Ano novo de novo

Mais um ano novo vem vindo por aí, como é comum nessa época de Natal. Nesses períodos, as pessoas se enchem daqueles sentimentos estranhos, de generosidade e solidariedade, que ficaram bastante sumidos no resto do ano inteiro. Afinal, todo mundo andou correndo atrás do seu, e a vida não anda mesmo fácil pra ninguém. É nessa época que a gente começa a receber aquelas mensagens bem intencionadas, cheia de foto de borboleta, de árvores piramidais e flores das mais diversas naturezas. Vêm pelo correio ou por e-mail. E chegam também aquelas mensagens de PowerPoint, com música brega ao fundo e aqueles textos melosos, por vezes extraídos de livros de auto-ajuda. Particularmente, acho muito interessante esse período. São as pessoas buscando suas melhores referências para semear amor – mesmo que as referências sejam meio esquisitas.
Vá lá: sempre achei que a grande maioria das pessoas nem sabe o que está falando quando deseja um “próspero ano novo”. Depois do Reveillon, a palavra “próspero” nunca mais é usada, no resto do ano. Mas, no íntimo, as pessoas estão tentando desejar algo de bom àqueles que amam. Nas cartas, aparecem aqueles bonequinhos de neve, ou o Papai Noel com aquela roupa bizarra no trenó, porque lá pelos lados do norte do planeta, onde o Natal do consumo foi inventado, essa época é bastante fria. Mas não acho tão legal ficar criticando muito isso, porque afinal de contas esses são os raros momentos em que a humanidade deixa um pouco de lado sua correria injustificável e insana pra semear alguma coisa que lhe pareça boa.
De minha parte, gosto também de mandar minhas mensagens. E uso exatamente as mesmas palavras fartamente utilizadas nesses cartões. Gosto de desejar “felicidade”, por exem plo. Mas não a felicidade do consumo, a felicidade das posses, muito menos aquela alegria efêmera do consumo massivo de drogas. A felicidade que eu desejo é a de quem tem pelo menos um grande amigo pra prosear uma noite inteira. É a felicidade de quem tem lá alguns sonhos, e que dedica pelo menos um tempinho, todo dia, pra tentar realizá-los. Como as pessoas que mandam os cartões, também gosto de desejar “sucesso”. Mas não o sucesso do dinheiro, da carreira e dos cargos. O sucesso que desejo é o de quem se entrega, por horas a fio, a construir as coisas em que acredita. O sucesso dos que nem sempre têm leite e manteiga na geladeira, mas vivem seus dias com graça e plenitude. O sucesso dos que driblam os inevitáveis e fartos problemas pra construir um sorriso, por raro que seja, em seu rosto e no dos seus.
Não gosto de desejar “prosperidade”, nem de dar presentes, nem ainda de ganhá-los, porque o valor desse tempo não está nessas coisinhas inúteis que se compra nas lojas. Por mais que existam, cada vez mais, fábricas de coisinhas inúteis espalhadas pelo mundo inteiro. Não é difícil concluir que nesses tempos insanos, rarefeitos de afeto e ternura, um abraço ou um sorriso são presentes mais sinceros do que uma TV tela plana de 48 polegadas. Por isso, não desejo prosperidade a ninguém, senão para fazer uso nobre, algo cada vez mais raro. Nas minhas mensagens, desejo, por fim, “paz”. Sim, essa palavrinha pequena também é figura farta nos cartões de Natal. Seja porque, com três letras, gasta pouca caneta, e a tinta anda pela hora da morte, seja porque a palavra tem um significado lindo, mesmo que meio impreciso. De minha parte, desejo a paz absoluta, aquela que a gente, quando busca, encontra lá no fundinho da alma. A paz que vai tomando conta do nosso coração por completo, quando vivenciamos alguma coisa boa. A paz dos que já perceberam que não vamos construir um mundo de amor através do ódio, dos que buscam amar os seus adversários. A paz dos justos, essa é a que eu desejo.
A todos, um ano novo cheio de vida e cores, e de luta contra todas as dores.

3 comentários sobre “Ano novo de novo”

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  2. Prezado Leandro,
    É com muita alegria que leio seus artigos, porque eles sempre proporcionam reflexões sérias. Gosto muito do que você escreve, do seus estilo e de seus contrapontos. Particularmente esse, é preciso, oportuno, contundente. Repassarei a alguns amigos, obviamente com a referência de sua autoria e publicação. Também lhe desejo felicidade e paz, bem nos moldes que você definiu, assim como sucesso, saúde e luz em seus caminhos de pessoa humana, de cidadão, de profissional e de “pensador do cotidiano”, que nos possibilita pensar criticamente. A meu ver, saúde, paz , sucesso e felicidade têm estreita ligação com o que somos, sentimos, pensamos e fazemos conosco, com as pessoas, com a Mãe Natureza, com a vida.
    Um fraterno abraço e continue feliz em 2011!
    Márcia Regina.

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