A traição do Ocidente: 87 anos do Acordo de Munique

Neville Chamberlain, Édouard Daladier, Adolf Hitler e Benito Mussolini reunidos durante a Conferência de Munique – Wikimedia Commons

Evitando confrontar Adolf Hitler, governos britânico e francês adotaram política de apaziguamento que incentivou ditador nazista em seus planos expansionistas.

São Paulo,

Há 87 anos, em 29 de setembro de 1938, os governos do Reino Unido, França, Itália fascista e Alemanha nazista firmavam o Acordo de Munique. A conferência foi convocada para discutir a Crise dos Sudetos, uma região da Tchecoslováquia rica em recursos energéticos e minerais, que havia se tornado alvo da cobiça de Adolf Hitler.

O Acordo de Munique é o símbolo maior do fracasso da política de apaziguamento adotada pelo Reino Unido e pela França em relação ao Terceiro Reich. Evitando ao máximo confrontar o ditador alemão, os premiês Neville Chamberlain e Édouard Daladier aceitaram todas as demandas de Hitler, entregando o controle dos Sudetos aos nazistas.

Embora sua soberania e integridade territorial fossem os temas centrais da conferência, a Tchecoslováquia não foi sequer convidada para a reunião. O acordo foi celebrado como um triunfo da paz, mas a ilusão durou pouco tempo. Hitler logo violaria o tratado, invadindo os territórios restantes da Tchecoslováquia e depois investindo contra a Polônia.

Ao invés de garantir a paz, a política de apaziguamento incentivou Hitler a dobrar a aposta em seus planos expansionistas, servindo como um catalisador para o início da Segunda Guerra Mundial.

Rasgando o Tratado de Versalhes

Derrotada na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha foi forçada a se submeter às duras condições impostas pelo Tratado de Versalhes. Além de reconhecer o país como o único culpado pelo conflito, o acordo criou severas restrições militares, ordenou o pagamento de pesadas indenizações e determinou a concessão de amplos territórios, incluindo a Alsácia-Lorena e partes da Prússia.

Os termos draconianos do tratado aprofundaram ainda mais a crise econômica em que a Alemanha mergulhou no pós-guerra, com o aumento exponencial da inflação, do desemprego e da miséria. O Tratado de Versalhes seria encarado como uma humilhação pelos alemães, alimentando o ressentimento nacional e o impulso revanchista — sentimentos que seriam habilmente explorados por Adolf Hitler para fermentar a expansão do ideário nazista.

A frustração com Versalhes se tornou um dos temas centrais dos discursos de Hitler, que prometia “rasgar o tratado” e reconquistar a grandeza alemã. Após a ascensão dos nazistas ao governo em 1933, Hitler passou a desrespeitar todas as cláusulas do acordo de paz, expandindo as forças armadas, retomando sua indústria bélica e adotando uma política externa cada vez mais agressiva.

Em 1935, Hitler reintroduziu o serviço militar obrigatório, anunciou a expansão do exército para 550 mil homens e criou a Luftwaffe, a Força Aérea alemã, ignorando as restrições militares. No ano seguinte, ele ordenou a remilitarização da Renânia — uma área que, de acordo com Versalhes, deveria permanecer como uma “zona tampão, a fim de proteger as nações vizinhas de eventuais agressões.

Apesar do desrespeito sistemático ao Tratado de Versalhes, França e Reino Unido não contestaram as ações alemãs. A omissão encorajou Hitler a avançar para a fase bélica, dando início às ações militares e aos projetos expansionistas do Terceiro Reich.

Em fevereiro de 1938, Hitler enviou um ultimato ao chanceler austríaco Kurt Schuschnigg, ameaçando uma invasão militar caso ele não entregasse o poder ao Partido Nazista local. Schuschnigg cedeu e, no mês seguinte, a Alemanha anexou a Áustria no evento conhecido como “Anschluss”.

Mais uma vez, as potências europeias, hesitantes com a possibilidade de um novo conflito militar, relutaram em confrontar as ações nazistas, adotando uma política de apaziguamento e submissão às reivindicações alemãs.

A Crise dos Sudetos

O sucesso na anexação da Áustria e o silêncio do Ocidente encorajaram Hitler a prosseguir com o projeto expansionista, mirando, dessa vez, a Tchecoslováquia. Criado após a fragmentação do Império Austro-Húngaro, o país abrigava uma significativa minoria alemã na região dos Sudetos — cerca de 3 milhões de pessoas, ou 23% da população.

A cobiça de Hitler sobre os Sudetos tinha razões estratégicas. O território era extremamente rico em recursos minerais e energéticos e concentrava parte substancial das indústrias pesadas. O domínio sobre os Sudetos daria ao regime nazista o controle de 66% da produção de carvão, 70% da produção de ferro e aço e 70% da produção de energia elétrica da Tchecoslováquia.

Em abril de 1938, a Alemanha já havia elaborado o “Caso Verde” (“Fall Grün”), um plano secreto prevendo a invasão da Tchecoslováquia e a tomada dos Sudetos. Hitler, no entanto, considerava que lançar uma ação militar de forma abrupta, sem um pretexto razoável, poderia atrapalhar seu projeto. Assim, ele iniciou a ofensiva através de uma operação de desestabilização, incitando a agitação política interna e, ao mesmo, pressionando diplomaticamente o governo tchecoslovaco.

As ações disruptivas internas foram conduzidas pelo Partido Alemão dos Sudetos (SdP), uma agremiação filonazista liderada por Konrad Henlein, financiada diretamente por Berlim. O SdP havia ganhado muita força durante a Grande Depressão, galvanizando apoio dos alemães étnicos das regiões industriais, desproporcionalmente afetadas pela crise e pelo desemprego. Concentrando quase 90% dos votos dos habitantes de origem germânica, o SdP se tornou o segundo maior partido da Tchecoslováquia.

O SdP buscava estimular as tensões étnicas, conclamando a população germânica a se insurgir contra o governo de Edvard Benes, exigindo autonomia e a unificação com a Alemanha. Ao mesmo tempo, o regime de Hitler acusava o governo tchecoslovaco de discriminar e perseguir as minorias alemãs e exigia respeito à “autodeterminação do povo dos Sudetos”.

A campanha era apoiada pela difusão em larga escala de boatos e notícias falsas. A imprensa alemã acusava a Tchecoslováquia de massacrar a população germânica e de submeter mais de 600.000 alemães étnicos a deslocamentos forçados. Também ecoavam as afirmações de Hitler de que a Tchecoslováquia era um “Estado-fantoche” da França e que o país planejava abrigar uma ofensiva francesa contra o povo alemão.

A crise dos Sudetos se agravou em meados de 1938. Após a fabricação de uma série de incidentes, a Alemanha passou a ameaçar a Tchecoslováquia com uma invasão. Servindo como porta-voz de Hitler, Konrad Henlein apresentou ao governo tchecoslovaco o Programa de Karlsbad, onde exigia a concessão de autonomia plena para a região dos Sudetos.

No Reino Unido e na França, a omissão se converteria em condescendência explícita com o regime nazista. As duas nações seguiam apostando na política de conciliação com o Terceiro Reich, acreditando que concessões razoáveis poderiam satisfazer Hitler e preservar a paz no continente.

Neville Chamberlain, o primeiro-ministro britânico, pressionou o presidente tchecoslovaco Edvard Benes a requisitar um mediador e abrir negociações com Hitler. Na França, o recém-constituído gabinete de Édouard Daladier decidiu que o país não iria travar uma guerra apenas para defender a Tchecoslováquia — a despeito do fato das duas nações serem signatárias de um tratado de mútua defesa.

A União Soviética afirmou estar disposta a colaborar militarmente caso a França e o Reino Unido decidissem ajudar a Tchecoslováquia a lutar contra a Alemanha nazista, mas foi ignorada. O governo de Josef Stalin também pediu autorização para que o Exército Vermelho cruzasse a Polônia e a Romênia rumo ao território tchecoslovaco, mas ambos países recusaram.

A Conferência de Munique

Resistindo às pressões das potências europeias por um acordo prejudicial com a Alemanha, a Tchecoslováquia iniciou os preparativos para um conflito, mobilizando suas forças e acelerando a construção de fortificações nas fronteiras. Enquanto isso, França e Reino Unido seguiam tentando articular uma saída diplomática para a guerra iminente.

Em 15 de setembro de 1938, Chamberlain encontrou-se com Hitler em Berchtesgaden, a residência do líder nazista nos Alpes Bávaros. O chanceler alemão concordou em adiar os planos para uma invasão à Tchecoslováquia, ao passo que o premiê britânico se comprometeu a costurar um acordo para a convocação de um plebiscito nos Sudetos.

Em seguida, Chamberlain e Daladier se reuniram em Londres para elaborar uma proposta conjunta. O plano apresentado previa que a Tchecoslováquia cedesse à Alemanha todos os territórios onde a população germânica fosse superior a 50%. O governo tchecoslovaco rejeitou a proposta.

Chamberlain e Hitler voltaram a se encontrar em Bad Godesberg, em 22 de setembro de 1938. O premiê britânico foi surpreendido pela postura agressiva do líder nazista, que havia ampliado ainda mais suas exigências, demandando agora que as tropas tchecoslovacas evacuassem os Sudetos até 28 de setembro. O ultimato foi novamente recusado pelo gabinete de Edvard Benes em Praga.

Em um esforço derradeiro de conciliação, Chamberlain propôs a organização de um encontro internacional para tentar evitar o conflito. Assim, em 29 de setembro de 1938, teve início a Conferência de Munique. Além de Chamberlain e Hitler, participaram da reunião o premiê francês Édouard Daladier e o ditador italiano Benito Mussolini.

As discussões ocorreram no Führerbau de Munique. Uma proposta de acordo foi apresentada por Mussolini. O documento era, na prática, uma capitulação, englobando todas as demandas de Hitler. Os líderes europeus concordavam em ceder à Alemanha o território dos Sudetos e o controle efetivo do resto da Tchecoslováquia. Em troca, Hitler se comprometia a não fazer novas reivindicações territoriais na Europa.

O acordo previa a evacuação imediata das forças tchecoslovacas dos Sudetos e a transferência do território para a Alemanha até o dia 10 de outubro de 1938, com uma ocupação faseada em cinco zonas. Uma comissão internacional supervisionaria a transferência e realizaria plebiscitos em áreas disputadas — o que jamais ocorreu.

Os líderes da Tchecoslováquia não foram convidados ou sequer consultados sobre o teor do acordo firmado durante a conferência — mesmo que a soberania e a integridade do país fossem os temas da reunião. Após a assinatura do acordo, o presidente Edvard Benes foi informado de que teria que se submeter às decisões ou resistir sozinho contra a Alemanha nazista. Indignados, os tchecoslovacos apelidaram a conferência de “a traição de Munique”.

Consequências

Em paralelo ao acordo, Chamberlain e Hitler também firmaram uma declaração prometendo a realização de consultas futuras para resolver pacificamente as disputas entre os dois países. O primeiro-ministro britânico retornou a Londres aclamado como um herói e proferiu um discurso vangloriando-se de seu papel em garantir a “paz para o nosso tempo”.

A ilusão seria breve. Sem condições de resistir sozinha contra a Alemanha nazista, a Tchecoslováquia capitulou. Edvard Benes renunciou à presidência e o país logo foi fragmentado. O acordo desencadeou a cobiça dos regimes da Hungria e da Polônia, que também reivindicaram a posse de territórios tchecoslovacos.

Em março de 1939, meses após tomar os Sudetos, Hitler violou o Acordo de Munique, invadindo o resto do país, anexando a Boêmia e a Morávia como protetorados e instalando um Estado fantoche na Eslováquia. Seis meses depois, o líder nazista invadiria a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial.

A decisão de sacrificar a soberania de uma nação democrática e independente para apaziguar um ditador fanático provou ser um dos piores erros estratégicos da política externa do século 20. Ao invés de aplacar a sanha expansionista de Hitler, o Acordo de Munique incentivou o líder nazista a prosseguir com planos cada vez mais ambiciosos. A covardia e a condescendência das nações europeias abriu espaço para que a insânia nazista prosseguisse sem freios e tentativas de contenção, mergulhando o mundo na pior carnificina da história.

 

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