Arte e transformação social: notas sobre a contribuição artístico-política do fotógrafo Sebastião Salgado

Em meio à atual pandemia, que sacode o Brasil e o mundo, eis que, aqui e ali, podemos acompanhar fatos e situações protagonizados por figuras apresentando uma notável contribuição, não apenas aos problemas conjunturais, mas também a situações de caráter estrutural, para além da covid-19. Dentre estas figuras, aqui destacaremos a do festejado fotógrafo Sebastião Salgado.

No último dia 27 de Abril de 2020, Salgado participou do programa Roda Viva, da Rede Cultura, apresentado pela jornalista Vera Magalhães e com a participação de meia dúzia de entrevistadores. Dela colhemos, bem como de várias outras, tocantes ideias e proposta que houvemos por bem destacar e compartilhar.  

Ontem como hoje, a arte, em suas múltiplas manifestações, segue sendo uma via fecunda de inspiração pelo bem do planeta e dos humanos. É certo que aqui e ali, triste sinais são emitidos da parte de gente necrófila que usa e abusa das potencialidades artísticas com propósitos de implementação da necropolítica, como, ainda há pouco, tivemos, no caso do Brasil, por meio da abominável figura do então Secretário Nacional da Cultura, que deve ter o destino da lixeira da história, em companhia de seus apoiadores. Não é, entretanto, destas figuras nazi-fascistas que aqui trazemos a reflexão. Muito ao contrário! São, com efeito, diversos autores e autoras que não se cansam de fazer justiça ao papel revolucionário da arte. 

Ao tratarmos disso, uma outra figura vem à memória: a de Ivandro da Costa Sales que, de vez em quando, sublinha, com ênfase, a relevância da arte como instrumento de libertação, em diversos períodos da história.

Mais recentemente, em nossa histórica nacional, tivemos vários exemplos que bem podem atestar a consistência desta avaliação. Lembremos, de passagem, a relevância de artistas – para citar apenas um dentre tantos e tantas, registremos o papel desempenhado pelas músicas de Chico Buarque de Holanda, durante a ditadura civil-militar -.

Hoje, voltamos ao tema, para ilustrar, neste contexto histórico e sócio-ambiental, a relevância ético-política e ecológica da figura de Sebastião Salgado. Os contextos dramáticos que ele tem registrado, pelos quatro cantos do mundo, inclusive aqui no Brasil, são prova inequívoca do seu compromisso com  as grandes causas da humanidade. Reconhecida é, por exemplo, sua atuação de artista, enquanto fotógrafo de cenas impactantes que somente um olhar crítico e condensado de grande carga de humanismo é capaz de oferecer. Quem não se lembra, por exemplo, da célebre foto em preto e branco daquela criança filha de camponeses ligados ao movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra? A acuidade do olhar do fotógrafo dificilmente poderia ser suficientemente descrito por mil palavras: eis o diferencial da linguagem artística! Não é à toa que Sebastião Salgado integra a Academia de Artes da França. 

Outro aspecto relevante na obra artística de Sebastião Salgado tem a ver com com sua postura propositiva. Seu modo de exercitar a arte da fotografia não se limita a um mero propósito de constatação. Isto, também o reconhecemos: já seria digno de louvor, haja vista o interesse que despertam suas fotografias, em seu trabalho em diferentes contextos, os mais conflitivos e dramáticos. Mas, não se limita a isto. Aspira a algo mais: desde os registros que consegue com seu olhar artístico de fotógrafo agrega, com efeito, registro fotográfico de pessoas e de situações, seu ímpeto propositivo, isto é, sua disposição de por meio de sua arte fotográfica, despertar nos espectadores a centelha do compromisso com as mudanças necessárias, tanto mudanças de caráter micro, quanto outras mais profundas alterações na organização da sociedade, em âmbito planetário, de sorte a comprometer seus apreciadores com a mudança das condições socioambientais. Disto é prova uma série de iniciativa por ele protagonizadas, das quais destacaremos, a seguir, as que reputamos de maior alcance sócio ambiental. 

Após marcar impressionante presença em várias situações e diferentes contextos, já há sete anos, vem dedicando-se a explorar, como fotógrafo e como cidadão planetário, o que vem vem ocorrendo na Amazônia. Ao fazê-lo, recorre a pessoas e grupos com reconhecida credibilidade, quanto ao conhecimento e ao zelo pela fauna, pela flora e, em especial, pelos que habitam e trabalham neste bioma. Seleciona, para tanto, com critérios judiciosos, os parceiros e parceiras de sua aventura humanística. Apela, por exemplo, a várias figuras representativas de nossos povos originários; interage com organizações de reconhecida seriedade, atuando na Amazônia; bebe de fontes e dados fornecidos, com credibilidade e, depois, a partir destes dados e, principalmente, a partir de sua percuciente observação de fotógrafo e de cidadão, Sebastião Salgado registra e, a partir dos registros coletados, ousa apresentar propostas concretas, no sentido de um enfrentamento exitoso dos desafios por ele observados.

Uma destas propostas é a organização, prevista para o dia 19 de abril de 2021, de uma grande exposição do cenário do bioma amazônico – de seus territórios e de suas gentes -, ocorrer simultaneamente em quatro grandes cidades: São Paulo, Paris, Rio de Janeiro e Roma. Estas exposições constituem uma relevante iniciativa, destinada a sensibilizar e a comprometer seus visitantes com a causa socioambiental em perigo, em escala planetária. Por que estas exposições contarão com um conjunto de protagonistas e com instrumentos e meios, destinados a despertar o devido interesse e sobretudo o compromisso dos visitantes destas exposições, de se unirem à causa libertária de nosso planeta e do conjunto de seus viventes, a partir do que se dá na Amazônia. Estão, ainda, previstas apresentações de músicas, inclusive a música de fundo escolhida para a exposição, bem como da produção de pronunciamentos e vídeos com protagonistas da região, além evidentemente de seu genial acervo de fotografias relativas à região Amazônica.

De modo mais imediato, Sebastião Salgado está a encabeçar uma carta aberta, a ser dirigida às autoridades das principais instituições brasileiras (ao Presidente da República, ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, ao Presidente das Casas Legislativas Nacionais), enviada com assinaturas de personagens de referência internacional, todas comprometidas com com a urgência de medidas capazes de deter o alto grau de degradação do bioma amazônico.

Importa, não menos, sublinhar a consistência desta suas iniciativas, em defesa e em promoção da vida do planeta e dos humanos, também por meio de seu legado que ultrapassa a genialidade de sua arte fotográfica, à medida que também é protagonista de algumas iniciativas de grande porte, tanto na Mata Atlântica, quanto em outras regiões, projetos sócio ambientais que trazem a marca de sua inventividade e de seu compromisso sócio ambiental.

Estas duas marcas que lhe são próprias, ele foi forjando ao longo de sua movimentada trajetória, graças à sua disposição de vivenciar boas aventuras. Devem-se, também, à sua marca de andarilho, a percorrer estradas mil neste vasto mundo, do qual chegou a conhecer mais de 120 países. Movido pelo amor à arte, em especial à fotografia, empreendeu uma longa sucessão de viagens de trabalho enfrentando situações-limite, e não poucas de alto risco pessoal. 

Convém, para uma melhor compreensão de sua trajetória de artista e de cidadão, destacar alguns traços de sua vida que precederam ao seu trabalho como fotógrafo, pelo mundo afora. Filho de uma família de fazendeiros, nascido e criado no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, muito aprendeu da vida de campo que experimentou. Em uma de suas entrevistas, faz menção das longas distâncias que teve que percorrer, tendo que enfrentar uma duração de 45 dias, para uma distância de cerca de 300 km, entre a fazenda de sua família e o lugar de abate para onde o gado era levado. Esta experiência lhe proporcionou um aprendizado relevante: saber lidar com tempo, aceitando a lentidão da caminhada, aproveitando para observar atentamente fenômenos e situações variadas que não escapavam ao seu olhar atento, o que muito aproveitaria para a arte de fotógrafo.

Mais adiante, para realizar seus estudos superiores, teve que mudar-se para Vitória, no Espírito Santo, onde convivendo em pequenas repúblicas ou em simples alojamentos, tratou de cuidar de seus estudos, tendo seguido o curso de Economia. Transferiu-se, em seguida, para São Paulo, onde vai cursar o mestrado em economia, e, depois, segue com sua esposa, para a França, onde vai cursar o seu doutorado em economia. Como se percebe, revela-se tardia sua estreia na arte da fotografia, isto também se converteu para ele em um ganho, dada a maturidade e a condição de aprimoramento interior de seu talento de fotógrafo, de tal modo que, ao iniciar-se propriamente na arte de fotógrafo, percorreu um caminho de sucessivos êxitos e de reconhecimento internacional.

Ainda como economista, teve experiência de trabalho em outros países como fotógrafo, intensificaram-se suas viagens, a cobrir acontecimentos os mais diversos: desde zonas de guerra, passando por experiências em países africanos como Níger e Ruanda, também tendo a oportunidade de cobrir acontecimentos de grande visibilidade, tal como ocorreu em uma de suas experiências como fotógrafo em Washington, ao fotografar cenas do atentado sofrido por Ronald Reagan, o que lhe valeu muita fama e dinheiro.

Mui digno de registro é seu relato acerca de sua decisão de abandonar um emprego de altíssima rentabilidade na organização internacional do café, onde trabalhava como economista para consagrar-se inteiramente à fotografia. Teve que enfrentar comentários indignados de colegas e amigos queridos: que loucura…!? Contava, porém, com o apoio de sua esposa, com quem há pouco celebrou 50 anos de casado. Arquiteta e fotógrafo passaram, então, a experimentar outro modo de vida tendo que abrir mão dos gordos vencimentos então obtidos, Sebastião Salgado passou a entregar-se, de corpo e alma, à arte de fotografar. Aparentemente, tinha sido uma escolha abrupta, no entanto, observando sua trajetória que também acumulava vocacionamentos diversos (além de economia, ele tinha, por enorme vontade do pai, cursado 1 ano de direito, curso do qual teve que abrir mão em favor da economia), tendo tido ainda outros chamamentos, tais como o de engenheiro mecânico, piloto (na sua primeira juventude, por influência de sua mãe), de sorte que, ao longo da vida. inclusive com fortes marcas do campo, de suas viagens a cavalo, durante dias, em visitas a parentes e amigos, tudo acabou contribuindo para a irrupção definitiva da vocação de fotógrafo.

Tendo iniciado sua nova profissão, sempre na companhia de sua esposa sobre quem comenta com frequência, passa a procurar revistas importantes em Paris, com o propósito de oferecer seus préstimos de fotógrafo, o que acabou se revelando em grande sucesso, tornando-se logo reconhecido pelo seu talento de artista. Passou a peregrinar por várias partes do mundo, nos vários continentes, passou dias na Sibéria, com temperaturas de mais de 40 graus negativos, em busca de conhecer e fotografar a gente daquela região gélida, o que também lhe renderia fama e dinheiro. Viajou pela índia, pela China, também pela América Latina, em contato com nossos povos originários, no meio de quem experimentava carinhoso acolhimento e solidariedade, compensando meses de ausência de sua família, então radicada na França.

Além de fotógrafo, ou melhor dito, combinando sua arte de fotografia com a de escritor, passou também a escrever alguns livros, dos quais nos permitimos destacar uma espécie de trilogia: “Trabalhadores “, Êxodo ” e “Gênesis”. Em cada um relata a experiência vivenciada, trazendo coerência com uma linha orgânica de continuidade, a demonstrar sua coerente busca de humanização. Em relação ao primeiro livro, conta, emocionado, as muitas cenas que fotografou, com profundo olhar só daquela gente, de pessoas de várias partes do mundo, destacando sua condição de trabalho. No livro “Gênesis”, também relata com emoção as dramáticas e experiências dos migrantes, com os quais se sentia profundamente conectado – também ele é um migrante. “Gênesis” corresponde a uma espécie de ápice de seu processo de humanização. Nele, Sebastião Salgado dispõe-se a mergulhar numa confluência de fotos de paisagens, de animais de comunidades indígenas, da mãe natureza, todas imagens que nele provocam um sentimento paradisíaco. Estes livros podem ser, de alguma forma, interpretados como uma síntese de sua trajetória de humanista, ao tempo em que aí ficam registradas imagens que sintetizam seu percurso existencial de alguém profundamente integrado à natureza e à cultura, em uma dimensão planetária.

Ainda dois ou três pontos que havemos por bem realçar do legado de Sebastião Salgado, ao ensejo destas brevíssimas notas. Em sua entrevista mais recente, concedida à Roda Viva, perguntado sobre um balanço que ele faria de seus sete anos, em diversas experiências de fotógrafo com várias comunidades indígenas, Sebastião Salgado destacou sua esperança e sua confiança de que a Amazônia – sua Terra e suas gentes – venham a merecer o respeito o reconhecimento e muitas potencialidades que ela tem a oferecer à humanidade. Fez menção ao que espera principalmente do Exército brasileiro naquela região, dada sua ampla experiência de trabalho em todos os recantos daquela região. Mas, surpreendeu-nos ao destacar as potencialidades econômicas daquela região, demonstrando, como economista, a relevância da flora amazônica, em matéria de produtos alimentares, farmacêuticos e cosméticos. Destacou, ainda, a relevância de tantas comunidades indígenas (uma centena) isoladas, alguma das quais descendentes dos Incas. 

 

João Pessoa, 1 de maio de 2020.

Leia mais sobre:

Deixe uma resposta