Argentina: o despertar da cidadania

O grande acontecimento na Argentina dos últimos tempos, tem sido a significativa mobilização contra o governo Kirchner ocorrida na semana passada. De fato, foi muito mais do que isso: foi um grande basta que a cidadania argentina, oprimida por um totalitarismo disfarçado de populista, se atreveu a dar.

Não adianta que desde o governo se siga tentando ignorar os motivos que levaram a milhares de pessoas à ruas, ou deslegitimar a manifestação, alegando as origens sociais dos manifestantes e das manifestantes.

O que interessa é que é a primeira vez, desde os acontecimentos que derrubaram o presidente radical Fernando de la Rua em 200, que a cidadania põe os pés na rua para dizer que, não, que não querem mais mentiras, não querem mais abusos, não querem mais a opressão de um modelo autoritário que, sob a bandeira peronista, vem se impondo desde o fim do governo de Raúl Alfonsín, o primeiro presidente civil depois da sangrenta ditadura de 1976-1983.

A Argentina veio dizer pela primeira vez, neste longo período de governos peronistas marcados pela concentração total do poder, pela desnacionalização, o amedrontamento ao protesto social, que não tem medo. Que o país não se resigna a ser passivo diante dos desmandos das gangues no poder que se revezam ora com cara abertamente fascista, ora com a cara populista, não menos fascista, do peronismo. Isto não pode ser dito na Argentina.

O país do sul pode estar acordando de um longo pesadelo, iniciado nos anos 1940 com o ciclo das ditaduras militares e os governos civis condicionados pela pressão de um peronismo que se apropriou, para fins de dominação e opressão, das bandeiras da cidadania, como o fez, de maneira emblemática, o governo Kirchner. Pode ser o início do surgimento de um outro modelo de país, mais horizontal, mais dialogado, mais participativo.

O fim do totalitarismo e o início de uma democracia. A Frente Ampla Progressista articulada ao redor de Hermes Binner, poderá ter pela frente a imensa tarefa de começar a construir, em nível nacional, uma forma de gestão da coisa pública mais limpá e transparente, menos personalista e sobre tudo, mais coletiva (não coletivista)

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