“A voz do morro Santa Marta não deve ser calada”

Rapper Fiell, da Rádio Santa Marta, falando à comunidade no meio da rua. Foto: Dorlene Meireles/Grupo ECO.

Na primeira comunidade do Rio de Janeiro a ser atendida pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o morro Santa Marta, na zona sul carioca, uma rádio comunitária teve seu transmissor apreendido na tarde de ontem (03) pela Polícia Federal, sob o comando da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Leia mais sobre assunto no aqui.
Impedida de transmitir sua programação na 103.3 FM, a Rádio Santa Marta instalou na manhã desta quarta-feira seu equipamento na entrada da comunidade e realizou sua programação na rua como ato de repúdio à ação que sofreu. Em entrevista ao Fazendo Media, Emerson Claudio Nascimento, mais conhecido como Rapper Fiell, locutor da rádio, diz que o projeto está incomodando ao organizar e passar informações ao povo. Segundo ele, houve uma censura por questões políticas e não técnicas.
De onde surgiu a necessidade da rádio comunitária?
A necessidade é óbvia né: o povo precisa da sua voz, precisa discutir os seus assuntos. E só uma rádio comunitária feita pela população local que vai possibilitar a esses debates e assuntos serem publicizados e discutidos. Em uma rádio comercial, infelizmente, os assuntos da favela não são discutidos. Quando são, é de forma vertical.
Como é a programação da Rádio Santa Marta?
É uma programação eclética, com mais de 20 programas aonde toda a diversidade cultural e política do morro está. É uma rádio comunitária plural, na qual o morador tem voz. A nossa ética da rádio sempre foi essa: de dentro para fora. Então montamos a grade e hoje a rádio é referência para o Brasil em termos de rádio comunitária.
E como é o tratamento em termos de serviços e informes?
Temos os programas específicos, como o matutino “Fala Zé”, que é o informativo da Associação de Moradores, e no final de semana tem o programa “Olhares do Mundo”, apresentado por mim e que discute vários assuntos do Santa Marta, do Rio, do Brasil e do mundo. Durante a programação os informes vão chegando e todos os programas vão publicizando, então a parte jornalística da rádio vai sendo alimentada conforme vai chegando no nosso e-mail.
Como você vê essa ação de ontem? É uma questão mais técnica ou política?
É política, a censura é moldar a voz do povo. Imagina o povo com voz. Hoje o Santa Marta há 8 meses fala dos seus problemas locais, do seu povo, divulga a música do artista local, e nesse tempo conseguimos unir toda uma diversidade de gerações. Hoje a população liga para a rádio, participa, fala do seu aniversário, da sua festa, enfim. Isso incomoda a imprensa hegemônica, que realmente não gosta quando o povo se organiza e tenta também ter direito à comunicação.
Fiell tocando o programa Conexão Periferia, da Rádio Santa Marta, com o melhor do rap nacional. Foto: Dorlene Meireles/Grupo ECO.

Você pode fazer um relato do que aconteceu ontem? Qual foi o argumento apresentado?
Não teve argumento, o argumento era vir para fechar a rádio comunitária. Não teve mandato, nenhum documento formal com o nosso endereço, então foi irregular a ação. Só que a Anatel vem junto da Polícia Federal, então imagina qualquer morador de favela se for falar o contrário da polícia: vai ser autuado como desacato à autoridade.
Infelizmente prenderam o nosso transmissor, e me levaram junto com o outro locutor. O transmissor custa perto de R$ 6mil, só que o nosso foi doado, teve a participação do Marcelo Yuka e da ONG Promundo. A rádio vive de solidariedade, para quitar os débitos fazemos festas e contamos com a ajuda do povo. Não só dos moradores, mas de qualquer outro morador da cidade que tem solidariedade a esse projeto. Todos os locutores também contribuem com o que podem, então a rádio sobrevive dos amigos da rádio e da população do Santa Marta.
Depois do ocorrido, o que ficou determinado a partir de hoje?
A gente tem que ter uma outorga. Eles falaram que temos que correr atrás de uma liminar para poder botar a rádio no ar de novo na 103.3 FM. Desde ontem o povo já sentiu a falta, procurou a sintonia e encontrou um vazio. Hoje estamos aqui na primeira estação do bondinho (plano inclinado no Santa Marta), e a rádio está ao vivo na rua em repúdio a essa ação da Anatel junto com a Polícia Federal, que foi ilegal. Infelizmente a gente fica triste, numa favela que está com a UPP e poderia dar realmente voz aos moradores você se depara com essa ação.
Como está a formalização da rádio, vocês têm caminhado nesse sentido?
A burocracia para a rádio comunitária é vasta, então é preciso uma diretoria, uma fundação de uma associação de radiodifusão, cinco entidades dentro da favela para poder montar o conselho fiscal, então tudo isso é para você não ter uma rádio. Já conseguimos tudo isso, agora a gente está encaminhando a documentação para Brasília, mas ainda não deu tempo. O processo é lento, e precisa de muita coisa para um rádio comunitária que não tem fins lucrativos. Nenhum pastor é dono da rádio Santa Marta, não tem ninguém partidário, enfim, a rádio é do povo e pelo povo.
Como foi a conversa ontem?
Só prenderam o transmissor na Polícia Federal e a gente foi prestar depoimento do que estamos fazendo na rádio, quem somos nós, e etc. Só quem se prejudica foi a população do Santa Marta, porque não vai ficar sabendo dos seus assuntos que estão acontecendo agora como a falta de água e o esgoto a céu aberto jorrando com um fedor danado. Enfim, só a rádio pode falar isso de forma que atinja todo mundo nas suas casas.
O transmissor só vai sair de lá com uma liminar. Estamos juntos com uns advogados e os movimentos sociais para entendermos como funciona isso e buscarmos uma solução. Não vamos parar, estamos fazendo a rádio na rua e vamos rodar o morro inteiro em forma de protesto contra a Anatel. Faremos toda a semana, vai ser direto. A rádio funciona normalmente na internet, está sendo transmitido agora no www.radiosantamarta.com.br . A galera pode mandar alguma vinheta para a gente se solidarizando, no e-mail radiosmarta@gmail.com , que a gente vai tocar. E agradecemos todo o apoio da mídia alternativa, dos movimentos sociais e do povo do Santa Marta, que está assinando um abaixo assinado, e de todos os colaboradores.

8 comentários sobre ““A voz do morro Santa Marta não deve ser calada””

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  2. Esta é a liberdade de imprensa, liberdade de expressão, existente no Brasil, cuja marca mais cabal é a perseguição às rádios comunitárias, as realmente comunitárias. Liberdade só para os grandes grupos dos meios privados de comunicação.
    Recentemente, Hugo Chávez, presidente da Venezuela, esteve aqui na Argentina e recebeu um prêmio dado por uma faculdade de Comunicação, por seu trabalho em favor da “comunicação popular”. Foi um escândalo para a chamada grande imprensa, a velha mídia, o pessoal da SIP patronal, direitista, capatazes do império dos Estados Unidos.
    Será por que o prêmio?
    Simplesmente porque o governo de Chávez não persegue as rádios e TVs comunitárias. Muito ao contrário, seu governo tem um amplo programa de ajuda, de incentivo ao direito do povo possuir e dirigir seus próprios órgãos de comunicação. Isso é uma das facetas da democracia participativa.
    Quando estive em Caracas (março a maio/2008), falei muito sobre este assunto no meu blog Evidentemente.

  3. Mas a rádio estava de acordo com a lei? Há leis que regulamentam o funcionamento das rádios comunitárias para quem nao sabe… tem potência máxima de transmissor, nao pode haver publicidade, etc. Mas se tava de acordo com a lei, tem que brigar pra ter a rádio de volta!

  4. Emerson, o Projeto Nova Coletânea se solidariza com o movimento da Rádio Santa Marta que é protagonista da conscientização e da forma mais eficaz da democracia. O nosso voto é de que as autoridades reconheçam sua contribuição social, além da inclusão de novos nomes nas artes( musicais), bem como na cidadania pelo reconhecimento de direitos e espaços mediadores

  5. Quero fala pra minha comunidade do Santa Marta.
    Quero informar dos cursos que estão sendo oferecidos.
    Quero falar das oportunidades de empregos.
    Quero esclarecer sobre a DENGUE.
    Quero avisar que vai faltar agua no morro.
    Quero falar das lâmpadas queimadas que a Light não troca. (iluminação pública).
    Quero parabenizar os aniversariantes do dia.
    Quero desejar um bom dia para a comunidade.
    Quero agradecer a Deus por nossa comunidade.
    Quero igualdade e liberdade.
    Mas querem tirar isso de nós.
    Querem tirar o que temos direito.
    Querem que continuemos com os olhos vendados.
    Querem que continuemos com os ouvidos tapados.
    Querem que fiquemos sem nos movimentar.
    Será que não somos iguais?
    Acaso somos de outro Planeta?
    Por que essa desigualdade?
    Por que tanta covardia?
    Mesmo assim, não vão nos calar!
    Por que nós somos valentes, somos guerreiros, corajosos, estamos querendo apenas ter, VOOOOOOOOOOOOOZ!!! E isso não é crime!!!

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