A Polêmica sobre o Sumo Pontífice
Carlos Alberto Lungarzo
21 de março de 2013
Infandum, Regina, iubes renouare dolorem
Me ordenas, Rainha, relembrar uma dor indescritível
P. Virgílio Maro: Eneida, livro II
Para muitos de nós, falar do atual Papa Francisco significa renovar um enorme dor, tão grande ou pior que o sentido pelo poeta Virgílio quando a rainha Dido de Tiro lhe pediu relatar a destruição de Tróia.
Trata-se de renovar as lembranças dos amigos mortos e torturados, dos mais de 30.000 desaparecidos, de crianças roubadas ou afogadas, de mulheres grávidas evisceradas, de famílias reduzidas a cinzas na orgia de sangue mais cruel já vivida por um país ocidental desde o fim do nazismo. Entretanto, é necessário assumir essa dor e colocar as coisas em seu lugar, especialmente porque burocratas dos direitos humanos, bajuladores (alguns argutos, outros ingênuos) e militantes de movimentos que, com admirável habilidade, pretendem “libertar” os povos usando os tradicionais aparatos da opressão, ofendem a memória dos mortos e a dor de suas famílias fazendo a elegia dos cúmplices daquela megachacina.
Milhares de pessoas que viveram aqueles nefastos dias (e não me incluo, porque optei por salvar minha família e fugi do país), tratam de “mentirosos” os milhares de denunciantes usando como argumento o critério de autoridade: os que defendem o Papa são pessoas célebres, são cristãos, foram premiados.
Todo sistema totalitário, não apenas político, mas até um sistema artístico ou filosófico fechado, rejeita a dissidência e não consegue diferenciar entre duas coisas bem diversas:
® A afirmação de uma verdade, que está em contradição com algum dogma dessa doutrina totalitária.
® Uma proposta de ação de exclusão, por exemplo, do papa eleito, com base nessa crítica, denúncia ou ataque.
Quando se diz que Hitler foi um tirano não estamos pedindo para ressuscitar o Führer alemão e o enforcar num novo Nuremberg. Apenas estamos descrevendo uma verdade objetiva da história.
A afirmação de que o Papa Francisco, o ex provincial jesuíta Jorge Mario Bergoglio, foi denunciado por ONGs argentinas de DH por delatar dois padres de sua própria ordem a grupos de extermínio da Marinha, e por recusar informação sobre uma criança sequestrada pelos militares argentinos em 1976, após matar sua mãe e quatro parentes, que aparecem em documentos judiciais, não apenas da Argentina, mas também da França, e em jornais e revistas de diversos países há muitos anos. Bergoglio era desconhecido antes de ser candidato a Papa em 2005. Então, por que a opinião pública teria tanto interesse em enlamear sua figura?
Há numerosas pessoas que têm indícios sólidos, ou provas, incluindo o próprio padre Yorio, que nunca se assustou e manteve sua denúncia até sua morte, possivelmente por razões naturais, em 2000.
Entretanto, desta vez a direita brasileira (fantasiada com nomes fastuosos, como “libertação”, “compaixão” e outros) está aliada com a direita argentina. Pois, agora, o Mercosul tem um Papa, e a mais obscurantista e reacionária das forças históricas está de nosso lado. Quanto poder! Como diz aquela canção do KKK, W’ve God on our side.
Deve ficar claro que os verdadeiros grupos de direitos humanos entendem que a conduta de Papa é um problema da Igreja e dos católicos, e ninguém de fora dos possíveis 1,2 bilhões de católicos do mundo (sobram ainda uns 6 bi) tem qualquer interesse em que o Papa seja Fulano ou Sicrano.
O que nos preocupa é o passado, quando a Igreja tinha na Argentina o poder ilimitado, e dezenas de milhares de pessoas foram torturadas e executadas. Não queremos que esses fatos se repitam nunca mais, e a única maneira de fazer isso é com a preservação da memória. Na Argentina já foram julgados 200 carrascos, o que, mesmo parecendo uma quantidade muito grande, que provoca elogios ao judiciário argentino até nos países mais desenvolvidos, é, porém, pouco mais de 2% do total de carrascos envolvidos ainda vivos. Ninguém acredita que em 8 anos do mais intenso terror de estado seja algo possível de sustentar com apenas 200 responsáveis.
Entretanto, embora seja difícil avançar, pelo menos, não recuemos. Não queremos reproduzir a situação do Brasil onde a Comissão de Memória se formou décadas depois dos crimes e até agora só produz alguns resultados pequenos.
Não somos tão primitivos para pensar que os papas são muito diferentes um do outro. O que fez o atual papa Francisco durante a ditadura argentina é muito menos que o feito pelos papas que ajudaram o fascismo e o nazismo, como Pio XI e Pio XII. Ele apenas teve a oportunidade de colaborar com uma ditadura, que outros não tiveram.
Talvez o único papa diferente na história teria sido monsenhor Luciani, mas perdemos para sempre a oportunidade de saber, pois o Espírito Santo retirou seu apoio daquele papa tido como progressista. O papa João Paulo I estava distraído e cometeu um erro ao tomar seu chá antes de dormir.
Vejam mais material em meu FACEBOOK:
Contexto Geral
Desde 1984, um setor da cidadania argentina, que recebeu seu primeiro apoio oficial em 2005, organizou-se para estudar as atrocidades que aconteceram no país durante a década de 70, sob a aliança dos empresários, as FFAA e a Igreja, deixando um rasto de milhares de mortos e aleijados, dúzias de milhares de exilados, e milhões de famílias devastadas. Dessas vítimas, houve também estrangeiros (brasileiros, suecos, franceses, italianos, espanhóis, alemães, chilenos, uruguaios, americanos, etc.) de 32 países diferentes. Dos argentinos desaparecidos, 15% eram judeus, num país onde a proporção de judeus é menor que o 2%. O esquema parecia nazista, não faltou nem a tentativa de invasão a Chile, brecada pelo Papa João Paulo II, em 1978, pois este temia um confronto entre as duas meninas de seus olhos: a ditadura Argentina e a ditadura de Pinochet. Tampouco faltaram as reclamações territoriais milenares, parecidas como as feitas pelos nazistas alemães.
Os investigadores do pesadelo argentino, usando uma ajuda modesta que chegava de voluntários do exterior, conseguiram montar a melhor equipe de antropologia forense, de sociólogos e psicólogos especializados em crimes de estado, de historiadores, jornalistas investigativos e até intelectuais católicos, que se permitiram, pela primeira vez, a liberdade de duvidar da santidade dos que torturam e matam em nome de Deus.
Argentina teve 6 ditaduras durante o século XX, deflagradas por golpes de Estado nos anos 1930/43/55/62/66/76.
As únicas que têm influência direta nos problemas atuais são a quinta ditadura (1966-70 sob o fascista Ongania e 1970-73 sobre o liberal/conservador Lanusse) que fez milhares de prisões e aplicou milhares de torturas, mas o número de mortos que produziu é menor que o da ditadura brasileira, e a sexta ditadura (1976-1983), a mais conhecida, e a que constitui o maior terrorismo de estado no ocidente desde a queda de Hitler.
O Caso de Yorio e Jalics
O Sequestro
Orlando Yorio (1932-2000 em Uruguai) era um sacerdote da ordem dos jesuítas, aderente à Teologia da Libertação, que estava sob as ordens do provincial para a Argentina, Jorge Mario Bergoglio, atual papa Francisco.
Franz (Franciso) Jalics (em magiar: Jálics Ferenz) nasceu em 1927 em Budapest, Hungria, e em 1976 estava também sob o comando do provincial dos Jesuítas da Argentina, Bergoglio. Ele sobreviveu às torturas e atualmente vive enclausurado num mosteiro na Alemanha.
Ambos, Yorio e Jalics, pregavam a teologia da libertação no complexo de favelas do chamado baixio de Flores, em maio de 1976, na periferia do bairro de Flores, lugar de classe média alta no centro geográfico da cidade e ponto tradicional da cidade.
No dia 23 de maio foram sequestrados por um esquadrão da morte pertencente á Escuela de Mecânica de la Armada (Escola de Mecânica da Marinha), célebre nas décadas seguintes por ter sido centro de tortura e extermínio de, pelo menos 5000 (cinco mil) pessoas, a maioria sindicalistas, jornalistas e intelectuais.
Ambos permaneceram presos cinco meses, durante os quais foram torturados.
Colaboração de Bergoglio com o Sequestro
É fundamental lembrar que:
1) Uma semana antes da prisão, o arcebispo Juan Carlos Aramburu tinha cassado as LICENÇAS PARA PREGAR de ambos os padres. Ao cassar essa licença, o Estado, que é formalmente aliado da Igreja na Argentina, assume que PODE ATUAR COMO BEM ENTENDA. Os padres já não estão protegidos.
2) Anos depois, quando Yorio foi solto e viajou a Roma para reclamar seus direitos de jesuíta, soube que ANTES DO SEQUESTRO, ele e Jalics já haviam sido expulsos da Companhia de Jesus da Argentina, por ordem do atual papa Francisco.
Sintetizando: Ao serem expulsos da ordem dos jesuítas e terem suas licenças cassadas, foi dado o sinal ao grupos de extermínio de Marinha para sequestrar esses padres.
NOTA: Tenha-se em conta que todas as ditaduras argentinas, especialmente a última, foram fervorosamente católicas e estiveram sempre aliadas com a Igreja. Portanto, um grupo militar não teria a ousadia de sequestrar padres sem a autorização e cumplicidade de sua ordem. No começo dessa ditadura (março 1976), os bispos e o cardeal primaz fizeram uma acordo com os militares de que NENHUM PADRE SERIA PRESO sem a autorização de seus superiores. No caso de sacerdotes seculares, a autorização devia ser dada pelo bispo. No caso de padres congregacionistas, devia ser o chefe da congregação.
Bergoglio Impede o Passaporte para Jalics
Há várias testemunhas, incluíndo um servidor (cuja identidade se manteve protegida) da ordem dos jesuítas, que afirmam que a desaparição definitiva, com morte, como era habitual, seria um fato de grande repercussão negativa numa ordem todo-poderosa como a dos Jesuítas. Portanto, seu chefe, o atual papa, aproveitou para falar com o ditador Videla em sua casa, durante uma missa que ele celebrou na residência dele.
Aí, Bergoglio teria pedido que usassem mão branda com Yorio e Jalics. Aparentemente, Videla (que era devotamente católico) entendeu que isso poderia prejudicar a Igreja, e teria dado ordem de serem soltos.
Em outubro de 1976, após cinco meses de tortura, ambos foram soltos. Obviamente, os sequestradores não davam alvará de soltura, portanto não se conhece o dia exato.
Jalics queria ir a Alemanha e esquecer logo aquele pesadelo. Uma prova disso é que até o dia de hoje, com mais de 80 anos, ele mora num mosteiro. Para tanto, precisava um passaporte. Bergoglio, como chefe da ordem dos jesuítas tinha obrigação moral de facilitar a obtenção do passaporte. NOTA: Lembre, que, nessa época, nem Jalics nem Yorio sabiam que tinham sido expulsos da ordem, pois essa expulsão foi sigilosa, para favorecer o sequestro.
Vejam, por exemplo, na Folha.com, como procedeu o atual papa.
“A nota de 1979 foi assinada pelo então diretor de Culto Católico da Chancelaria argentina, Anselmo Orcoyen. Nela está registrado que Bergoglio pediu formalmente a renovação do passaporte de Jalics, instalado na Alemanha, após sua soltura pelo regime militar. Ele e Yorio haviam sido torturados na Escola de Mecânica da Marinha e ficaram cinco meses com os militares.”
Porém, ao protocolar o pedido, segundo confidência de um funcionário feita a Horacio Verbitzky, autor do livro El silencio, Bergoglio fez verbalmente “especial recomendação” para que ele fosse negado, abastecendo o ministério com informações desabonadoras sobre Jalics, incluindo a suspeita de seu “contato com guerrilheiros”.
O Caso de La Cuadra
A família De la Cuadra é uma família oriunda da província de Corrientes, que é um estado fronteiriço com o Brasil. É uma família católica, mas, cujos membros se inclinaram cedo na defesa dos direitos humanos.
Cinco membros da família foram sequestrados pelos militares e quatro deles desapareceram. Entre as desaparecidas estava Elena de la Cuadra.
Elena de la Cuadra nasceu no dia 15/06/1954, sendo a 5ª. filha da família De la Cuadra. Apaixonada pelo ensino e as crianças, estudou para pedagoga de crianças com dificuldades especiais. Casou em 1976, e quando foi capturada, em 23 de fevereiro de 1977, estava no 5º mês de gravidez.
Em 16 de junho de 1977 teve uma criança chamada Ana que nasceu na delegacia 5ª. de La Plata, cidade capital da Província de Buenos Aires, e um dos grandes antros de milicos e policiais assassinos. No quarto dia de vida, a criança foi tirada de sua mãe. Nunca mais se soube nada de mãe, da filha e de outros quatro parentes que desapareceram de maneira definitiva.
http://www.desaparecidos.org/arg/victimas/c/cuadra/elena.html
Estela de la Cuadra, nascida em 1946, irmã de Elena de la Cuadra, prestou depoimento em 16 de junho de 1999, na Câmara Federal um tribunal superior de segundo grau, equivalente ao antigo tribunal federal de recursos do Brasil. Em seu depoimento que pode encontrar-se nos links acima, Estela declarou, em síntese:
Sua família tinha antigos laços com os jesuítas. Seus irmãos, exilados, conseguiram uma entrevista com o general da ordem, Pedro Arrupe, que prometeu falar com Bergoglio. Por causa disso, o pai da desaparecida conseguiu falar com Bergoglio, que lhe apresentou a um bispo de La Plata que, por sua vez, lhe apresentou a um militar.
A resposta final foi que a criança tinha sido doada a uma família “nobre” e que isso não voltaria atrás.
Estes fatos aconteceram entre 1977 e 1978.
Compare agora com a declaração de Bergoglio junto ao Tribunal Federal número 5º em 2010
Ele disse que na época não sabia que na Argentina tinham desaparecido crianças (sic). Que só soube disso “faz 10 anos”
E ele se recusou a abrir os arquivos do episcopado.
O Depoimento do atual Papa
Na Argentina desapareceram vários sacerdotes e outros religiosos católicos, como monges e freis, dos quais alguns eram estrangeiros. Suas desaparições criaram atritos internacionais com os países mais democráticos, mas o cinismo que caracterizou a diplomacia impediu uma ação mais enérgica.
O atual Papa, que antes era cardeal da Argentina e arcebispo de Buenos Aires, a maior autoridade na igreja do país a partir de 2001, foi citado pela justiça, não como réu, mas apenas como colaborador, para prestar uma ajuda básica na investigação da morte de seus irmãos de religião. O tribunal queria que abrisse os arquivos do episcopado ou, pelo menos, que respondesse algumas perguntas.
Deixo claro que atualmente na Argentina há alguns juízes corajosos e honestos, mas o poder judiciário em sua maioria possui extração católica e altamente reacionária. Deve-se descartar que os juízes tivessem qualquer animosidade especial contra um bispo.
Aliás, todas estas investigações aconteceram recentemente. Os pedidos para interrogar o atual papa vão de 2005 a 2010. Qualquer pessoa interessada pode pedir informação aos tribunais de Buenos Aires, inclusive por e-mail.
Quando foi convocado, Bergoglio se recusou duas vezes, argumentando que os padres argentinos têm foro privilegiado. Isto, embora pareça monstruoso e ultrapassado, há séculos, é VERDADE. A Argentina é o único país onde o estado é subserviente da Igreja. O atual governo fez alguns esforços para quebrar esse vínculo, mas lhe faltou coragem.
Voltando, Bergoglio se recusou duas vezes. Como havia uma enorme pressão, incluso de países estrangeiros, pois em Buenos Aires foram sequestrados também padres e monges franceses e americanos, finalmente, a terceira vez, em 2010, Bergoglio aceitou prestar depoimento.
O depoimento se encontra neste site.
Neste outro link se percebe o mal estar dos juízes tanto argentinos quanto franceses, pela insistência do atual papa de desconversar, simular esquecimento, e outros truques.
http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/
Tenho reproduzido o depoimento de Bergoglio em meu FACEBOOK, mas é um documento longo e a tipografia desse site não permite uma leitura amena. Mas, quem quiser pode copiá-lo do primeiro link acima (o das abuelas)
Testemunhas e Informantes
Lista de pessoas que forneceram indícios ou provas da participação de Bergoglio com a ditadura de 1976-1983:
O próprio Yorio (denuncia explícita)
Declarou que Bergoglio o tinha denunciado e repetiu isso sem qualquer modificação até o dia de sua morte.
Jalicz e a “reconciliação”
É conhecida a disciplina do silêncio entre religiosos jesuítas e ele não admitiu que Bergoglio o tivesse denunciado, mas disse, há alguns dias, que se reconciliou com o Papa. É óbvio que você só se reconcilia com pessoas com as quais teve conflito. Se realmente Bergoglio tivesse sido neutro no caso, não caberia falar de reconciliação. Quando se perguntou a Jalicz, na mídia, qual era o papel de Bergoglio no sequestro, disse que não podia falar sobre isso!!!
Fermin Mignone (em livro)
Ele é um católico fundamentalista, ministro de estimação da ditadura militar anterior (a de 1966), mas se voltou para os direitos humanos após sua filha Mônica ter sido sequestrada pela ditadura seguinte. Ele levanta a responsabilidade de Bergoglio nas páginas 158 e 234 de seu livro: Igreja e Ditadura.
Horacio Verbitzky (em livro)
É o jornalista argentino que mais seriamente trabalhou no caso, fazendo numerosas entrevistas. Veja seu livro El Silencio.
Leonor Carabelli,
Freira da comunidad de las hermanas de Nuestra Señora de la Esperanza. Declarou na Argentina que ouviu numerosas vezes Yorio e Jalics dizerem que BERGOGLIO OS TINHA DELATADO. Posteriormente, Jalics diz que não podia falar sobre isso. Também mencionou outro padre que acusa a Bergoglio, mas seu nome não figura nos autos.
Norma Elena de Laskowski
Freira dominicana que deixou os hábitos nessa época. Ela foi a viver a Alemanha, onde recebeu os jesuítas sequestrados, logo após sua soltura, em 1977. Ambos tinham falado com as altas autoridades jesuítas. Estas reconheceram que, ANTES DO SEQUESTRO, receberam uma mensagem de Bergoglio, que dizia que Yorio e Jalics tinham sido EXPULSOS DA ORDEM. As pessoas que conheceram este fato não duvidaram que era uma maneira de facilitar o sequestro.
Graciela Yorio
Irmã de Orlando. Mora atualmente na Argentina. Insiste em que o Papa deve abrir os arquivos e revelar a verdade sobre seu irmão. Obviamente, não recebe resposta.
Irmã Norma Gorriarán
Freira da Companhia de Maria. Quando Yorio foi solto, ela lhe deu proteção e o escondeu numa casa da cidade de Canuelas, na província de Buenos Aires. Era frequente que algumas pessoas que foram soltas por grande pressão dos próprios militares, fossem depois capturadas novamente e aí exterminadas. A freira protegeu Yorio até que pudesse sair do país, mas Bergoglio, segundo ela conta, suspeitou que ela sabia onde estava e lhe exigiu que o entregasse. Ela resistiu e Yorio conseguiu fugir à Europa, mas a freira foi insultada pelo atual papa, segundo depoimento dela mesma.
Cándido Gaviña
Padre jesuíta colombiano vinculado aos altos mandos da congregação. Quando Yorio chegou a Roma falou com ele. Gaviña lhe disse que ele (Yorio) e Janics foram capturados porque o chefe da ordem na Argentina havia denunciado um deles como guerrilheiro.
Estela de la Cuadra
Irmã de Elena de la Cuadra, citada na seção anterior.
www.continental.com.ar/escucha/archivo_de_audio/estela-de-la-cuadra-bergoglio-estaba-al-tanto-del-robo-de-bebes-durante-la-ultima-dictadura/20130314/oir/1858988.aspx
No livro de Emílio Fermín Mignone, Igreja e Ditadura, cujo autor é um célebre católico argentino, membro do Opus Dei, homem de comunhão diária, que apoiou as ditaduras até o dia que estas sequestraram, torturaram e mataram sua filha Monica. Ninguém pode dizer que Mignone critica a Igreja por ateísmo ou marxismo. O faz porque compreendeu, através da duríssima experiência de ter sua filha assassinada, que a política das sagradas instituições era cruel e sanguinária, como o foi em toda sua história. Há vários casos de católicos que caíram na real com a última ditadura argentina.
Vejamos o que diz Mignone em seu livro. Lembrem: ele é um católico fundamentalista, nada a ver com a esquerda, e escreveu isto em 1986, quando Bergoglio era desconhecido e, portanto, não havia interesse em prejudica-lo.
En realidad la primera versión del episodio no se debe a ningún periodista sino a Emilio Mignone. En su libro Iglesia y dictadura, editado en 1986, cuando Bergoglio no era conocido fuera del mundo eclesiástico, Mignone ejemplificó con su caso “la siniestra complicidad” con los militares, que “se encargaron de cumplir la tarea sucia de limpiar el patio interior de la Iglesia, con la aquiescencia de los prelados”. Según MIGNONE, durante una reunión con la Junta Militar en 1976 el entonces presidente de la Conferencia Episcopal y vicario castrense, Adolfo Servando Tortolo, acordó que antes de detener a un sacerdote las Fuerzas Armadas avisarían al obispo respectivo. Agrega Mignone que “en algunas ocasiones la luz verde fue dada por los mismos obispos. El 23 de mayo de 1976 la Infantería de Marina detuvo en el barrio del Bajo Flores al presbítero Orlando Yorio y lo mantuvo durante cinco meses en calidad de desaparecido. Una semana antes de la detención, el arzobispo [Juan Carlos] Aramburu le había retirado las licencias ministeriales, sin motivo ni explicación. Por distintas expresiones escuchadas por Yorio en su cautividad, resulta claro que la Armada interpretó tal decisión y, posiblemente, algunas manifestaciones críticas de su provincial jesuita, Jorge Bergoglio, como una autorización para proceder contra él. Sin duda, los militares habían advertido a ambos acerca de su supuesta peligrosidad”. Mignone se pregunta “qué dirá la historia de estos pastores que entregaron sus ovejas al enemigo sin defenderlas ni rescatarlas”.
Horacio Verbitzky é criticado por alguns na Argentina e no Brasil. Embora seja uma figura controversa, o caso de Bergoglio é tratado com todo rigor em seu livro El Silencio (O Silêncio). O nome se refere a um campo de extermínio que era propriedade da Igreja e que esta cedeu aos militares para o uso de tortura e execuções de opositores. Os leitores podem conseguir este livro por 15 Reais em alguns sebos, pois a edição original se esgotou rapidamente após a nomeação do Papa.
Cada leitor pode julgar por sua própria conta se os dados parecem ou não consistentes. Deve observar-se que a denúncia contra Bergoglio na desaparição dos padres é compartilhada também por Mignone, um católico fundamentalista que nunca ofenderia um padre se não fosse por uma evidência muito forte. Mignone escreveu este livro em 1986, quando Francisco ainda não era nem bispo, ou seja, não pôde ter existido nenhum interesse especial em prejudica-lo, como dizem os que tentam degradar o valor das denúncias.
Os Reivindicadores
Por interesse ou ingenuidade, vários grupos de pessoas que não estão diretamente vinculados ao Vaticano, pretendem reivindicar Bergoglio acusando de caluniadores os que apresentam denúncias.
Pérez Esquivel
O fundador do serviço de Paz e Justiça e membro célebre da Teologia da Libertação, Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz de 1980, formulou recentemente duas afirmações que foram publicadas em numerosos veículos da mídia.
- O padre Bergoglio, durante a época da ditadura, mostrou falta de coragem para defender os direitos humanos.
- Ele NÃO foi cúmplice da ditadura.
Analisemos a proposição (1).
Com expressões diversas, Esquivel diz que o atual papa não confrontou os militares, não acompanhou o processo de luta dos setores humanitários, não defendeu publicamente as vítimas. Com diferenças de inflexão, todas estas afirmações expressam isto:
O padre Bergoglio omitiu–se na defensa das vítimas da ditadura dos crimes de tortura e genocídio.
Esta frase foi omitida pela mídia brasileira em quase todas as citações, mas, de qualquer maneira, não está em pauta saber se Bergoglia tinha ou não coragem. O que importa é este ponto:
Omitiu-se da defesa.
Vejamos o que diz sobre isto a lei brasileira.
O assento constitucional da matéria se dá no art. 5, inc. XLIII da C.F., ipsis litteris:
A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que podendo evitá-los se omitirem. (grifo nosso).
http://jus.com.br/revista/texto/3707/o-fenomeno-da-omissao-nos-crimes-hediondos-e-assemelhados
Ora, acompanhe o seguinte raciocínio:
1) O chefe máximo de uma corporação qualquer (seja política, religiosa, ou de outro estilo) tem poderes suficientes para evitar que seus membros sofram danos hediondos, como tortura.
2) Então, o chefe dos jesuítas podia ter evitado a captura dos jesuítas Yorio e Jalicz.
3) De acordo com 5 XLIII da CF, quem, podendo evitar, se omite, comete crime hediondo também.
4) Segundo Pérez Esquivel, Bergoglio não teria defendido abertamente os padres ameaçados. Se isto vale em geral, também vale para o caso particular de Yorio e Jalicz.
5) Logo, Bergoglio não defendeu Yorio e Jalicz, então omitiu-se.
6) A tortura é um crime hediondo.
7) De (6), (5) e (3) segue que Bergoglio se omitiu num crime planejado pela ditadura.
Ora, ser cúmplice de um crime da ditadura é compatível com a afirmação de “Não estar envolvido com a ditadura”??
Isto é uma contradição ou não estamos entendendo a lógica do ilustre compatriota.
Leonardo Boff
O famoso fundador da Teologia da Libertação brasileira disse que:
1) Ele conheceu pessoalmente Yorio.
2) Que Yorio nunca lhe disse que tinha sido entregue por Bergoglio.
Veja a declaração completa de Boff num artigo publicado por ele no link que está no final da transcrição
Yo conoci personalmente a Iorio y nunca me habló que Bergoglio lo habia entregado a los torturadores. (Grifos meus).
http://leonardoboff.wordpress.com/2013/03/13/impiden-a-jesus-entrar-en-el-conclave-de-los-cardenales/
Ou seja, o ilustre teólogo tem poderes tão grandes que, se alguém que ele conhece não lhe conta algo, quer dizer que esse algo não existe.
O Que Move a Farsa?
Como aconteceu em toda a história da Igreja, os que dizem a verdade são hereges e devem ser estigmatizados. Mas, pode ser intrigante saber por que esse pessoal da Teologia da Libertação mostra tão denotado interesse em resgatar a imagem do Papa.
Quero deixar claro que só posso fazer conjecturas, baseado em meu conhecimento dos fatos, na história da repressão argentina, e alguns dos atores deste show. De nenhum maneira, porém, pretendo conhecer com certeza a psicologia dos personagens. Os únicos que sabem o que outros estão pensando são os confessores. Mas, de qualquer maneira, permito-me fazer algumas conjecturas:
a) A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO é uma corrente difícil de analisar. Pode ter tido, como todos, erros e acertos. Só desejo salientar que o fato de que a esquerda de alguns países se sentiu representada por ela não teve consequências positivas.
Os motivos pelos quais o Vaticano estimulou esta tendência, mas depois a combateu, são conhecidos, mas argumentar sobre isto nos afastaria do assunto central.
O assunto central é que durante os papados de João XXIII e Paulo V, a Teologia da Libertação teve popularidade, e seus líderes nos países do 3º Mundo gozaram de certo respeito pelo Vaticano. Por exemplo, alguns foram recebidos pelo Papa, obtiveram a benção papal, e coisas do gênero. A partir de que Ratzinger assumiu a tarefa de chefiar o que antigamente era a Inquisição, os teólogos da libertação foram parcialmente proscritos, e também seu papel de estrelas no show do catolicismo. O novo Papa, por seu estilo populista, dá uma esperança de que esses teólogos libertadores voltem a ocupar as manchetes. Os pecados do Papa são “apenas” três sequestros, que na Argentina pode considerar-se “coisa pequena”. A ação conjunta de, pelo menos, 120 bispos, capelões e chefes de ordens, serviu para selar a tortura e morte de mais de 30.000 pessoas. Portanto, FRANCISCO PODE SER CONSIDERADO UM SANTO, se comparado com os anteriores. Os Teólogos da Libertação trocam três vítimas (nenhuma das quais morreu na tortura) por seu direito de voltar a ocupar posições de prestígio.
b) CASO ESQUIVEL. É um fato conhecido, fácil de conferir em milhares de notícias, que há anos os movimentos de direitos humanos na Argentina estão divididos. Os VERDADEIROS defensores são uma parte. Talvez não seja uma minoria, mas não são os únicos. Existem várias superstares dos direitos humanos.
Pérez Esquivel tem um longo histórico de defesa dos DH desde uma perspectiva pacifista, tipo Gandhi. Além disso, foi detido durante 18 meses pela ditadura argentina, o que lhe faz merecer a solidariedade que se deve brindar a QUALQUER perseguido. Entretanto, nem sempre a história de uma pessoa pode justificar todas as atitudes que assuma e nem tornar irretocáveis as teses que defenda no presente.
Esquivel formou uma comissão de seis premiados Nobel para reclamar ao Reino Unido a devolução das Malvinas. É um princípio básico dos defensores de DH que a luta por estes direitos não deve politizar-se. As Malvinas foram mantidas sob o poder argentino durante alguns meses, graças a guerra contra a Inglaterra de 1982, o que foi muito cruel. Não entendo como se pode separar a reivindicação dessas ilhas sem a defesa da guerra. Salvo a força, não há outro argumento que possa ser usado nas Malvinas. A intromissão de seis (ou qualquer outra quantidade) de prêmios Nobel da Paz num litígio militar constitui uma contradição, porque o militarismo é contrário à paz.
Esquivel afirmou também que o ataque do 11 de setembro de 2011 em NY foi forjado pelos próprios americanos para justificar a guerra com os países árabes (sic!!).
É fácil perceber que uma pessoa interessada em sua visibilidade internacional possa se beneficiar de um papa como o atual, que é argentino e, além disso, populista. Ele poderá dar relevância a Esquivel, que representa um segmento dentro das ONGs de Direitos Humanos da Argentina. Como disse antes, nem todos os grupos de DH convivem em harmonia.
c) DH NO BRASIL. Alguns funcionários, dignitários e ativistas dos DH no Brasil apoiam o Papa. Surpresa? Claro que não. Vejam o que são os DH no Brasil. Até o ministro de justiça diz, ao tomar posse, que é melhor morrer que estar preso no Brasil. Vejam o escandaloso absurdo de empossarem um presidente, na Comissão dos DH e Minorias da Câmara dos Deputados, com o currículo e pronunciamentos do Deputado Feliciano. É claro que os que dizem defender os DH têm uma conduta que lembra pouco o que se entende no resto do mundo por direito humanitário. Então, defender este Papa não é tão esquisito.
Que os católicos apoiem e defendam este ou aquele papa, é um problema dos crentes e religiosos da seita. A questão é esclarecer qual é o perfil e histórico do representante maior dessa que é uma religião tão influente e populosa no mundo, cujo papel, inclusive, é de chefe de estado, e cujos últimos Sumos Pontífices têm simulado defender a paz, a justiça social e os direitos humanitários. O que importa, em última instância, é avaliar quanto essa simulação pode influenciar ações e prejudicar as comunidades verdadeiramente humanitárias.

