Baixada Fluminense, e a 53ª DP, carceragem feminina em Mesquita.
Cada uma das carceragens tem sua particularidade, a 73ª DP foi escolhida por causa da superlotação e as obras que estão sendo feitas para ampliar o espaço tanto para os presos quanto para os projetos que vão auxiliá-los. Na 59ª DP não tem espaço, tudo é realizado no meio dos presos, e a delegacia para mulheres é a mais cheia em carceragens femininas, onde será ampliado o espaço para aulas e oficinas. Kalil trabalha sozinho nessas três delegacias, toda semana, mas sem apoio, apesar de ter a confiança dos presos, delegados e policiais. Ele se orgulha de interferir na rotina dos presos, relegados ao ócio, mas não acredita na ressocialização e sim na redução de danos: “é uma abordagem e uma perspectiva, aparentemente ética e respeitosa, utilizada para proporcionar uma reflexão ampliada sobre a possibilidade de diminuir danos relacionados a alguma prática que cause ou possa causar danos. Valoriza e põe em ação estratégias de proteção, cuidado e auto-cuidado, possibilitando mudança de atitude frente às situações de vulnerabilidade”, afirma o artista.
“Digo isso porque no momento infelizmente ainda não temos uma proposta concreta que possibilite o detento a mudar realmente sua trajetória de vida depois do cumprimento de pena de forma sustentável, legal e saudável. Mesmo que se mude a cabeça do preso para que este não venha mais a praticar ações ilícitas ainda é preciso que a sociedade esteja aberta a receber este indivíduo, já que ainda existe uma resistência muito grande com as pessoas que já cumpriram pena neste país. Ou seja, essa luta tem dois lados: deve-se tanto trabalhar a mente do preso quanto trabalhar a mentalidade da socidade civil como um todo, pois não adianta o cárcere mudar se a sociedade não mudar também. Porque apesar de ignorado e escondido, o cárcere pertence ao corpo social e não temos regime de prisão perpétua. Um dia todos que estão presos voltarão às ruas juntamente com todos nós e talvez traumatizados, estigmatizados e com muita mágoa explosiva dentro de si”, desabafa Rafael Kalil.

6 comentários sobre “Arte nas carceragens do Rio de Janeiro”

  1. Pingback: :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » Uma radiografia das carceragens da delegacia civil no Rio

  2. Amigo, seu trabalho é fenomenal, não podemos esperar pela oficialização daquilo que queremos fazer, a burocracia mata tudo à nascença!
    Força, muita força e nunca desista! Estas pessoas necessitam de você!

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