Argentina, 1976 e depois

É um árduo exercício, mas inevitável, todo mês de março, os argentinos se voltarem para os fatos que ocorreram a partir do golpe militar de 24 de março de 1976. A circunstância de que os genocidas que torturaram, seqüestraram e mataram milhares de pessoas no país de Maradona e Gardel, Borges e Mercedes Sosa, fossem argentinos, coloca, de per si, alguns interrogantes. ¿Seriam, de fato, argentinos? Pessoas de bem se perguntam isto. O fato de, comprovados os crimes, não ter havido constituição de um Tribunal Internacional de Justiça para condenar os delinquentes, coloca, também, um desafio. Impunidade gera repetência. Ou, ao menos, estimula a possibilidade da ocorrência de novos fatos do mesmo tipo. Na Argentina, os crimes contra a população civil percorrem difíceis caminhos nos meandros do aparato judicial. A Comissão sobre o Desaparecimento de Pessoas presidida pelo escritor Ernesto Sábato (CONADEP), mapeou as estratégias do terror praticadas pela ditadura. Dirigentes sindicais, jornalistas, militantes socias, ativistas de directos humanos, foram uma parte dos alvos da matança e amedrontamento. Mas o alvo maior, como foi constatado pela OPAS/OMS, era a mayoria da população, a totalidade dos habitantes da República, pessoas comuns como você e eu. O General Ibérico Saint-Jean, governador pela ditadura, da província de Buenos Aires, afirmava: Primeiro vamos acabar com os que são, depois com os que foram, e finalmente, com os que poderiam ser. Os “presumivelmente subversivos”, compreendiam uma ampla gama, que ia das testemunhas de Jeová aos alternativos de distintos matizes: gente “rara” em geral. Os que tivemos a graça de sobrevier à mais vasta operação de amedrontamento coletivo executada pela tropa de ocupação no País do Sul, 33 anos depois do início da mesma, estamos mobilizados para exigir a justiça que nos foi negada, para homenagear nossos mortos e insistir nas bandeiras que nos levaram e ainda nos levam, nos distintos lugares em que tivemos condições de sobreviver, a agradecer às inúmeras pessoas e organizações que, nos anos 76 e depois, estenderam suas mãos solidárias para acolher os fugitivos do regime de terror de Videla, Massera e Agosti. Ainda cantamos, ainda rimos, ainda trabalhamos no dia a dia, por um mundo de mais amor, mais paz, mais justiça, mas fraternidade, mais igualdade, mais respeito às diferenças. Puderam matar muitos dos nossos, mas não mataram, nem nunca poderão matar, a esperanza e a fe nos ideais que nos moveram ontem e nos movem hoje, a lutar por uma Argentina socialista, plural e diversa, libertária e justa. É isto.

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