A pedagogia de Paulo Freire e a Terapia Comunitária Integrativa

Há vários aspectos da pedagogia de Paulo Freire que se encontram incorporados na Terapia Comunitária Integrativa.

Dentre eles, cabe aqui mencionar a criticidade (como oposta à visão ingênua, alienada, do mundo), a contextualização, a problematização, o caráter dialógico da construção do conhecimento –e, mais, da construção da realidade–, a noção do opressor introjetado no oprimido –como um obstáculo à liberdade– , e a noção de que o processo educativo é sempre de duas vias: todos aprendem, o educador e o educando, isto é: todos somos educadores-educandos, por um lado, e, por outro, a noção de que todos somos geradores de saberes e de visões de mundo irredutíveis umas às outras, em um movimento contínuo de mútua contradição e complementariedade. A compreensão de que a vida é um processo incompleto, é outra das características do pensamento de Paulo Freire.

Estas noções são algumas que se apresentam como relevantes. Podem parecer muito simples, mas –talvez como conseqüência dessa mesma simplicidade– o seu efeito libertador nas rodas de Terapia Comunitária Integrativa, e na formação de terapeutas comunitários –toda terapia comunitária tende a ser um processo constante de auto-descoberta e libertação—é muito evidente e constante.

Ver as coisas em processo, se ver no processo de oposições e de contradições que é a vida. Poder se ver no contexto das circunstâncias em que cada um foi sendo moldado, passando a ser um analista de si mesmo e das pessoas em redor, e não mais espectador passivo. Se perceber como co-responsável na criação das circunstâncias em que se vive e se luta, nas quais se descobrem recursos próprios e coletivos para a emancipação do que oprime, e não mais como vítima. Se perceber, portanto, como sujeito construtor de modos de vida e visões de mundo, de relações sociais que oprimem mas também podem e devem libertar, em outras palavras, assumir a pessoa que se é e que se está sendo, o destino que se quer realizar. Ou seja: sujeito ativo, criativo, capaz (o eu posso individual e coletivo), autor das próprias escolhas e dono da própria vida. Tudo isto em movimento, ou seja: não mais a vida como passividade, submissão, aquiescência, mas como atividade, criatividade, compromisso consciente.

É possível reconhecer no pensamento de Paulo Freire, a marca de pensadores como Sócrates, Karl Marx, Max Weber, e Martin Buber. Os ensinamentos de Jesus Cristo também tem sido rastreados como uma das fontes de inspiração da pedagogia freireana (1).

A pedagogia de Paulo Freire é muito mais do que os procedimentos que costumam ser citados ao se referir a ela. Tal como a Terapia Comunitária Integrativa, o método Paulo Freire é uma forma de ver o mundo, de ler a realidade e a si mesmo, de agir significativamente em grupo e individualmente, a partir de valores e formas de perceber geradas num encontro mutante com a matriz socio-cultural e histórica a que se pertence. As tentativas de resumir estes dois grandes movimentos sociais –em boa medida entrelaçados e mutuamente implicados—a alguns dos seus traços carcterísticos, podem levar a visões estereotipadas afastadas do que se quer conhecer, isto é: dois grandes movimentos sociais gerados no Nordeste brasileiro, expandidos pelo país inteiro, em perpétuo processo de mudança interna, avançando de maneira lenta, mas firme, em direção a formas mais humanas de existência. O movimento de educação popular de Paulo Freire e a Terapia Comunitária Integrativa agem pela base, a partir de movimentos sociais, ou os gerando, modificando a consciência do oprimido em direção à sua libertação prática, não teórica ou ideológica. Um dos eixos desta ação libertadora, talvez o principal, no meu ponto de vista neste momento, é a recuperação da auto-estima de pessoas e comunidades. Esta recuperação da auto-estima, está ligada à libertação da pessoa e das comunidades, dos estereótipos e dos preconceitos internalizados, que os faziam se repudiar e se desconhecerem a si mesmos, por terem introjetado a visão do opressor. Isto fica claro numa menção que Paulo Freire faz em A pedagogia da Autonomia, á forma como um favelado passou a ver a si mesmo, já não mais como uma vítima ou alguém indesejável, mas como um sujeito vitorioso, vencedor, por ter-se organizado e mobilizado coletivamente em favor do bem comum. Na Terapia Comunitária Integrativa, esta mesma recuperação da auto-estima, ocorre a partir do momento em que as pessoas passam a se perceberem já não apenas enquanto alguém que cumpre obrigações, papéis sociais, mas como alguém com direito a existir, a ser ele mesmo, a pessoa, o ser humano que é, e não o eu os outros pensam a seu respeito ou o que os outros querem que a pessoa seja.

A pedagogia de Paulo Freire foi gestada em um contexto de mobilização social e política latino-americana e mundial, no fim dos anos 1950 e começo dos anos 1960. Era um período marcado por rebeliões estudantis e por mudanças políticas em direção ao socialismo. Em A pedagogia do oprimido, Paulo Freire questiona o revolucionarismo, como oposto à radicalidade. No primeiro, se mantém ou pretende-se manter a tutela sobre os oprimidos, em nome da sua libertação. A segunda, envolve uma mudança geral, em que os que tosas as pessoas se mobilizam na construção de uma sociedade emancipada.

As advertências de Paulo Freire resultam proféticas, olhando retrospectivamente o panorama dos processos políticos das últimas décadas no nosso continente e no mundo. Em particular, o agir dos movimentos guerrilheiros e dos regimes do chamado socialismo real, bem como as ditaduras e as suas continuidades neoliberais.

A vigência e o vigor da sua pedagogia permanecem atuais, na medida em que outros movimentos sociais, como a Terapia Comunitária Integrativa, aprenderam estas lições; cada um de nós é o mundo a ser mudado, e não há líderes nem partidos ou instituições que possam nos libertar, se não assumirmos nós mesmos a responsabilidade e as conseqüências de termos tomado a decisão de sermos os autores do nosso próprio destino, com autonomia.

(1) Alder Júlio Ferreira Calado. “Rastreando fontes da utopia freireana: marcas cristãs e marxianas do legado de Paulo Freire”: http://consciencia.net/rastreando-fontes-da-utopia-freireana-marcas-cristas-e-marxianas-do-legado-de-paulo-freire-por-alder-julio-ferreira-calado/

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