A resistência ao golpe militar de 1964 na Paraíba

Entrevista com João Fragoso, um dos remanescentes da resistência ao golpe militar de 1964.

–- Vamos começar pedindo para você contar um pouco de sua história.

JF – Nasci na pequena cidade de Teixeira, lá no alto da Serra da Borborema, nos anos de 1933. De família de agricultores extremamente pobre, vivíamos no limiar da miséria, pois meus pais não tinham terra e trabalhavam em um pequeno pedaço de chão de um parente.

O clima, em Teixeira, é semiárido, e acontecem, frequentemente, períodos de longa estiagem. Nessas ocasiões meu pai não conseguia sustento para a família e procurava trabalho em locais distantes de nossa casa. Em duas oportunidades meu pai trabalhou em minas: de xelita e de ouro.

Apesar da situação de penúria em que vivíamos, meu pai era um cidadão altivo e se destacou nas atividades sociais, políticas, econômicas, religiosas, desportivas e especialmente na educação, tanto que, após 55 anos da sua saída de sua terra natal, lá foi criada uma biblioteca com o seu nome. Minha mãe era exclusivamente de casa, pois éramos sete filhos e os maiores ajudavam ao meu pai no roçado, e ela ficava com as obrigações domésticas. Meu pai tinha uma preocupação muito grande com os mais pobres, e algumas vezes eu o vi levar uma de nossas únicas redes de dormir, ou o único pedaço de carne, para doar a pessoas que dormiam no chão e passavam fome.

Minha mãe acolhia de maneira especial os pobres, ou seja, os que pediam esmola. Ela convidava a entrar, ouvia-os, aliviava suas dores com alguma mezinha e na hora de nossa modesta refeição, todos nos sentávamos à mesma mesa.
Essa prática cristã aliada à religiosidade de meus pais teve uma forte influência em todos nós, de modo que, dos seis filhos homens, todos foram estudar no seminário, e desses, três chegaram ao sacerdócio, sendo dois religiosos e um padre, depois nomeado bispo – Dom Antônio Fragoso.

Após estudar um ano no seminário, terminei o então curso ginasial em Recife, onde passei minha adolescência, período em que não fui orientado para direcionar minha leitura, nem também para uma visão crítica da realidade. Mesmo assim, aos 16 anos participei de movimentos estudantis, em comícios e passeatas, os quais a polícia desmanchou com cassetetes. Cursando o colegial no Liceu Paraibano comandei uma das célebres greves daquela instituição de ensino. Porém havia nessas minhas atitudes um espírito de anarquista e também um desejo de heroísmo.

–- E quando essa sua visão mudou?

JF – Exatamente no Banco do Nordeste do Brasil, no qual eu ingressei em 1958. Aí eu encontrei um militante comunista (já falecido) – Antônio Aragão Filho – que, paradoxalmente, tinha uma visão cristã do mundo. Ele me dizia “Não espere que peçam alguma coisa a você, se antecipe e ofereça”. Ele deu direção a minhas leituras, falou-me da ”mais valia”, como forma de exploração, e da “luta de classes” como motor da história. Ele mostrou que meu comportamento de anarquista me desacreditava e eu perderia a confiabilidade. De extraordinária coragem, enfrentava grandes perigos. Foi preso, pelo menos, seis vezes. A partir daí comecei a fazer uma leitura crítica da realidade.

–- Houve alguma consequência dessa tomada de consciência?

JF – Na teoria e na prática. À medida que essa consciência crítica foi se consolidando eu entendi que somente a mobilização e articulação dos que eram explorados poderia levar a ações de mudança. Era vital que os explorados se conscientizassem de sua força, do seu poder.

–- Houve algum fato em que você pudesse comprovar essa mudança?

JF – Percebi que havia uma grande insatisfação dos colegas do Banco do Nordeste com os salários que ganhavam, pois o pessoal do Banco do Brasil, em cujo capital o Governo tinha a mesma participação, ganhava muito bem. Então começou o trabalho de articulação entre as agências, e eu me empenhei profundamente nessa coordenação, até que deflagramos a greve mais longa, até então, da categoria dos bancários no país. Os resultados concretos não foram bons, mas valeu a experiência de mobilização e organização.

–- E a partir daí?

JF – “As visões foram se clareando”. O fenômeno da luta de classes se delineava mais nítido na minha cabeça, e eu entendi que o problema da exploração não era somente dos servidores do Banco do Nordeste, mas de toda a Classe Trabalhadora, era uma prática sistêmica encravada no capitalismo. Ingressei no Sindicato dos Bancários e me articulei com as forças que lutavam por mudanças: Trabalhadores do campo, Trabalhadores Urbanos, Estudantes. Daí ingressei no Partido Comunista Brasileiro – PCB.

–- Como conseguia conciliar sua formação religiosa com a prática marxista?

JF – Eu não tinha convicções marxistas, antes eu pertencia à Ação Católica, tendo passando pela JOC – Juventude Operária Católica e Ação Católica Operária, porém eu não acreditava que esses movimentos fossem capazes de mobilizar a população para as mudanças que o país exigia. No meu entendimento somente o PCB, pela sua tradição e estrutura de organização tinha condições de, através da mobilização, suscitar uma consciência crítica na Classe Trabalhadora.

–- Como eram suas atividades no meio bancário?

JF – Eu era muito bem aceito, tinha grande liderança, e por isso fui eleito para a Direção daquele órgão de classe. Essa posição facilitou o meu entrosamento com outros sindicatos, camponeses, estudantes, agora com o apoio do PCB, que, ao contrário da Igreja, a que eu pertencia, acompanhava-me nas principais atividades. É claro que as elites dominantes não toleravam atividades políticas dos órgãos de classe, e particularmente quando se preparavam para desfechar o mais violento golpe na democracia, ocorrido no Brasil até hoje. Veio o Golpe Militar, veio a ditadura, veio a perseguição, vieram as torturas. Houve intervenção no Sindicato dos Bancários e toda a Direção foi destituída. Sem o mandato, os ex-dirigentes sindicais, tendo perdido as prerrogativas que a Constituição assegurava, como a estabilidade provisória e inamovibilidade, foram transferidos alguns e outros demitidos. Eu fui transferido, mas não aceitei e recorri à Justiça que me deu ganho de causa, mas o Banco do Nordeste decidiu por demitir-me.

–- Qual o objetivo do Regime de Exceção com essas transferências e atos de repressão aos bancários e aos sindicalistas “rebeldes”?

JF – Após esse recuo de tempo é mais fácil entendermos o que se passou. Havia uma ânsia por mudanças. Exigia-se entre outras, Reforma Agrária, Reforma Bancária, Reforma Universitária, chamadas Reformas de Base. Esse anseio por transformações tinha suas inspirações: na Revolução Cubana, que se encaminhava para o Regime Socialista nas “barbas” do poderoso e arrogante império americano; na experiência, até então exitosa, do Socialismo no Leste Europeu, sendo a União Soviética modelo e apelo para a Classe Trabalhadora de todo o mundo; na resistência do pequeno Vietnam do Norte aos EE.UU e seus aliados. Essas experiências eram um convite à organização das forças progressistas brasileiras. Nasceu o CGT – Comando Geral dos Trabalhadores – cuja finalidade era articular os trabalhadores de todas as categorias. Nasceram as Frentes Amplas, os partidos de esquerda cresceram e ficaram mais atuantes, os estudantes iniciaram a formação da Unidade Campo – Cidade. Essa mobilização, especialmente da Classe Trabalhadora, apavorou as elites que se uniram aos militares e desfecharam o golpe. Como muito bem diz o insuspeito livro “Brasil Nunca Mais”, o sentido do golpe civil-militar foi desmantelar a Classe Trabalhadora, daí umas das primeiras providências foi a intervenção nos Sindicatos e a demissão e remoção das lideranças. Sob este ponto de vista as forças armadas eram o braço armado do Sistema Econômico, e a elas cumpria a tarefa de garantir um regime em que os instrumentos de produção continuassem nas mãos de industriais e latifundiários, as relações de produção não fossem alteradas e o lucro não fosse atingido.

— Como você analisa a ditadura militar?

JF – A ditadura estabeleceu-se por 25 anos, com cerca de quinhentas pessoas torturadas e assassinadas, mais de 100.000 perseguidas com demissões, transferências, prisões causou um retrocesso no Brasil: na educação, na organização jurídica (eliminando a vitaliciedade dos ministros e juízes), foi instituída a delação. O instrumento formal que mais deu poder ao Estado foi o Ato Institucional nº 5, promulgado em 13/12/68. Então, como presidente do Sindicato dos Bancários, entendi que era necessário marcar posição contra essa arbitrariedade e publiquei no seu jornal um manifesto aos Bancários, tido pelas forças repressoras altamente perigoso e subversivo. Fui preso pela Polícia Federal, pela primeira vez, e destituído da Presidência do Sindicato. Numa segunda ocasião, houve um assalto à Cia de Cigarros Souza Cruz, e como alguns envolvidos eram meus amigos fui preso novamente, desta vez pela polícia civil, e quando o delegado me perguntou onde estava um dos procurados eu respondi categoricamente: “Não sei e se soubesse não dizia”. Fui preso numa terceira oportunidade, desta vez com meu pai e minha irmã, pela Polícia Federal, pois chegou ao conhecimento desta que eu estava sendo extorquido por membros daquela instituição. E estava.

-– Como você analisa o final do regime militar e a redemocratização do país?

JF – Eu continuo firmemente convicto de que a humanidade caminha (construindo) para o Reino de Deus, que outros podem chamar de “Terra Sem Males” ou “Socialismo” (Comunismo). Para alcançar essa Utopia, o homem sente forte apelo que vem do próprio Deus, e isso faz com que ele, o homem, enfrente e supere as dificuldades. Que aconteceu? O Povo Brasileiro se manifestou de forma corajosa nas ruas, no Campo, nos Sindicatos, nas Universidades, nas Guerrilhas, mesmo sendo vítima de arbitrariedades das forças golpistas. Derrotou a ditadura, escolheu, pelo voto, um Governo que representava as suas aspirações, e esta experiência, cada vez, mais conscientiza o povo sobre o seu destino inabalável – Um Mundo Melhor.

http://kairosnostambemsomosigreja.blogspot.com/2011/08/resistencia-ao-golpe-militar-de-1964-na.html

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