Ainda existe intolerância

Programas humorísticos não costumam ser politicamente corretos. Mas as declarações do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), em sua recente aparição no programa CQC, da Band, ultrapassaram todos os limites. Bolsonaro colocou negros, homossexuais e promíscuos no mesmo balaio. E reascendeu o debate sobre o racismo e a homofobia no Brasil. Muito antes das declarações do deputado, os episódios de agressão a homossexuais na Avenida Paulista, em São Paulo, já denunciavam uma triste realidade. Ainda cultivamos a intolerância.

Num mundo onde as redes sociais nos deixam cada vez mais conectados e onde a diversidade (de pensamento, de credos e até de “sexos”) é alardeada em alto e bom som, pensar em racismo e homofobia parece contraditório. Afinal, empresas e personalidades reiteram, diariamente, que é preciso respeitar o próximo; amar o próximo. Mas a declaração de Bolsonaro ressoa em muitos cantos do país pois, infelizmente, suas preconceituosas palavras e atitudes refletem o pensamento de parte dos brasileiros. Seus eleitores, talvez.

Nos dias de hoje, o racismo continua sendo negado. E o mito da democracia racial ainda persiste. Afinal, dizem alguns, “eu até tenho empregados e amigos negros!”. E sobre a homossexualidade, esta é teoricamente aceita, desde que em território alheio. Como disse Bolsonaro, em resposta à Preta Gil, “não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”. Não se sabe se a infeliz declaração se referia ao relacionamento com negros ou com gays. Pouco importa.

Mas qual será o motivo de tamanha intolerância, num país deveras multicultural, como o Brasil? Formular respostas não é fácil. Mas uma delas talvez seja a dificuldade que nós, brasileiros, temos em encarar o preconceito de frente. Certos assuntos, como racismo e homofobia, ainda são considerados tabus em grande parte das famílias brasileiras. O que ajuda a perpetuar mitos como a democracia racial e a igualdade de gêneros. Já passou da hora de admitirmos que a nossa igualdade não é tão verdadeira assim.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, em média dois homossexuais são assassinados por dia no Brasil. Já os casos de racismo, apesar de não contabilizados, também são expressivos. Recentemente, um estudante da Universidade Federal do Pampa teve que se mudar do Rio Grande do Sul. Ele foi vítima de racismo numa abordagem policial e, após denunciar o fato, passou a sofrer ameaças de morte. Em Londres, as bananas lançadas em campo, na direção do jogador Neymar, comprovam que este crime ultrapassa fronteiras e culturas.

Infelizmente, declarações como as de Bolsonaro refletem a opinião de muitas pessoas que, desacostumadas à democracia, acreditam que “ser diferente é anormal”. São estas as mesmas pessoas que são contrárias às políticas de cotas para negros. E as mesmas que reagem com fúria só de pensar que o governo pensa em distribuir cartilhas para prevenir a homofobia nas escolas. Enquanto continuarmos com essa cultura hipócrita, a intolerância irá persistir. Afinal: será que não existem gays no Brasil? Nem negros historicamente discriminados?

(*) Rodrigo Galdino é jornalista.

4 comentários sobre “Ainda existe intolerância”

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  2. Apesar de concordar com as pontuações do Galdino, me chama a atenção ao último parágrafo, no qual o mesmo alega que o indivíduo contrário a política de cotas é “desacostumado com a democracia” e pensa que “ser diferente é anormal”. O debate com relação às cotas é muito mais extenso que isso e quando de qualidade, passa longe de preconceitos. Eu sou completamente contrário às cotas por ser plenamente favorável à lotérica, por exemplo. Tanto para escolha dos representantes quanto para o acesso à universidade. A lei dos grandes números me dá segurança para dizer que com o sorteio a câmara de deputados seria muito parecida em seus segmentos à sociedade brasileira como um todo. O sorteio para o acesso à universidade parte do mesmo princípio. Existe um debate enorme com desdobramentos que renderam muitas teses a respeito das cotas, desde acusações de ser uma política de incentivo enquadrada no neoliberalismo até argumentos menos fundamentados teoricamente. O que não pode é sem base nenhuma rotular todos os contrários à política de cotas dessa forma.

  3. O texto não pretendia rotular. Isso seria contraditório, pois eu estaria seguindo a lógica infeliz de Bolsonaro. Concordo que ser contrário às cotas não tem relação direta com o desrespeito às diferenças. No entanto, muitos argumentos de pessoas contrárias às cotas estão recheados de preconceito. Ou até mesmo da negação da existência do racismo. Acho que negar o racismo é uma forma de preconceito escondida atrás de argumentos visivelmente fatídicos. Esse debate é interessante. E concordo: vai muito além do discurso simplista emitido no meu último parágrafo. Obrigado pela leitura e comentário, Velasco!

  4. Tudo isso já é dito e sabido que Sua Excelência se referia ao comportamento de uma minoria ele tem direito de pensar diferente de seguir a sua fé por este motivo teve e terá o meu voto repito leia a resposta dele antes de atirar pedras se informe antes de debaterar agradeço o espaço. Homofobia é crime, racismo e heterofobia também!

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