Abrir as portas da esperança

Abrir as portas ao projeto divino

Neste 1º Domingo do Advento começamos o novo ano litúrgico. A partir de agora, nos domingos comuns deste novo ano, leremos sempre o evangelho de Marcos. Neste domingo, o texto escolhido é um pequeno trecho do último discurso de Jesus aos discípulos: Marcos 13, 33- 37. Comumente, chama-se este texto do evangelho: a parábola do porteiro.

Nas primeiras comunidades cristãs, uma das funções de coordenação era a dos epíscopos – termo grego que significa: vigilantes, guardiães da casa. É o termo que hoje designa os nossos bispos. Naquele momento da vida da Igreja, como acontece agora em tempos de pandemia, o porteiro ou vigilante era uma função de proteger a casa. O termo casa designa sempre a Igreja, já separada do templo e distinta mesmo da  sinagoga.

No evangelho que lemos hoje, Jesus nos diz que todos/as nós devemos ser como porteiros/as e guardiães da casa, das nossas comunidades que a pandemia obrigou a retomar o projeto de Igrejas domésticas, da nossa casa comum, a terra e da casa que é a cidade e o país para o qual hoje elegeremos no segundo turno vários prefeitos e prefeitas de nossas cidades maiores.

À comunidade representada pela casa e especialmente ao porteiro ou à porteira da casa, Jesus dá duas recomendações importantes:  Ficar acordado/a e vigiar.  São suas últimas palavras a todos/as os/ discípulos/as, antes de irem para a última ceia e depois para o jardim de Getsêmani onde se preparará na oração para enfrentar os sofrimentos da tortura e da paixão. Em Getsêmani , ele disse essas duas coisas aos discípulos de sua predileção: Pedro, Tiago e João. Vigiai e orai. E os evangelhos contam que enquanto Jesus fazia uma oração de vigília durante a noite, os três discípulos mais íntimos que ele tinha levado consigo tinham adormecido, porque, diz Lucas, os seus olhos estavam pesados de sono.

No Budismo, Buda significa justamente a pessoa que se mantém desperta. Geralmente se traduz por iluminado/a, mas é no sentido de despertado/a. No Hinduísmo, os Yoguis são pessoas que pela meditação conseguem se manter sempre despertos, mesmo se em estado de quietude, de repouso físico e meditação. No entanto, como se estivessem sempre atentos e acordados.

Não sei se há alguma coisa a ver com isso, mas quando eu era jovem, me lembro bem de acompanhar Dom Helder Camara para alguns encontros e pastorais. Eu percebia que como ele dormia muito pouco à noite (entre dez ou onze da noite às três da madrugada), muitas vezes, durante os encontros, ele cochilava. A cabeça cedia e todos podiam ver que ele estava de olhos fechados e dormindo. De repente, a discussão parava em um momento no qual alguém dizia: Seria bom saber o que Dom Helder pensa sobre isso. Naquele exato instante, ele abria os olhos e falava. E pelo que dizia, todos nós percebíamos que ele tinha ouvido tudo o que tinha sido dito.

Para o mundo da Bíblia, profetas eram considerados sentinelas na noite (Ez 3, 16) que noite e dia tomam conta das muralhas da cidade, tanto para avisar da chegada do inimigo, como para também manter o Senhor acordado e lhe recordar as suas misericórdias (Is 62, 6- 7).  Paulo dizia na leitura do advento: é hora de despertar do sono, porque, agora, a nossa salvação está mais próxima de nós do que quando abraçamos a fé (Rm 13, 11).

O evangelho diz que o porteiro não sabe a que horas virá o Senhor, se na primeira parte da noite ou na segunda vigília ou de madrugada. É uma alusão às etapas ou horas da paixão de Jesus, isso é, a ceia e a oração no horto (primeira vigília da noite), interrogatórios e tortura (segunda vigília da noite), condenação à morte e cruz depois que o galo cantou (terceira vigília). Assim também, nas noites de nossa vida, o Senhor pode chegar no momento da ceia, no momento de nossa agonia, ou em momentos de noite mais escura ainda (perseguição e martírio). É preciso estar sempre alerta e com forte capacidade crítica para discernir os sinais dos tempos.

No tempo da comunidade de Marcos, com a guerra de Roma contra os judeus, o mundo já tinha se transformado em um grande Getsêmani e a palavra de Jesus pede aos discípulos e discípulas exercer forte capacidade crítica em relação ao que está acontecendo, senso de extrema vigilância e cuidado.

Hoje, novamente o mundo parece um grande Getsêmani de angústia e dor para tanta gente. Na noite da agonia de Jesus, conforme os evangelhos, os discípulos mostraram-se distantes e desinteressados do que estava acontecendo. Ficaram distantes porque nunca tinham compreendido que o projeto de Jesus e a causa do reino de Deus tinha de ser realizado no serviço humilde e não na cruz. Para eles, o reino era um projeto de poder. Mesmo depois da ressurreição, mesmo depois de terem recebido o Espírito Santo, eles se organizaram em termos de ministérios de poder, o que Jesus tinha dito explicitamente para não fazer e o evangelho de Marcos é muito crítico em relação a isso. Será que hoje, na nossa Igreja, os atuais porteiros (ministros) não continuam tão por fora do projeto de Jesus, quanto o evangelho de Marcos diz que os primeiros discípulos estavam? E nós mesmos, e eu que estou lhes escrevendo isso? Até que ponto assumimos o projeto de Deus do modo como Jesus o viveu e o propõe?

Hoje, em muitas cidades do Brasil, teremos o segundo turno das eleições municipais nas quais serão escolhidos os candidatos ou candidatas para as prefeituras. Como seria se todos os cristãos e cristãs votassem de acordo com este critério de Jesus do estar desperto e ser vigilante. Como seria bom que, como discípulos e discípulas de Jesus, pudéssemos ajudar o mundo a viver um Advento – tempo novo de expectativa do projeto divino – como tempo de nova organização da aliança da humanidade pela paz e pela justiça eco-social.

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