Apuração preguiçosa ou "preguiça" deliberada?

Minha mãe e meu padrasto, junto de alguns amigos, são voluntários em uma escola que atende crianças do Morro dos Macacos, na Tijuca. Há mais de um mês, uma atividade com moradores da região estava marcada para o último domingo, pela manhã. Além da distribuição de cestas básicas, o evento contaria com palestras variadas e atendimentos gratuitos em medicina alternativa. Até aí, nada demais – apenas mais um grupo pessoas tentando melhorar o mundo.
Ao receber minha mãe de volta para o tradicional almoço de domingo [12 de julho], qual não foi a minha surpresa quando ela veio me contar que a atividade, por pouco, não havia sido cancelada. O motivo? A comunidade estava em pânico e com medo de sair de casa após a morte de cinco moradores em uma incursão da PM na noite anterior.
A história contada pelos moradores que se arriscaram a participar (descrita por TODOS eles, sem exceção) e confirmada pelos responsáveis pela escola era a seguinte: o tráfico atrasara o famoso arrego dos policiais. Em represália, os militares proibiram a realização de uma tradicional festa junina (veja bem, NADA de baile funk) que reúne os que vivem no local. Sim, é bem verdade que ela só é realizada com o apoio financeiro dos traficantes, mas se assim não fosse acho bastante difícil que existisse verba disponível para bancar a confraternização.
Mas prossigamos: apesar da proibição imposta, a festa junina acabou acontecendo. No meio dos festejos, uma quadrilha (conjunto de bandidos, e não grupo de dança) de policiais invadiu o morro usando e abusando da já costumeira truculência. O saldo final foi de cinco mortos (na verdade, dois corpos não foram encontrados, mas deduziu-se o óbvio). O pior é que, segundo nova afirmação unânime dos moradores, pelo menos dois dos falecidos não tinham RIGOROSAMENTE nada a ver com o tráfico.
Os fatos nefastos não param por aí. Embora a sociedade não tome conhecimento, mortes pelas mãos de policiais de maneira semelhante se transformaram em acontecimento corriqueiro no Morro dos Macacos. Às vezes, a média é de uma incursão por semana. Não se contabiliza corpos. Não se presta contas de tais ações.
A grande ironia é que, de acordo com uma líder da comunidade, existe uma torcida velada dos próprios moradores para que denúncias não aconteçam. Se algo é divulgado, seja pela imprensa ou até no disque-denúncia, a violência da próxima “batida” policial dobra. Se a polícia mata e causa medo, pra quem esses cidadãos vão apelar?
Na condição de futuro (e presente, de certa forma) jornalista, me perguntei por que nada daquilo tinha tido repercussão na mídia. Os dados não chegavam às redações? Não havia interesse em publicar? De todo modo, decidi aguardar até a edição de segunda-feira. Não me parecia concebível que a morte de CINCO pessoas em uma única ação policial, bandidas ou não, fosse passar incólume pelos meios de comunicação.
Hoje pela manhã, ao olhar a capa de ‘O Globo’, já senti o tom do que viria por aí. Sob a chamada “PM proíbe funk onde baile causa violência”, um pequeno texto anunciava uma nova medida de segurança adotada pelo Estado. Acerca do episódio no Morro dos Macacos, apenas uma menção afirmando que a polícia teria sido recebida a tiros e que a morte de três pessoas, além de outras seis feridas, teria sido ocasionada pelo confronto com os traficantes. Sem falar que, na ótica do jornal, quem causaria a violência seria o funk e não a própria ação policial. Mais apropriado impossível, pelo menos pra PM.
Por simples matemática, já se percebe que dois dos mortos contabilizados pelos próprios moradores ficaram pelo caminho. Na matéria, a manchete trazia um trocadilho bem bacana: “FUNK PROIBIDÃO”. Logo “O Globo”, que não é o “Meia-hora”, foi decidir por chamada bem-humorada em notícia que trata de morte? Banalização pouca é bobagem… Aliás, independente disso, é no mínimo revoltante que o assunto principal da notícia gire em torno da medida de segurança do Governo e não da morte em circunstâncias duvidosas de três seres humanos (nas contas divulgadas pelo jornal).
Quando uma bala perdida atinge alguém nas ruas da Zona Sul, o assunto reina absoluto nos quatro ventos. Se duvidar, dá até nota na CNN. Querendo ficar mais perto do Morro dos Macacos, é só lembrar da morte da menina Gabriela, também por bala perdida, nas ruas da Tijuca. A conclusão é óbvia e nem tão nova, por mais que ainda choque: se morre o pobre e favelado, então, ninguém liga. Preto sendo, melhor ainda.
No texto, em momento algum se questiona a forma como foi conduzida a ação policial ou é proposta uma análise um pouco mais crítica sobre a famigerada política de extermínio referendada – ao que tudo indica – pelo Sr. Sérgio Cabral. Para disfarçar a parcialidade escancarada, dá-se aspas a um morador do Morro dos Macacos já no fim da matéria, anunciando o caráter contínuo das execuções por parte da Polícia Militar.
Mas peraí… Mesmo com tal declaração o repórter não se preocupou em buscar mais informações sobre essas mortes? Porque os fatos narrados anteriormente no texto são contados e assumidos como verdade e não como versão da Polícia? E por qual motivo não se expõe com precisão também o que diz o outro lado da história? Afinal de contas, uma das premissas básicas do jornalismo é – ou deveria ser – uma tal de imparcialidade… Ou não?
Decerto, haverá quem diga que a variante narrada pelos policiais merece mais crédito do que as lorotas contadas por essa gentalha que, por mim, nem exisitiria. É mais confortável pensar assim. Contudo, pouco importa: se “o papel do jornal é informar”, como apregoa o slogan do mesmo jornal, é obrigação informar direito. Passa por isso, no mínimo, ouvir os dois lados de uma história.
Depois, não vamos reclamar por acabarem com a exigência do diploma…
(*) Luã Marinatto é estudante de jornalismo da Universidade Federal Fluminense.

Deixe uma resposta