Aquela esperança de tudo se ajeitar

Trocando em miúdos, analisado por Maria Helena Sansão Fontes:

Em “Trocando em miúdos” (1978), o tom arrebatador presente em “Pedaço de mim” cede lugar a uma leve ironia com que se percebe a intenção de encobrir o sentimento de perda. A suposta superação do desconforto gerado pela dissolução do relacionamento amoroso é sintetizada pelo próprio título do poema que se reveste de elementos do cotidiano:

Os elementos representativos da intimidade conjugal revelados pelas expressões “medida do Bonfim”; “disco do Pixinguinha”, “As marcas de amor nos nossos lençóis”, são dessacralizados através da conotação irônica emprestada por palavras que encobrem a dor contida e velada do eu-emissor: “Aquela esperança de tudo se ajeitar/Pode esquecer/Aquela aliança você pode empenhar/ Ou derreter”.

A dor da perda e o temor do descontínuo, que são tratados com intenso dilaceramento nos poemas analisados anteriormente, como “Eu te amo” ou “Pedaço de mim”, aqui evidenciam intencional esvaziamento do pathos, revelando-se apenas em alguns versos em que o teor dramático supera a ironia que tenta encobri-lo: “Mas devo dizer que não vou lhe dar/ O enorme prazer de me ver chorar/ Nem vou Ihe cobrar pelo seu estrago/ Meu peito tão dilacerado”.

A última estrofe retoma o tom de intencional desprendimento, e, através do verso “Eu levo a carteira de identidade”, há a sutil aceitação da descontinuidade, resgatada com o fim do relacionamento amoroso. [Maria Helena Sansão Fontes, “Sem fantasia – Masculino e feminino em Chico Buarque”, Editora Graphia, 1999]


(De Francis Hime e Chico Buarque, 1978)

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde

[Publicado neste blog em 30-04-2008 e novamente em 08-10-2008, com a análise; letra e comentário do site do Chico]

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