Por Eduardo Sá, Fotos Byron Prujansky
Porto Alegre (RS) = “América Latina, resistências e alternativas”, esse foi o tema de um rico debate que marcou a programação do Fórum Social Mundial Temático. A mesa foi realizada na tarde da última quarta-feira (21) no teatro Dante Barone da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
O cubano Alfredo Peres Alemany exaltou a revolução em seu país e lembrou a resistência anti imperialista de seu povo há mais de meio século. Sua avaliação foi que o bloqueio imposto pelos EUA é criminal do ponto vista econômico e financeiro. “Quando derrubaram o bloco socialista enfrentamos circunstâncias muito difíceis, foi um período especial de muita resistência do povo cubano. A alimentação passou por uma situação extremamente crítica, e o comitê revolucionário decidiu conservar a revolução”, afirmou.
Sobre a retomada de relações entre Cuba e Estados Unidos, o militante destacou com o seu país não fará nenhuma concessão e as relações se darão de acordo com as suas necessidades e em condições de igualdades. “Superamos o analfabetismo, conseguimos fazer uma das melhores medicinas do mundo e ajudar povos-irmãos que necessitem de nossa colaboração. Hoje, 85% dos cubanos têm a propriedade de sua casa. Portanto, asseguramos ao povo cubano o direito de viver com dignidade. E o nosso povo tem orgulho disso e está disposto a defender a revolução até as últimas consequências”, destacou.
Atento às movimentações na região, o cubano abordou algumas dificuldades enfrentadas na Venezuela, Argentina e Brasil. Mas defendeu que na América Latina há uma força revolucionária disposta a lutar, se necessário. “Vemos pequenos retrocessos, mas temos a clareza de que são momentâneos e vamos sair mais fortalecidos desse período. Temos movimentos sociais muito fortes em todos esses países, a luta das mulheres, pela terra, pela água, moradia e saúde, etc. São movimentos independentes~, mas têm algo muito especial porque todos estão emanados pela mesma causa”, concluiu.
Unidade na Luta
A vereadora de Porto Alegre, Jussara Cony (PCdoB), iniciou sua fala citando Che Guevara e o poeta Pedro Munhoz ressaltando a indignação necessária para as transformações e revolução como horizonte. Lembrou que os EUA continua sendo o maior império do mundo, e que os movimentos em todo mundo está enfrentando fortes lutas de classes nesse período de crise.
“Precisamos repensar as estratégias para pensar as possibilidades do momento histórico sem comprometer as necessidades das gerações futuras da sociedade. Não há alternativa aos princípios do neoliberalismo, a tarefa dos seus opositores é oferecer outras receitas e promover novos recheios. Se intensificam as políticas agressivas das potências imperialistas colocando em xeque a paz mundial. É uma crise sistêmica e multidimensional do capitalismo”, analisou.
Cony alertou que nessa nova divisão as potências acabam saqueando saqueando nossas riquezas por meio de suas tecnologias, sendo que o Brasil tem a maior biodiversidade do mundo. “Há uma feroz ofensiva dos EUA e seus aliados impondo sua hegemonia, a ONU atua sob as potências imperialistas, veja o exemplo da Palestina. Tivemos conquistas fruto da lutas dos povos latino-americanos, importantes do ponto de vista social, lutamos contra ditaduras e elegemos um presidente operário e uma mulher. Precisamos fazer a integração como nos BRICS, pois quando as pessoas se organizam e lutam as coisas funcionam”, acrescentou.
Ao lembrar a vitórias dos movimentos na região sobre a criação da ALCA, ela reforçou a necessidade de integração latino-americana. “Como vamos nos preparar para vencer a trans-pacífico, as bases dos EUA, sustentar os povos em luta num cenário de crise econômica e conflitos? Precisamos construir um polo geopolítico que produza novas correlações de forças. Nossa maior riqueza é a diversidade social e cultural, que incomoda os dominadores que destruíram nossos povos originários. Somos divididos por territórios demarcados na América Latina por guerras, extermínio e terrorismo colonizador, mas a América é uma: a terá tem que ser de todos”, afirmou.
A luta negra no continente
Resgatando a história do continente, Reginaldo Bispo, do Movimento Negro Unificado, lembrou que Simon Bolívar se escudou na revolução do Haiti mas se esqueceu de agradecer resultando num tremendo isolamento que dura até hoje. Para ele, isso é um exemplo histórico da omissão das lideranças na região com o povo negro.
“O povo negro tem um papel fundamental no mundo, mas tem expropriado sua força de trabalho, seus valores e sua vida. Na Guerra do Paraguai desapareceu cerca de um milhão de negros no Brasil. O genocídio chega aos dias atuais com números de guerra, o mapa da violência de 2012 diz que o número de vítimas de homicídio pela miséria e a policia dos estados brasileiros dá conta de 515 mil mortos em 11 anos. A Guerra civil de Angola no mesmo período vitimou 540 mil: vivemos um estado de guerra permanente contra o povo negro”, denunciou.
Esses cálculos, segundo ele, só registram os mortos a tiros. Mas, em sua opinião, genocídio não se faz só pelas balas perdidas ou encontradas. “Se faz pela pobreza, insalubridade dos locais, má educação e atendimento na saúde. Hoje chega a 57 mil por ano os mortos por bala, e a maioria é de jovens negros de 14 a 25 anos. Essa sangria talvez seja a coisa mais grave, é uma guerra não declarada e ninguém tem coragem de assumi-la. Nossa principal bandeira nesse instante são pontos de um programa para fazer paz e democracia nesse país, a luta contra o racismo, a titulação dos territórios quilombolas, o racismo religioso e a defesa da história do negro no Brasil nas escolas, reparações históricas.
O cidadão como sujeito político
O ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra (PT), ressaltou a importância do Fórum na perspectiva de intercambiar experiências de lutas que buscam transformações profundas na relação do homem consigo mesmo e a natureza. É preciso, segundo ele, desenvolver modelos de desenvolvimento com respeito à pluralidade e diferença, o direito aos povos e territórios.
“O capital não é grande ou pequeno, humano ou desumano, é um processo em que as pessoas nos países em que esse sistema de produção e relação se impõe as pessoas são números ou peças duma engrenagem. No mundo novo que queremos construir cada ser humano passa a ser sujeito e não objeto das políticas, que buscam a dignidade do ser humano. O pensamento humanista, que é a esquerda um bloco aberto, precisa se definir com um pensamento estratégico de transformação que não se reduz a ganhar ou perder eleições”, propôs.
Embora seja integrante do partido, Dutra destacou que o PT já foi mais à esquerda. Nesse sentido, ele defendeu que a esquerda precisa ter tons mais nítidos para não ser espaço de entrada da política tradicional, do profissionalismo e carreirismo político. “Devemos fazer a nossa auto-crítica e de responsabilidade política. Quando um conjunto de partidos assumiu um espaço importante nos executivos, legislativos, etc, teve um reflexo na visão estratégica nos partidos ou conjunto de forças. É um estado que não queremos, então é uma contradição permanente com processo de participação e protagonismo para superar o processo de produção”, criticou.
Como as ideias progressistas e populares têm de conviver com as corporações, os poderosos e mais ricos, complementou o político, as mudanças devem vir com o tempo de baixo para a cima para aproximar os sujeitos dos processos políticos. Para isso, defendeu Olívio, é necessária uma visão mais orgânica de médio e longo prazo com
objetivos para alcançar mais sujeitos e coletivos nessa construção.
“Não há solução mágica ou meramente eleitoral. Há que retomar o trabalho de base, todos os militantes do campo democrático popular sejamos aprendizes. Nos desfazer das visões, repensando permanentemente como ganhar forças de baixo para cima e não contemporizar para ter possibilidades de governar. Ganhar uma eleição com determinadas composições se avança, mas às vezes se avança muito mais perdendo uma eleição. As oligarquias nas região se cristalizaram em estruturas que estão longe de atender as demandas, num estado que serve de cidadela das grandes corporações nacionais e multinacionais. A esquerda latino-americana precisa se questionar”, finalizou.
