A luta pela Reforma Agrária é de toda a classe trabalhadora

Ato na ABI em defesa da Reforma Agrária e Justiça no Campo. Foto: Henrique Zizo

“Carandiru, Candelária, Corumbiara, Felizburgo, Eldorado”. As chacinas ocorridas no campo e na cidade foram lembradas na emocionante mística de abertura da atividade do MST realizada na noite desta segunda-feira, 15 de abril, no auditório da ABI. Além do poema “A pedagogia dos aços”, de Pedro Tierra, também foram entoadas músicas de denúncia do latifúndio, como “Funeral de um lavrador”, de Chico Buarque. O ato por Reforma Agrária e Justiça no Campo faz parte da Jornada Nacional de Lutas, realizada todo mês de abril, em lembrança dos 19 tombados no Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996. 

Na mesa, estiveram presentes o coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile; a professora Virgínia Fontes, da Fiocruz; o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol-RJ); Rubens Casara, membro da Associação Juízes Para a Democracia (AJD); e Mário Augusto Jakobskind, da ABI. Uma das principais lições foi a conscientização de que a luta contra os latifúndios é de toda a sociedade, pois ao defender a Reforma Agrária defende-se um modelo alternativo de desenvolvimento, voltado para os direitos de todas as pessoas e não apenas para os interesses do capital. Um dos mais belos momentos da noite foi a homenagem ao lutador Cícero Guedes, que, nas palavras de Stédile, “pagou com a vida o sonho de ver a terra dividida”. Ele foi assassinado no início do ano em Campos dos Goytacazes. O deputado Marcelo Freixo ofereceu a Medalha Tiradentes à família do militante, em reconhecimento à sua luta e à dedicação por justiça no campo. Por sua morte, “nem uma vida de silêncio, mas toda uma vida de luta”, exigiram os presentes.

Luta por Reforma Agrária se soma à defesa da democratização da mídia

Jakobskind lembrou que a Geração de 68 conheceu a proposta de Reforma Agrária do governo de João Goulart, “o projeto mais progressista da história do Brasil”. Ele lembrou que junto à luta por Reforma Agrária está a luta pela democratização da mídia, pois “só assim teremos um país mais justo, com mais liberdade e democracia”. O jornalista defendeu outro modelo de comunicação, que esteja junto das lutas sociais e não criminalize os trabalhadores em suas mobilizações. Além da mídia, Rubens Casara destacou o conservadorismo do próprio poder judiciário, que trabalha diversas questões a partir de uma visão autoritária, como o tema da terra. “Os movimentos sociais são vistos pelo poder judiciário como obstáculos à manutenção da ordem”, afirma. Para ele, o primeiro passo é romper o silêncio para combater o conservadorismo e a violência no campo. “Só defendendo a Reforma Agrária poderemos realizar a democracia”, explica.

Exigir justiça no campo é defender a vida humana

Marcelo Freixo homenageia família de Cícero Guedes. Foto: Henrique Zizo

Freixo leu o editorial do jornal O Globo do dia 3/2/13, intitulado “A cada vez mais desnecessária Reforma Agrária”. O texto diz que “o latifúndio improdutivo foi extinto pelo avanço do capitalismo no campo” e que “a ideia da reforma agrária, do ponto de vista histórico, acabou”, sem fazer qualquer menção à falta de soberania alimentar e violência no campo. “Essa é a concepção de desenvolvimento que os empresários querem e que nós, de esquerda, temos que combater. É um modelo que defende o agronegócio e a concentração de terras, que aposta na monocultura e silencia sobre a escravidão e a violência no campo”, avaliou. Ele lembrou, por exemplo, que a agricultura familiar é responsável por 70% dos alimentos consumidos no Brasil, o que jornais como O Globo e outros não dizem. Concluiu defendendo um projeto de esquerda, voltado para a garantia dos direitos de toda a população.

A professora Virgínia Fontes, lembrando a mística inicial, se emocionou ao falar dos massacres da classe trabalhadora que vêm ocorrendo nos campos e nas cidades, dentro e fora das prisões. “Estamos falando de um contexto em que a ‘vida vale tão pouco do lado de fora da cerca’: a cerca do latifúndio, da grande propriedade capitalista. A cerca do capital”, afirmou, destacando que a luta por Reforma Agrária é também uma luta pela vida e pela resistência dos movimentos sociais. E disse que a tão antiga concentração de terras no Brasil não combina com uma verdadeira democracia. “É essa desigualdade que permite a repetição da truculência e do assassinato de lutadores e de jovens pobres no nosso país”, destacou.

“Temos que seguir denunciando as injustiças e os crimes no campo”, defende Stédile

João Pedro Stédile, coordenador nacional do MST. Foto: Henrique Zizo

 Por fim, João Pedro Stédile também homenageou Cícero e todos os demais mártires da história do nosso Brasil. São figuras que a “burguesia, com seus meios de comunicação, faz questão de apagar de nossa memória”. Para se ter uma ideia do tamanho da violência no campo, de 1985 até 2010 mais de 1600 pessoas foram assassinadas no Brasil. “Nós, do MST, aproveitamos essa semana de Jornada de Lutas para lembrar nossos Mártires, de Eldorado dos Carajás e de outros episódios. Também levantamos nossa voz para conscientizar a sociedade brasileira sobre as causas das mazelas sociais e da desigualdade”, explicou o militante.

Stédile também fez uma breve avaliação da situação dos trabalhadores do campo a partir de 1989. “De lá para cá, o neoliberalismo tomou conta e possibilitou que o capital se espalhasse na agricultura. Para intimidar os movimentos, vieram os massacres de Corumbiara (1995) e Eldorado dos Carajás (1996)”, avaliou. No Governo Lula, a situação de concentração não mudou muito e, e em 2004, houve mais dois massacres: Unaí e Felisburgo. “Além das batalhas perdidas, nesses oito anos de governo Lula se consolidou, na agricultura, o modelo de dominação do grande capital, com domínio total do agronegócio e controle das transnacionais”. Um exemplo recente foi a falta de comida gerada por uma terrível seca na região, enquanto o Brasil exportou uma grande safra de milho graças à ação de transnacionais como Cargill, Bunge e Monsanto. Ele lembrou ainda que os lutadores viraram réus para o poder judiciário, Ministério Público e o Legislativo, que também vêm lutando conta povos indígenas e quilombolas por serem barreira ao avanço do capital.

Frente a essa situação desoladora, Stédile convocou os presentes a seguir denunciando a impunidade dos crimes do Estado, a concentração de terra, as agressões ao meio ambiente e os transgênicos. “Também temos que apontar as contradições do agronegócio, como o agrotóxico e especulação do preço dos alimentos. Todo mundo fala do absurdo do preço do tomate, mas ninguém diz porquê. A luta pela Reforma Agrária é uma luta de toda a classe trabalhadora contra o capital e contra um modelo que só privilegia poucos”, destacou.

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