“A utopia mais importante da época atual é o neoliberalismo”

David Rieff (Foto: Bernardino Ávila/Página/12)
David Rieff (Foto: Bernardino Ávila/Página/12)

Entrevista com David Rieff, autor de ‘El opróbio del hambre’ (O opróbrio da fome): o analista político e jornalista questiona a filantropia capitalista – a “anti-política tecnocrática” – e reprova o otimismo de artistas como Bono e economistas como Jeffrey Sachs na luta contra a fome. E diz: “Temos que acabar o domínio das multinacionais sobre os Estados”. Ele defende o programa Fome Zero de Lula: “A resposta é o fortalecimento do Estado”.
Por Silvina Friera, no jornal argentino Página/12, edição de 21/08/2016 – Tradução: Jadson Oliveira
A elegância do provocador de chapéu preto – estrangeiro fascinado pela cultura argentina, ainda que rechace a obsessão pela psicanálise dos portenhos – reside no prazer de questionar a filantropia capitalista das grandes empresas multinacionais, a “anti-política tecnocrática” que marca os programas de ajuda ao desenvolvimento dos organismos internacionais e fundações, esta espécie de nova religião que proclama que a inovação do setor privado pode acabar com a desnutrição. O porrete do feroz pessimismo de David Rieff em ‘El oprobio del hambre’ (tradução literal: O opróbrio da fome – editora Taurus) desmascara a trama das “boas intenções”, como ocorre no conto de Antón Chéjov, citado num dos títulos: “É necessário que na porta de cada homem satisfeito, feliz, esteja parado alguém com um porrete, e o lembre constantemente com uma porretada, que existem homens infelizes, que, por mais feliz que ele seja, a vida cedo ou tarde lhe mostrará suas garras, chegará a desgraça, a doença, a pobreza, a perda, e ninguém o verá nem o ouvirá, como ele não vê nem ouve agora os outros”. No livro, um excepcional trabalho de investigação e texto de grande vigor, reprova o otimismo dum conjunto de personalidades públicas influentes, de estrelas populares como Bob Geldof e Bono, a economistas como Jeffrey Sachs, que estão convencidas de que a pobreza extrema e a fome serão erradicadas na primeira metade do século 21. “Seis séculos antes do começo da era cristã, o profeta Ezequiel declarou que a fome era o opróbrio das nações. O que sobretudo queria dizer com fome era miséria generalizada (hambruna), a fome que mata. E durante boa parte dos dois mil e seiscentos anos transcorridos desde os tempos de Ezequiel, em quase todas as partes do mundo suas palavras continuaram sendo tão convincentes como quando as escreveu”, argumenta Rieff, analista político, jornalista e crítico cultural, filho da escritora Susan Sontag (1933-2004).
Nada mais distante do empírico do que o anseio de estar no backstage do fim da pobreza. “A dura realidade é que para evitar a miséria recorrente em todo o mundo, que agora conta com sete bilhões de habitantes, aos quais se somarão quase sem dúvida outros dois bilhões em 2050 e talvez um ou dois bilhões mais nas duas décadas seguintes, a produção agrícola terá que ser incrementada sem cessar”, argumenta Rieff a partir duma espécie de resgate neomalthusiano. “As origens de ‘El oprobio del hambre’ me levam a recordar que estive 20 anos trabalhando em assuntos humanitários, especialmente com Médicos sem Fronteiras. Não fui exatamente correspondente de guerra, mas uma pessoa que escrevia sobre os aspectos humanitários em zonas de guerra. Estive na Bósnia, Congo, Ruanda, Sudão, Kosovo e Iraque… Eu queria escrever sobre o desenvolvimento e quando veio a crise econômica e alimentar de 2007 me dei conta de que havia mudado muito minhas opiniões. A crise de 2007 é parte duma história muito mais longa. Estive dois anos pensando que ia escrever um livro de reportagem, e finalmente escrevi um livro bastante curioso porque tem um aspecto polêmico”, adverte Rieff na entrevista ao Página/12.
– Quando começou a escrever sobre a fome, tinha uma visão mais “ingênua”? Estava mais perto dos utópicos?
– Não, nunca estive ao lado dos utópicos, mas seguramente tinha uma visão mais ingênua. Se tenho uma política, uma perspectiva moral, é o anti-utopismo tanto contra a direita como contra a esquerda. A utopia mais importante da nossa época é o neoliberalismo. Alguém poderá me dizer que está (Nicolás) Maduro na Venezuela e (Evo) Morales na Bolívia, mas creio que estamos num momento terminal da utopia socialista nesses países. Por desgraça, a utopia neoliberal está mais forte do que nunca. Comecei a escrever quando tinha 30 anos, agora tenho 63, e se há um vínculo entre meus livros é o anti-utopismo. Há estruturas, civilizações, sociedades, ambientes políticos mais ou menos horríveis e sei que há coisas por fazer. Minha conclusão é que temos que acabar com o domínio das multinacionais sobre os Estados. Esta foi a vitória duma certa linha política, a de (Margaret) Thatcher e (Ronald) Reagan, mas tenho certeza de que é possível acabar com isso. Não me refiro à queda do capitalismo, que é outra coisa. Não creio que neste momento possamos acabar com o capitalismo. Talvez sim dentro de 100 anos. Os movimentos anti-globalização dizem que outro mundo é possível, mas eu digo que não é muito provável. Suponhamos que estou equivocado e que vai vir a revolução entre aspas. Porém não será amanhã e enquanto isso, o que fazemos com a miséria, que eu creio que vai voltar? O que fazemos com a desnutrição, que é terrível em muitas partes do mundo, sobretudo na Índia?
– No primeiro capítulo do livro, intitulado com uma interrogação, “Por fim um mundo melhor a nosso alcance?”, formula várias perguntas, entre outras, se é o capitalismo a resposta ou a raiz do problema, e se é possível uma transformação nutricional sem uma transformação política. Que respostas pode dar hoje?
– Neste momento, o capitalismo ganhou. Não digo que o capitalismo de 2030 será o mesmo. Não digo que os Estados Unidos vão impor a atual versão norte-americana do capitalismo; é muito possível que o capitalismo dentro de 30 anos seja à maneira da China ou do Vietnã. Não sei se será pior ou melhor, este é um assunto para se falar em outra conversa. Mas não vejo que haja uma verdadeira alternativa ao capitalismo neste momento, sobretudo devido à vitória do capitalismo na Ásia e na Índia. Se falo da China, Índia e Vietnã, me refiro a mais ou menos 40% do mundo. Se incluo o Brasil, Argentina, Chile, México e os Estados Unidos, seria 30% mais. Pode haver versões mais simpáticas e mais cruéis do capitalismo. Eu preferiria uma versão menos cruel. Mas o capitalismo é nosso futuro. A questão é como fazer para que esse capitalismo, que para meu gosto é demasiadamente cruel, tenha uma face mais humana. É isto que trato de pensar no livro, a partir duma ótica muito pessimista. Gostaria que Noami Klein tivesse razão, porém não vejo como. Há uma diferença entre o otimismo e a esperança. Terry Eagleton acaba de publicar um livro muito interessante, intitulado Esperanza sin optimismo (Esperança sem otimismo – Hope without Optimism).
– Qual é a diferença entre esperança e otimismo?
Foto: Save the Children/reproduzida do site El Cultural
Foto: Save the Children/reproduzida do site El Cultural

– A esperança é uma categoria moral, é o argumento de Eagleton, e estou totalmente de acordo. O otimismo é uma constatação empírica: há ou não há razões para o otimismo. Para mim, escritores como Noami Klein confundem esperança e otimismo. Eu acredito que não se pode questionar alguém porque tenha esperança. Ao contrário, penso que é absolutamente legítimo. Li atentamente os livros de Klein, conheço muitas pessoas no Right to Food (Direito à Alimentação) em Deli e Bombaim, tenho passado muito tempo de minha vida na Índia, mas não vejo a justificativa empírica para um otimismo sobre o desenvolvimento ou sobre uma mudança de sistema.
– Por que em ‘El oprobio del hambre’ questiona a fundação Bill Gates?
– O déficit democrático é o fantasma no banquete do filantrocapitalismo. Não tenho nenhuma dúvida de que a fundação Gates faz muitas coisas boas, não quero por em questão as intenções de Bill Gates nem da fundação enquanto instituição. Porém eles têm uma confiança absolutamente equivocada no papel central dos descobrimentos científicos e das tecnologias. As proposições de Gates em torno da tecnologia são corretas, mas não se pode resolver a crise da alimentação com soluções tecnológicas porque se trata duma crise de injustiça e desigualdade. Gates não quer pensar nestes termos e é por isso que creio que seu projeto não pode ter o êxito que ele acredita que terá em alguns anos. Não tenho nada contra Gates, ainda que reconheça que me dá certo prazer criticar os grandes (risos).
– Num dos capítulos do livro, “Promessas aos pobres”, questiona o consenso imperante nos anos 1980 e 1990 sobre a adoção de políticas de livre comércio de amplo alcance que podiam levar ao desastre. E cita o geocientista Laurence Becker porque diz que “não existe no mundo um mercado verdadeiramente livre”. Este é um dos grandes debates do presente: se temos que proteger os mercados internos, para que possam se desenvolver e crescer, como fizeram a maioria dos países, ou liberar os mercados. Qual sua opinião sobre isso?
– Não acredito em nenhum absolutismo. O neoliberalismo é um absolutismo; o marxismo, também. Cada país bem sucedido insistiu no início de seu desenvolvimento em proteger várias indústrias, os bancos ou os agricultores. Não faço parte da religião do neoliberalismo nem do marxismo: as duas são versões de fé. Como não acredito em revoluções nem de esquerda nem de direita, busco uma síntese. O que fez (Luiz Inácio) Lula (da Silva) no Brasil com o programa “Fome Zero” me pareceu uma solução interessante e bem sucedida porque a única resposta possível é o fortalecimento do Estado e a responsabilidade da política democrática. Falar dum mercado completamente livre é uma besteira.
– O que acha interessante no Fome Zero?
– Para começar havia um consenso e Lula tinha confiança no Estado, mas também sabia que não podia governar sem acordo com os capitalistas de São Paulo. Lula conseguiu um compromisso histórico e para mim é a única resposta realista em nossa época. O programa Fome Zero reduziu drasticamente a malnutrição e a desnutrição. Tenho um enorme respeito e aprendi muito com Amartya Sen, mas creio que desgraçadamente se equivocou quando propunha que unicamente as sociedades democráticas poderiam resolver as misérias. É uma ilusão muito sentimental, para responder honestamente… Muitas ditaduras conseguiram reduzir a pobreza, melhorar a saúde pública e tornar mais eficiente o funcionamento de suas sociedades.
– Um dos temas que trabalha no livro é a desigualdade como uma condição do sistema capitalista mundial. Por que cresce a desigualdade?
– O que vemos é que cresce a desigualdade mais nos próprios países do que entre os países. Existe uma versão do capitalismo que favorece, como diz Thomas Piketty, o aspecto financeiro e não o aspecto produtivo. O capitalismo é uma fábrica de desigualdades.
Como mudar isso? É muito difícil… Os perdedores da globalização na Grã Bretanha votaram em favor do Brexit.
– Por que toda a direita do mundo, de Marine Le Pen na França a Donald Trump nos Estados Unidos, comemorou a saída da Grã Bretanha da União Europeia?
– O neoliberalismo está em guerra contra o populismo de direita porque o capitalismo não quer que Trump ganhe. 99% do capitalismo quer que ganhe Hillary Clinton. Há 30 anos atrás era possível falar da direita global como uma unidade. Agora há verdadeiramente uma ruptura quase completa entre o populismo de direita – para não dizer fascismo – e o neoliberalismo globalizador. Trump e Le Pen seguiram a linha do Brexit, mas o capitalismo não. Nem Trump nem Le Pen poderiam ganhar as eleições porque, como pode a direita ganhar quando o capitalismo se opõe?
– É possível que Trump ganhe as eleições nos Estados Unidos?
– Não, é impossível. Não se pode falar duma vitória de Trump quando o capitalismo e os jovens negros se opõem a ele. Do ponto de vista matemático não vejo possibilidades. O fascismo histórico tinha uma versão anti-capitalista como na Itália e na Alemanha nazista; mas quando tomavam o poder, o faziam em acordo com a classe capitalista. Trump não tem este acordo… Porém se Trump ganhar, vou viver em Toronto (risos).
– Seria bastante curioso, adjetivo por certo benévolo, um mundo com Trump como presidente dos Estados Unidos e Le Pen como presidenta da França, não?
– É mais possível Le Pen na França, ainda que não creio que vá ganhar porque a Frente Nacional não é um verdadeiro partido, e sim um negócio de família. Para mim é mais provável que ganhe (Nicolas) Sarkozy ou (Alain) Juppé, a direita clássica. E vão adotar algumas propostas da Frente Nacional para atrair mais eleitores. Pelo menos Le Pen não é louca e é uma pessoa ideologicamente sincera. Trump não tem nenhum princípio; é um cínico.
Observação do tradutor: David Rieff, 64 anos, é escritor e analista político nascido em Boston, Estados Unidos. Segundo pesquisa na Internet, os temas predominantes em seus livros e artigos são imigração, conflitos internacionais e humanitarismo. Sua mãe, Susan Sontag, estadunidense, morreu aos 71 anos. Foi escritora, crítica de arte e ativista dos direitos humanos.

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