Agroecologia urbana no Rio de Janeiro

Mudas no quintal de Luiz Poeta, idealizador do Verdejar, para o reflorestamento na Serra da Misericórdia. Foto: Eduardo Sá.

A sensibilidade e visão de um morador foi o suficiente para criar um movimento de conscientização ambiental em diversas comunidades no entorno da Serra da Misericórdia, na zona norte do Rio. Luiz Poeta morreu de câncer ainda jovem recentemente, mas deixou seu legado através da ONG Verdejar, que realiza diversos projetos na região. O reflorestamento, a preservação e a conscientização ambiental são as prioridades da instituição. A modificação na vegetacão de algumas localidades é significativa, desde que esses agentes começaram a trabalhar no Parque Florestal.
O marco do Verdejar, segundo o relato de integrantes mais antigos, foi quando Poeta passou na Estrada Velha da Pavuna, via principal próxima ao local de fundação da ONG, com um carrinho de mão cheio de mudas e chamou mais um camarada num bar para ajudá-lo a plantá-las na comunidade Sergio Silva, no Engenho da Rainha. No dia seguinte ocorreu a primeira reunião com alguns moradores para pensar a continuidade da ideia. Algumas pessoas foram tomando gosto, Poeta construiu sua casa em cima da trilha e em 1997 o Verdejar passou a existir informalmente. O resultado é que hoje muitas plantas nativas da Mata Atlântica foram recuperadas, e a biodiversidade em diversos pontos da Serra da Misericórdia está sendo potencializada e preservada.
Poeta gostava de caminhar nas matas do Parque Florestal da Serra na altura da comunidade Sergio Silva, onde existe uma área de Preservação Ambiental e Recuperação Urbana (Aparu) desde novembro do ano 2000. Essa foi uma das conquistas graças à mobilização dos moradores, que também expulsaram um grupo de grileiros que tentou lotear o território e ganhar dinheiro com habitação na região. No ano de 2001 o Verdejar lançou em parceria com outras entidades a “Carta Aberta da Serra da Misericórdia”, com 27 propostas da sociedade civil para a regulamentação da APARU, competência do poder público executivo não cumprida. Uma das propostas era a extinção das mineradoras para a criação de um Parque sócio-ambiental nos espaços.
Zolmir Silva Figueiredo regando a horta no quintal do Verdejar. Foto: Eduardo Sá.

Para ter uma ideia de como está o local hoje, onde os moradores chamavam de Praça do Meio, espaço onde foram plantadas as primeiras mudas e realizadas as primeiras reuniões no meio da vegetação rasteira , tudo é totalmente tomado pela floresta fechada que foi replantada pelo Verdejar. Antes havia muito mato rasteiro, e incêndios devastavam a vegetação nativa frequentemente. Pedreiras que atuam na região também prejudicavam a prejudicam o ambiente, como a Lafarge, há 17 anos em atividade.
De acordo com Zolmir Silva Figueiredo, um dos moradores que acabou se envolvendo com o Verdejar, existem também projetos na área de alimentação e eles criaram uma estrutura para avançar nas hortas e plantas espontâneas para consumo próprio e venda local. Zolmir tem um comércio na região e, após uma caminhada ecológica em 2004, se ligou ao Verdejar e hoje é diretor financeiro da organização. Ele explica que o processo é lento, mas muito já foi reflorestado e a expectativa é avançar na preservação da região.
“A principal bandeira do Verdejar é a preservação e recuperação da Serra da Misericórdia.  Mas trabalhamos também com agricultura urbana, que está um pouco parada, além de agroecologia, agrofloresta e educação ambiental. A gente recebe muita visita de pessoas interessadas nessa área, e uma vez por mês fazemos o multirão de manejo. Promovemos também trabalho na horta, de manejo na agrofloresta, de manutenção das trilhas e educação ambiental de um modo geral. Estamos trabalhando com criança também, tem uma parte pequena ligada à questão cultural na área de meio ambiente”, explicou.
Verdejar

Placa na entrada do Parque Florestal na rua Sergio Silva, onde o Verdejar foi fundado. Foto: Eduardo Sá.

O grupo é composto em sua maioria de voluntários, pois o projeto não gera muita renda ainda. Com a chegada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Complexo do Alemão, alguns projetos foram captados na onda de investimentos na área e a expectativa é ocorrer avanços nos próximos meses. Cerca de 10 pessoas tocam a organização atualmente, realizando palestras, eventos, mutirões, dentre outras iniciativas. Princípios solidários, tendo o amor à natureza como eixo, norteiam a visão da instituição. A responsabilidade social dos projetos também é visível, como o de Reciclagem que ainda está no papel por falta de recursos.
Tem uma parte mais administrativa, que se concentra em Olaria, na mantenedora do Verdejar, e um pessoal mais de campo que trabalha junto à natureza. Naquele caso, há um estrutura para captação de recursos e gerenciar as atividades. No trabalho de campo, são realizadas experiências em várias partes da Serra da Misericórdia, mas a sede matriz que fica na entrada do Parque continua sendo referência.  No local foi construído, por mutirão, uma pequena casa que hoje tem um uma horta no quintal com sistema de captação da água da chuva. O banheiro é seco, também ecológico. O processo se chama compostagem, no caso feito com serragem, método também utilizado para produção de adubo para terra. As sobras de alimentos são jogadas num canto do quintal que, unidas às folhas secas, se decompõem atraindo minhocas e gerando uma terra natural extremamente fértil. Depois de peneirada fica com uma cor muito bonita, bem viva.
Sistema de captação de água da chuva para irrigação da horta no quintal da sede. Foto: Eduardo Sá.

Ao redor da casa de Luiz Poeta e na matriz do Verdejar são feitas experiências com hortas e mudas. Várias folhas são produzidas, mas a escala ainda é insuficiente para gerar renda. Os alimentos são distribuídos para os moradores e produtores, mas também já foram vendidos excedentes em feiras locais. As mudas, por sua vez, são todas direcionadas para o reflorestamento da Serra da Misericórdia: Pau Brasil, Aroeira, Trema, Ipê, Ingá, Pau Rei, etc. Há também frutíferas, como o Araçá, Goiabeira, banana, cajá, dentre outras. Andando pela trilha é notável a diversidade da floresta, que foi toda pensada ecológicamente por esses agentes ambientais do Verdejar. O retorno de espécies animais também já é sentida pelos integrantes do Verdejar.
Dona Marinete mora há quase 60 anos na comunidade Sergio Silva, foi uma das primeiras a chegar na região, e ressalta a importância do Parque para os moradores e a humanidade como um todo. Segundo ela, a natureza é necessária para os seres humanos e é preciso compreender que cortar ou devastar pode prejudicar nossa saúde. Nesse sentido, Marinete destaca o envolvimento da juventude para a preservação das matas durante gerações.
“Eu já usei muita coisa dessas matas, mas hoje não tem quase banana, laranja e abacaxi, por causa do fogo. Mas já tem lá para cima de novo jaca, manga e banana. Eu tinha banana na minha casa em, porque chovia nessa época e eu dava para todo mundo. Faz bem para os moradores, mas para manter isso tudo depende dos que trabalham no meio ambiente e das autoridades competentes para manter a natureza. Não inventar de fazer alguma coisa para destruí-la.  É necessário que o povo se una bem, oriente a juventude, porque a gente depende da natureza. Agora não chove mais como antigamente, e forma uma poluição que pega na fruta. Isso é culpa do ser humano
Sistema agroflorestal

Placa na entrada da trilha, que começa no portão da casa de Luiz Poeta. Foto: Eduardo Sá.



Antes o reflorestamento e a produção de mudas era feito a esmo motivados pelo amor à natureza, mas com a experiência e trocas de informação o manejo das plantações foi sendo aperfeiçoado até o estágio atual do sistema agroflorestal. Tudo é feito com produtos naturais, sem utilização de venenos, fertilizantes e sementes transgênicas. A biodiversidade se mantém num sistema integrado com a natureza de maneira sustentável. Por volta de 2007 um manejado adequado do solo foi se tornando fonte de preocupação dos integrantes. Começaram a perceber que o homem pode não só deixar de degradar como também recuperar a mata.
“O fogo e a chuva vão levando os nutrientes da terra, e passa a não dar para plantar algumas culturas. Os sistemas agroflorestais recuperam a terra com a incorporação de matéria orgânica, fazendo com que a chuva tenha um impacto muito menor no solo. Protege também a úmidade, que pode provocar a mossoroca se não tiver a prevenção. A partir de certa fase, com a sombra das árvores você planta outras culturas e se quiser mudar depois a fertilidade do solo é conservada. É um processo contínuo, a floresta vai realimentando”, afirma Zoemir.
São realizadas faixas ecológicas, algumas com a utilização de trilhas, para criar espaços a fim de dificultar a proliferação do fogo em caso de incêndios em épocas de seca. Os capins secos são retirados, os cipós que degeneram algumas árvores, e realizado todo um manejo para o bom funcionamento dos elementos naturais da floresta. Eles também limpam as matas, retirando o lixo jogado por moradores e visitantes.
Serra da Misericórdia

Vista no topo da trilha, pegando diversos bairros da região, inclusive o estádio Engenhão, no canto superior direito da imagem. Foto: Eduardo Sá.

A Serra da Misericórdia tem cerca de 43,9 km2 no subúrbio carioca.  O maciço da Misericórdia chega a 260 metros de altitude em seu pico culminante na Serra do Juramento. A Serra está em 27 bairros, dentre eles Complexo do Alemão, Engenho da Rainha, Inhaúma, Irajá, Madureira, Olaria e Penha. Os principais corpos hídricos da bacia hidrográfica da Baia de Guanabara compõem sua biodiversidade, como os canais do Cunha e Penha e os rios Jacaré e Faria-Timbó, dentre outros. Segundo os dados do Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-1996), vivem 897.797 habitantes na região, muitos moradores das 98 favelas no entorno.
O território também é caracterizado por significativa ocupação industrial, e não há nenhum controle de poluição dos bairros. Três pedreiras têm suas jazidas de granito, que são de um tipo raro, exploradas há décadas. Na área central da Serra a exploração mineral está cada vez mais acelerada, o que dificulta a recuperação ambiental. É a maior exploração mineral do Brasil em perímetro urbano, segundo dados da Verdejar. A produção de brita continua atraindo exploradores europeus, como a empresa francesa Lafarge. Existem mais de 15 pedreiras desativadas e uma saibreira extinta há mais de 50 anos.
A densa cobertura de mata atlântica hoje se encontra em estado avançado de degradação, com forte destruição do solo. Com a impermeabilização do terreno e o ressecamento dos rios, as comunidades que vivem nas encostas muitas vezes ficam em risco. Tudo isso compõe um cenário de forte degradação ambiental. Estudiosos apontam para amplas faixas de erosão, dificuldando a regeneração da vegetação, e ilhas de calor que configuram um processo de desertificação no sentido ecológico. O Verdejar tem amenizado esse cenário com suas iniciativas, sobretudo de reflorestamento.

8 comentários sobre “Agroecologia urbana no Rio de Janeiro”

  1. Para a deficiência de ferro provocada pelas variações climáticas, espetar pregos, que enferrujam , nos troncos, ou na terra, caso as mudas estejam muito fininhas.
    Frutíferas híbridas, como as utilizadas para plantação em vasos também dão mais certo.
    Acerola, bastante rústica, amoreiras, ficus enorme (uma variedade que dá os figuinhos do campo).

  2. eu moro no loteamento da castrol, e sempre que possivel passeio pela serra, tenho um pé de acerola em um vaso que está morrendo, o que posso fazer para salva-lo?

  3. Pingback: :: Fazendo Media: a média que a mídia faz :: » Verdejar é despejada do Parque da Serra da Misericórdia pela Light

  4. Pingback: Sede da Verdejar é demolida sem aviso | Canal Ibase

  5. P f,desejo fazer uma horta urbana na comunidade onde moro.não sei como começar.Disponho de uma pequena área,mais ou menos 10mt x10mts.e muita vontade…obgado!

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