A realidade e a necessidade ridícula dos "DADOS" da e na audiência

A audiência no âmbito da comunicação é um parâmetro destinado a perceber quantas pessoas assistem àquele programa, canal, entre outros. No Brasil, através dos grão-senhores da mídia, foi substituído o termo audiência pela empresa IBOPE. A partir daí, fecundou-se o célebre pensamento: “Qual é o IBOPE da emissora X?” Ou seja, foi colocado no subconsciente coletivo que termo IBOPE é mais correto que audiência. Ademais, esse IBOPE é medido na grande São Paulo e em alguns casos no Rio de Janeiro. Como se no país só as duas cidades assistissem televisão.
No governo FHC (1994-2002), foi de conhecimento público que a Rede Globo detinha 90% de verbas publicitárias. Nos primeiros anos do governo Lula (2002-2006), essa verba caiu para 70%, o que ainda era alto. E na atualidade, a verba publicitária que o governo Lula (2006-2010) repassa à Rede Globo já chega aos 50%. A partir deste cenário, fica mais claro analisar a audiência e as tendências da grande mídia brasileira.
Para tornar ainda mais evidente o cenário, notem o seguinte: as grandes redes de televisão do país funcionam todas como irmãs de um mesmo pai, ou melhor, da ditadura militar. Afinal, as concessões fixaram-se após o golpe militar. Exceto a Rede Tupi e a Excelsior. A primeira fora destruída num incêndio de caráter discutível. E a segunda foi a única a se opor ao golpe militar, e assim teve sua concessão revogada em 1970. Logo, Globo, TVS (hoje SBT), Bandeirantes, Record, Manchete (hoje Redetv), TVE (hoje TV Brasil), Rede Cultura, compõe esta família. Entretanto, formam uma família sui generis. São aqueles casos de pais que gostam mais de um filho que de outro. Ou melhor, pais que protegem mais um filho, dão mais atenção e carinho para um, em detrimento dos outros.
Pois bem, o governo militar loteou a Globo com muitas verbas publicitárias, aliás, processo mantido fidedignamente até o meio do primeiro governo Lula. Era como se um pai tivesse sete filhos, e um fora escolhido somente para ser servido. Os outros cinco filhos (afinal a TV Brasil é do próprio governo) iriam trabalhar desde cedo, para lhe dar todo o provento. Os cinco filhos dividiriam um pão, enquanto o filho querido se esbaldaria com um banquete. E assim caminharam os “tempos de ouro” da televisão brasileira.
Durante décadas a Rede Globo reinou soberana. Ampliou suas frentes, distribuiu concessões de suas afiliadas a políticos, principalmente no norte e no nordeste do país, entre eles Collor e a Sarney. Seguiu sua “ladainha” pró-governo militar, para garantir sua sobrevida. Neste meio tempo, um de seus funcionários mais famosos, Silvio Santos, adquiriu a concessão da TVS e da Rede Record. Algo minimamente discutível. Era como se o Zico na década de 80 largasse o Flamengo e comprasse o América e o Bangu. Mas, Silvio fundou a TV Silvio Santos que hoje se chama SBT. E, ainda, a Globo assistiu passivamente o repasse de Silvio Santos da concessão da Rede Record para um iniciante neste meio, o bispo Edir Macedo. A Globo não imaginaria que a partir desta ação o seu calvário estaria traçado.
Ao final do governo militar e com as eleições diretas de 1989, a Globo apoiou claramente Collor. Só que após a posse do mesmo, já com um ano de governo, o então presidente cortou toda a verba publicitária da Globo e avisou que iria redividi-la. A Globo apoiou e participou ativamente do processo de impeachment de Collor. Não quero diminuir os movimentos que retiraram do poder central uma figura tão nociva, mas o apoio da Globo foi preponderante para os caras-pintadas. É bom lembrar que nesse meio tempo a Globo se envolveu em vários escândalos. Exemplos não faltam. O caso do proconsult, onde quis tirar a vitória do candidato a governador do Rio, Leonel Brizola, montando uma votação falsa. Não deu certo, o governador descobriu a armação. O escândalo do Papa Tudo, que gerou cerca de R$ 1 bi. A edição do debate Lula x Collor. Por fim, o canal a cabo, um sonho surreal em que o Brasil não embarcou e fez a Globo quebrar. A dívida anual da empresa gira em torno de R$ 3 bi.
Mas, no governo FHC as vultosas verbas federais mantiveram a poderosa de pé, mesmo com todas as dívidas. Durante o governo FHC, o reinado da Globo foi ainda mais vibrante. Não se tinha notícias de nenhum programa que pudesse ameaçar o seu primeiro lugar. Salvo uma situação ou outra, mas tudo muito controlado. Em 2000, Silvio colocou no ar um programa engavetado pela Rede Globo, nos moldes do Big Brother, surgiu a Casa dos Artistas. A audiência na final do programa fez o SBT chegar a quase 50 pontos na audiência. No mesmo horário a Globo exibia o Fantástico que nunca tinha perdido a liderança. Essa medida fez com que a Globo desencaixotasse o Big Brother e o colocasse no ar por nove edições. Ademais, no ar, a síndrome do filho minado. Se o irmão compra um carro novo, o irmão queridinho compra logo uma frota de carros importados.
Também nesse ano 2000, um canal resolveu se reinventar. Totalmente ligada a Igreja Universal, a Record decidiu sair dos templos e ir para briga por um canal de verdade. Deixou as bençãos do pastor um pouco de lado, e tomado pelo sentimento do protestantismo resolveu ser um canal de comunicação de verdade. Contratou novos profissionais, equipamentos, se modernizou. A Rede Record começava a se preparar pra uma longínqua e desgastante batalha.
Como não poderia deixar de ser, a Globo começou a dar seus pitacos no avanço do canal evangélico. Acostumada com a permissividade sombria da Bandeirantes, do SBT e da antiga Manchete, a Globo tentou “matar” a Record no seu próprio quintal. Começou a exibir reportagens de um pastor chutando uma santa, aliou o charlatanismo à imagem do proprietário da emissora até a sua prisão e prosseguiu sua ação em seus telejornais, minisséries, novelas e programas de humor, retratando todo o escárnio ao protestantismo, e por tabela, à Rede Record. Foi uma batalha sangrenta para por fim ao surgimento de qualquer canal que impusesse uma nova ordem ao cenário da grande mídia no país. Com o apoio dos fiéis, tidos pela Globo como ignorantes, a Record continuou o seu avanço e venceu a primeira batalha. Sendo assim, continuou o seu processo de modernização.
No início de 2005, quando o governo Lula reduziu a verba publicitária da Globo de 90 para 70%, uma coincidência política assolou o país, o escândalo do mensalão. Uma descoberta do Jornal Folha de São Paulo, revelou que o PT pagava propina a deputados. Era como se todos os petistas fossem santos e agora virassem diabos. Num partido de quase 1 milhão de filiados, ninguém seria corrupto. E se um fosse, todos seriam. A prática da generalização. Tal qual feita entre a Rede Record e a Igreja Universal. São mais de 10 mil pastores que compõe a religião no país, e se um erra, todos são da mesma estirpe. E por aí vai, policial é ladrão, quem mora em favela é marginal. Enfim, essa foi a tônica da emissora quando perdeu 20% do bolo que comia há décadas.
Não obstante, a emissora perseguiu seus adversários. Tentou brecar a ascensão protestante no país, o que despertou a renovação carismática da Igreja Católica. O padre Marcelo Rossi embalava canções em toda a programação da emissora, até mesmo em estádios de futebol. Mais uma vez, não deu certo, e a Record continuou seu crescimento. Com a reeleição de Lula, a contragosto da Globo, a Record sabia que as coisas continuariam mudando, afinal o processo de descentralização do poder da comunicação no país estava em voga.
No final do ano passado e no começo deste, a receita publicitária da Globo caiu mais 20% e chegou ao patamar dos 50%. Logo, mesmo com este cenário ainda totalmente desproporcional, a emissora desesperou-se. Em pouco tempo, surgiu a CPI da Petrobras, surgiu a interminável crise no Senado Federal, que nada mais é que pano de fundo para impedir a aliança do PT com o PMDB.
A Globo já sabe que um terceiro mandado do PT fará com que sua verba caia ainda mais e precisou recorrer firmemente na intenção de eleger os setores reacionários do país, recuperando assim seu fôlego financeiro. Eles esconderam até a discussão sobre o marco regulatório do pré-sal, afinal só a querem depois das eleições. Acreditam piamente na vitória destes setores retrógrados, que em conluio com a emissora se organizarão para “dividir” o pré-sal. Por fim, exaltam o possível encontro entre Lina e Dilma, como forma de macular a imagem da possível candidata do PT. As artimanhas são as mesmas de sempre. Porém, com o advento da internet, ficou mais difícil macular o pensamento coletivo, e acima de tudo, com a Record no seu ouvido, a Globo vai desfalecendo e perdendo sua soberania.
Logo, com obstinação, a Record foi chegando, lutando e hoje é o grande contraponto da Globo. Pode-se discutir sua origem, o envolvimento da religião na comunicação, seu processo de modernização, mas nunca a Record chegará ao estágio que a Globo, que já teve 90% das verbas. Pois, as novas formas de comunicação, o desaparelhamento da grande mídia, a participação cada vez mais intensa do povo nas questões intrínsecas ao país, fazem com que a Record seja o outro lado da moeda e não a “nova Globo”. Os grotões da ignorância já se rebelaram, e controlar a massa, como a Globo fez por décadas, é cada vez mais improvável. Talvez aí esteja a grande e lúdica diferença entre a internet, a televisão e o rádio. Afinal, na internet você é quem decide o certo e o errado. O que você quer e o que não quer. E não a bancada do malfadado Jornal Nacional.
Então, por tudo relatado acima, percebe-se que vencer na audiência fora da Globo é algo quixotesco. Mas, com determinação a Record vem trilhando este caminho. Nas manhãs, a Globo já perde freqüentemente na audiência, com a Record chegando a ter o triplo em determinados horários. Nos últimos meses, a Globo teve que se desdobrar contra a “Fazenda” da Record. O avanço da emissora de Edir Macedo é tanto que a final do programa bateu 32 pontos contra 9 da Rede Globo. Isto é um resultado louvável não pelo programa, ou pela emissora, mas pela imponência e determinação da Record em colocar a Globo contra a parede. As investidas da emissora carioca foram as mesmas de sempre. Primeiro colocaram no ar os programas Jogo Duro e No limite. Derrotas ainda mais amargas para a Globo, que requentou matérias de processos sobre a Igreja Universal. O desespero das pautas contaminadas pelo rancor só cessaram quando a Record anunciou a compra dos direitos do documentário “Muito além do cidadão Kane”.
Por fim, muitos poderiam afirmar que esta crônica é deliberadamente contra a Globo e a favor da Record. Pelo contrário. Muitos funcionários que brilham hoje na Record surgiram na Globo. O que se discute é a força desproporcional que a Globo deteve. As suas práticas tão desprezíveis. E, ainda, numa última cartada para segurar a Record, a Globo está espalhando seu “casting” por outras emissoras. O futebol voltou para Bandeirantes. A Rede TV é um informativo do que acontece com os atores da Globo. Todos agora falam com a emissora, e ainda são figurinhas fáceis no Pânico na TV, programa que chama a atenção por explorar a debilidade mental do novo apresentar Zina, e ainda, na mesma emissora, o Superpop apresentado por Luciana Gimenez, que dispensa maiores comentários.
Fico feliz ao ver que o país tira dos olhos suas vendas e mira para outros programas que não fazem parte da grade da Globo e seus parceiros, digo, “emissoras-colaboradoras”. Fico feliz ao ver que o Bolsa Cultura do governo Lula destinará R$ 50 a todos os participantes do programa. Uma espécie do bolsa família que alimentará a alma. Servirá como força motriz para o povo deixar de ser levado por programas com uma pauta nacional pré-estabelecida. Fico feliz ao ver que o show da realidade “A Fazenda” foi um grande sucesso. Mostrou que o país não é refém de nenhuma emissora, e sim do entretenimento que melhor lhe caiba.
Porém, algumas coisas ainda entristecem. O comportamento preconceituoso de “pseudos-intelectuais”, que seguiram a agenda da Globo e afirmaram que o programa era uma grande armação para o ator Dado Dollabela recuperar sua imagem. Os sites foram tomados por pensamentos neste sentido. Esqueceram-se de tantos atores e famosos que se recuperaram na Globo. Esqueceram-se que tanta imbecilidade é posta como padrão de qualidade. A programação básica da emissora que o diga. Uma novela das 6, requentada. Uma novela das 7, que é um centro de michês. E uma novela das 8 que sequer merece comentários, tamanha a sua fragilidade. Isso sem falar nos humorísticos que seguem direitinho o roteiro da Globo. Sem falar nos articulistas e nos talk shows. Ah, isso tudo é de uma intelectualidade sem precedentes.
Ouvir e ler os impropérios de Arnaldo Jabour é muito melhor que ver a história de vida de mendigo da “Fazenda”. Isso o tornará mais culto. A primazia do entretenimento e da informação é capitaneada por Jô Soares. Um cidadão que impõe suas pantomimas, através de piadas de mal gosto. Mas vê-lo é muito mais culto que assistir ao ator Dado vencer “A Fazenda”. Mas, pra quem é universitário, ou já tem alguma formação, principalmente os comunicadores, assistir “A Fazenda” beira ao chulo, à loucura, ao ridículo. Isso me faz lembrar um romancista russo Fiódor Dostoiévski, famoso por ser contrário ao capitalismo, e, por conseguinte, a universalização de uma língua única, considerado por Sigmund Freud um dos maiores escritores, afinal seu livro “Os Irmãos Karamazov” foi considerado o maior romance de todos os tempos para o mesmo. Certa feita, ele escreveu “O sonho de um homem ridículo”, e assim dizia:
“Eu sou um homem ridículo. Agora eles me chamam de louco. Isso seria uma promoção, se eu não continuasse sendo para eles tão ridículo quanto antes. Mas agora já nem me zango, agora todos eles são queridos para mim, e até quando riem de mim – aí é que são ainda mais queridos. Eu também riria junto – não de mim mesmo, mas por amá-los, se ao olhar para eles não ficasse tão triste. Triste porque eles não conhecem a verdade, e eu conheço a verdade. Ah, como é duro conhecer sozinho a verdade! Mas isso eles não vão entender. Não, não vão entender”.
E sendo assim, torço para que o Brasil viva intensamente a sua realidade com novos “Dados” da audiência. Afinal, cada vez mais próximos do senso comum “encastelamos” nossos pensamentos de “ridicularidades-sensatas” e “desencastelamos” impérios que precisam ruir e dar passagem ao novo, ao espaço democrático na comunicação. E como é bom ser louco, chulo ou ridículo. Como é bom rir deste momento. Triste é você intelectual que não sabe o quão não-ridículo é, por não sentir que os novos “Dados” na audiência são ridiculamente e apaixonadamente necessários. Salve Dado!
(*) Leonardo Gomes é jornalista e publicitário.

8 comentários sobre “A realidade e a necessidade ridícula dos "DADOS" da e na audiência”

  1. Podemos dizer que a Record é outra moeda, mas não deixa de estar no mesmo bolso. Tamanha seja a mediocridade da programação.
    A grande questão é que não exista mais monopólios, e assim, enfraqueça os grandes nomes que providenciam a ignorância e a baixaria para a população.

  2. A Record lançou mão das mesmas armas de sua arqui-inimiga Globo para disputar o topo nos índices de audiência e, no máximo, ficou à imagem e semelhança da Vênus Platinada.
    Interpreto a briga entre as duas emissoras não como um momento propício à democratização das comunicações. Pelo contrário, é um grave sintoma da barbárie e da ausência de democracia que imperam durante décadas no setor.
    Por que louvar o sucesso de A Fazenda? Apenas pelo fato de ser da Record e não da Globo? A Record quer romper com o monopólio da Globo despejando nos lares brasileiros o mesmo lixo e informação manipulada que a TV dos Marinho, o SBT, a Rede TV! e a Band já fazem com maestria?
    Ao invés de trazer uma nova linguagem para a TV Aberta, tanto no que tange ao conteúdo quanto à estética, a Record se dá por satisfeita em fazer um “Control C Control V” de sua maior rival, a Globo.
    A verdadeira democratização da mídia está na adoção de políticas públicas de comunicação, no fomento às mídias alternativas e comunitárias, no controle público e social da comunicação e na formação crítica do cidadão em relação à mídia.
    No entanto, a guerra declarada entre Globo e Record traz uma importante mensagem: uma outra comunicação é possível e é necessária construí-la urgentemente! E que venha a Conferência Nacional de Comunicação, pois o povo não pode ficar refém de interesses escusos de bispos ou de famílias.

  3. Concordo que está ocorrendo uma reestruturação da mídia no país, mas seus argumentos são fracos e tendenciosos.
    Louvar uma emissora ainda ligada à religião por laços estreitos e que possui programas que são cópias descaradas e humilhantes não servirá de argumento nunca! Muito menos colocar rótulos aos seguidores da TV Globo, pois você estaria fazendo o mesmo que a emissora carioca em relação aos evangélicos.
    Todas as grandes emissoras possui algum podre.
    A Record com sua relação já ultrapassada com a religião e seu abuso inaceitável dos fiéis. Sem falar nos seus programas medíocres e anúncios infantis e amadores dos dados de audiência ao vivo.
    A TV Globo por seu padrão “superior”. Arrogância e manipulação da informação. Que se diz séria, comprometida, mas possui uma dívida escabrosa que “ninguém vê”.
    Os demais canais, SBT, Band e RedeTV! por seu conteúdo miserável, baixo e apelativo.
    A mudança não será brusca. E até melhor que não seja assim, pois sabe-se lá quem irá ocupar o lugar. Mas a principal mudança será na educação do telespectador. A definição da qualidade dos novos programas, emissoras, etc, partirá do nosso conhecimento e da nossa escolha.
    Antes de tudo, temos que nos reeducar para podermos saber escolher. Até que isso ocorra, tudo que vier a acontecer não resolverá nada.

  4. Ah! Jamais “louve” um covarde que bate em mulher. Inclusive isso está gravado.
    Não interessa se você o fará por ironia, provocação ou seja lá o que for. Tudo bem que isso é problema da Justiça, mas ao menos mantenha os valores mínimos que uma pessoa que vive em sociedade deve ter.

  5. Pra quem concorda ou discorda o importante é sempre debater, acredito que este seja o fundamento primordial da discussão. Agora, perder a educação com insultos, é a exaltação da direita. O texto que escrevi faz parte de uma percepção do comportamento da mídia e não um juízo de valor. Saudações e obrigado por lerem o texto.

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