A nossa trajetória, objetivos e finalidades em um mundo (Igreja e sociedade) em mudança

O documento abaixo foi apresentado ao encontro realizado em Lisboa, dos grupos nacionais do Movimento Internacional Somos Igreja, em outubro de 2012.

QUEM SOMOS

Kairós-Nós Também Somos Igreja, secção brasileira do Movimento Internacional Somos Igreja -IMWAC, constitui um bem diversificado Grupo de cristãos e cristãs, principalmente do Nordeste do Brasil, que se quer de caráter formativo, informativo, celebrativo e atuante. Com perspectiva ecumênica, há reuniões semanais e atividades regulares desenvolvidas por seus componentes, junto a diferentes movimentos e pastorais sociais, comunidades eclesiais e outras organizações de base de nossa sociedade.

O Grupo foi iniciado em 1998, em torno de reuniões mensais na casa do teólogo Pe. José Comblin, a quem o grupo tem como principal referência em seu processo formativo sócio-eclesial. Devido ao interesse aí suscitado, e tendo em vista crescentes desafios atuais, o grupo decidiu, há vários anos, encontrar-se semanalmente, tendo como propósitos:

discernir, debater e ajudar a enfrentar os velhos e novos desafios, seja no âmbito macro-social, seja ao interno dos caminhos e descaminhos da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs;

fortalecer e tornar mais afetivos e efetivos nossos laços organizativos, numa dimensão comunitária;

estudar e refletir sobre livros do teólogo José Comblin, em especial os dedicados à compreensão da missão do Espírito Santo no mundo, na perspectiva da Teologia da Libertação, da qual ele é uma das primeiras referências;

debater textos de outros teólogos e teólogas, tais como Hans Küng, Carlos Mesters, Ivone Gebara, Jon Sobrino, Leonardo Boff, Eduardo Hoornaert, Jean-Yves Leloup, Hugo Echegaray, etc.;

intercambiar e refletir sobre relatos de nossas experiências de cidadãos e de cristãos junto às pessoas e às comunidades de distintos espaços de que participamos;

fazer memória dos acontecimentos, numa perspectiva de mútua ajuda;

fazer intercâmbio com pessoas e grupos de outros lugares, regiões e países, notadamente com os grupos de cristãs e cristãos empenhados na luta por mudanças libertárias na sociedade e nas igrejas;

organizar periodicamente seminários, colóquios, fóruns de diálogo com outros sujeitos históricos.

SOBRE NOSSAS ATIVIDADES EM BUSCA DE UMA SOCIEDADE E DE UMA IGREJA EM MUDANÇA

I O que entendemos por uma Igreja em mudança?

Como filhos e filhas de Abraão, e sobretudo como discípulos e discípulas de Jesus, aprendemos que o Povo de Deus sempre foi e segue sendo um povo de caminheiros, de migrantes, de gente sempre a caminho, peregrinos em busca de um continuo processo de conversão: conversão da morte em vida, das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade. Daí soar-nos familiar o que aprendemos da tradição: “Ecclesia semper reformanda”. Não apenas a comunidade eclesial, mas cada uma, cada um de nós é chamado a uma contínua e profunda renovação, não uma reforma superficial.

Resta a saber: mudar, em que sentido, em que direção? Não se trata de mera adaptação aos valores hegemônicos de nossa época, de modo a tornar-nos agradáveis aos tempos de hoje. Não seria isto, por certo, ser homens e mulheres do nosso tempo! Trata-se, sim, de um incessante esforço de mudança, na perspectiva do Evangelho, no espírito do seguimento de Jesus, cujo apelo implica efetiva solidariedade e compromisso com a causa de libertação dos pobres, marginalizados e esquecidos, de uma clara opção por um estilo sóbrio de vida, fora dos altos padrões de consumo, e de modo a testemunhar amorosidade em relação à natureza, aos humanos e a toda a comunidade de viventes, em especial os mais desprezados: as crianças, as mulheres, os jovens, os povos indígenas, os povos afrodescendentes, os camponeses…

A Igreja em mudança pela qual nos comprometemos, é a que se põe a serviço da causa libertadora dos pobres e pela dignidade da Mãe-Natureza. Isto requer profundas mudanças do atual paradigma eclesiológico, seja do ponto de vista de suas estruturas, seja sob a ótica de sua organização e de gestão, seja no que se refere ao estilo de vida de seus membros.

Não faz sentido, por exemplo, do ponto de vista evangélico, mantermos o atual modelo piramidal de Igreja, que mais se parece com uma estrutura imperial condenada por Jesus, em Mc 10, 42-45: “Entre vós, não será assim”. Precisamos inspirar-nos na forma de organização das primeiras comunidades cristãs, de feição horizontal, fraterna, solidária, protagonizada pelo povo dos pobres, atuando na liberdade e na autonomia das pequenas comunidades, orgânica e fraternalmente ligadas, por meio de periódicas assembléias, numa dimensão de serviço e não de poder de um sobre os demais.

Na tradição evangélica, em que buscamos inspirar-nos, não faz igualmente sentido uma Igreja organizada à feição de um Estado autoritário, com seus eficientes aparelhos de controle e repressão, hostis ao espírito de colegialidade. Queremos uma Igreja Povo de Deus, conforme o espírito do Concílio Vaticano II, uma Igreja formada por irmãos e irmãs portadores da liberdade do Espírito e dotados da mesma condição de igualdade para todos, para todas, conferida pelo Batismo e pelo discipulado de Jesus, que tendo vindo “para servir, não para ser servido”, também nos propõe, a nós membros de sua Igreja, a fazer o mesmo.

II O que vimos fazendo

Temos desenvolvido uma agenda bastante diversificada, conforme, aliás, o não menos diversificado perfil do nosso Grupo, do qual fazem parte homens e mulheres, católicos em sua maioria, mas também pessoas de outras igrejas cristãs.

Nosso grupo é ecumênico e eclético. Dele fazem parte pessoas nascidas no Brasil e fora do Brasil; é formado por pessoas de diferentes etnias, gênero e faixas de idade, de distintos níveis de escolaridade e integrantes de diferentes movimentos e pastorais sociais e outras organizações de nossa sociedade.

A partir desse perfil, podemos distribuir em três itens as atividades que temos desenvolvido: 1) as atividades rotineiras e de caráter intragrupal; 2) iniciativas de diálogo com outros grupos eclesiais e de outras igrejas; 3) atividades junto a movimentos sociais, a pastorais sociais e a outras organizações de base de nossa sociedade.

1) Atividades internas do nosso Grupo – Aqui assinalamos as principais atividades que realizamos em nossos encontros semanais, já há vários anos:

informações compartilhadas de intervenções dos membros do Grupo em diferentes atividades junto a movimentos sociais e organizações de base;

reflexão sistemática e compartilhada de obras de teólogos e teólogas da Libertação;

partilha de situações de vida por parte dos componentes do Grupo;

frequentes debates sobre elementos da conjuntura sócio-eclesial (internacional, nacional e local);

confraternização e celebrações especiais em algumas datas emblemáticas.

2) Iniciativas de diálogo com outros grupos – Além de nossas atividades rotineiras, também promovemos ocasiões de debate e de diálogo com outros grupos sócio-eclesiais, tais como:

seminários de Teologia;

sessões de memória de figuras emblemáticas (Dom Oscar Romero; Dom Helder Câmara; Pe. José Comblin);

encontros de intercâmbio com outros grupos eclesiais (grupos de Ação Católica, Pastoral de Juventude do Meio Popular, Movimento dos Trabalhadores Cristãos, entre outros).

3) Atividades em diferentes movimentos sociais, pastorais sociais e organizações de base – Parte expressiva do Grupo mantém atividades regulares junto a diferentes sujeitos sociais, tais como:

Movimentos Sociais (Movimento das Comunidades Populares – MCP, inclusive com participação em seu Jornal das Comunidades Populares; Assembléia Popular, Sindicato dos Trabalhadores em Extensão Rural, Movimento dos Trabalhadores Cristãos – MTC);

Pastorais Sociais e movimentos eclesiais (Comissão de Pastoral da Terra, Pastoral da Juventude do Meio Popular, Pastoral Operária, entre outras).

Organizações de base (Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM, Grupo de Assistência de Familiares e Amigos de Alcoólicos – ALANON, Cooperativismo inspirado na economia solidária, grupo de pesquisa sobre a América Latina contemporânea), educação popular.

III O que propomos aos demais participantes desse Encontro

Dentre as principais inquietações e propostas aos demais membros do IMWAC, destacamos:

articular mais expressamente, e de maneira regular, nossas análises críticas concernentes à Igreja, de forma historicamente contextualizada, de modo a refletir também as injunções históricas e macro-sociais;

exercitar, com incessante autovigilância, o espírito de colegialidade, ampliando a participação de mais pessoas do IMWAC, nos processos decisórios;

priorizar nosso olhar analítico (seja em relação à Igreja ou à sociedade) a partir dos excluídos de nossas sociedades (as mulheres, os pobres, os negros, os migrantes, os trabalhadores rurais e urbanos, etc.);

ampliar, de modo mais efetivo, nossa ação, investindo mais e melhor no intercâmbio com irmãos e irmãs de outros continentes;

priorizar as relações concretas e horizontais, para bem além dos contatos virtuais;

atualizar as contribuições da Teologia da Libertação, e suas aplicações no empoderamento de pessoas e comunidades, ecofeminismo, ecologia, relações inter-étnicas, etc.

prevenir toda forma de violência pública ou privada, de várias maneiras, dentre elas: a criação de vínculos comunitários e o fortalecimento da auto-estima.

defesa irrestrita dos Direitos Humanos.

valorizar o diálogo inter-religioso e a prática de uma espiritualidade integrativa e includente, sem fronteiras ideológicas, institucionais ou doutrinárias.

valorizar a afetividade e a sexualidade, como dons de Deus, e como formas de felicidade e de comunhão;

tornar mais efetivo o uso das línguas (Espanhol e Francês) no IMWAC, incluindo o Português;

ampliar o direito de voto para além dos representantes oficiais, ou seja, a todos os membros do IMWAC participantes nas assembléias decisórias;

João Pessoa, Paraíba, Brasil

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