A luta negra ainda não acabou

jornal nuvem negra
Jornal Nuvem Negra, produzido por alunos negros da PUC/RJ. Foto: Reprodução Internet

Estou na Educafro, uma associação que promove a educação para afrodescendentes, há treze anos. Costumo dizer às pessoas que cai nela de paraquedas. Era aluno do pré vestibular comunitário na Vila Aliança, bairro da zona oeste do carioca, onde o coordenador Olir Fernandes trouxe para mim a responsabilidade de pegar todas as quintas feiras o jornal de concurso na sede e assistir as reuniões de coordenadores. Ao chegar à antiga sede na Praça Tiradentes, no Centro, deparei-me com um assunto que me perturbou por longos anos: a desigualdade racial.
A partir desse envolvimento sedutor, fui aos poucos sendo inebriado pela luta da causa negra. Quando cheguei a Educafro, estava na ebulição da implementação da cota racial na UERJ. Nossa! A Luta foi árdua, o tema caiu no colo das pessoas como uma bomba . Ainda era imaturo no assunto e já que estava querendo saber os porquês. Nada me impediu, ajuntei-me aos sábios militantes da organização e a outras pessoas simpáticas à causa. A partir desse momento importante da vida fisguei a oportunidade e fui à luta.
Era um tema tabu no Brasil. Afinal, estamos respirando o mito da democracia racial cuja teoria diz que todos somos iguais embora tenhamos tratamentos desiguais. Foram dúvidas que carreguei ao longo de boa parte da minha vida. A família, a religião e a escola não supriram as minhas necessidades ou perturbações. Vejo pessoas indiferentes à luta, mesmos entre os negros por seus vários motivos. Lamentável, mas faz parte da história.
Na última quarta feria compareci à cerimônia de lançamento do Jornal Nuvem Negra, de um coletivo de estudantes negros de uma das melhores Universidades do Brasil: a PUC, no Rio de Janeiro.
Esta universidade é a síntese de dois Brasis que se encontram num espaço historicamente dominado pela classe média alta do Rio de Janeiro e do Brasil. Em resumo, a universidade optou por um desafio de incluir em seus quadros alunos oriundos dos pré vestibulares comunitários. O morro, a periferia e o asfalto no mesmo lugar.
A cerimônia foi uma espécie de revigoramento para continuarmos na luta por direitos de igualdade e justiça. Quebrar o círculo vicioso da exclusão. Estavam militantes antigos da causa, como a professora Luíza Helena do departamento de Serviço Social da PUC, que sem medo do desafio abriu as portas da graduação para receber esses novos atores sociais que foram pioneiros. A presença dela é importante e simbólica, e nos mostra que a luta contra o racismo e a favor da igualdade é a luta de todos.
Conversei com alguns alunos de origem negra e não bolsistas da universidade, e perguntei o que achavam do projeto e o lançamento do Jornal. As respostas foram as mais variadas possíveis, num nível tolerável do debate. Não entrei no debate das cotas, que pra mim está superado há seis anos.
Os funcionários que estão há mais de 40 anos comentam que a PUC passa por uma transformação social até então nunca imaginada. O choque cultural, de classes, nos hábitos, espaços geográficos para todos os alunos e seus históricos de vida. Tudo isto se chama diversidade e diferenças. São palavras que precisamos trabalhar e conviver. Que o Brasil tem dívidas históricas com as minorias não participativas (pobres, negros, mulheres e LGBT) não é novidade. Tem que fazer mais e igualar esta dívida. Cabe aos movimentos de inclusão fazer por onde para pressionar por mais políticas públicas a fim de acertarmos as contas do passado com o presente.
Outra instituição de ensino superior que trabalha bem este conceito de diversidade estudantil é a Universidade Castelo Branco. Como ainda a luta é árdua, vejo defeitos nas duas universidades: ausência de professores negros nas cadeiras de mestrado e doutorado. Ainda não saímos dos 2% desse grupo.
O evento da PUC encheu-me de esperança, já que jovens continuarão na luta para a consolidação de espaços universitários mais coloridos e menos monocromáticos. As universidades americanas já experimentam estas experiências em seus campus de estudos.
O diretor da Universidade de Harvard, Jason Dyett, exemplificou a visão da universidade americana no jornal O Estado de São Paulo, no dia 30 de janeiro de 2014: “Há interesse da instituição em ter mais diversidade cultural em seu campus e atrair mais brasileiros. Como a maior dificuldade dos brasileiros é o idioma, o escritório decidiu fazer o programa em aquisição de idioma (…) O número de brasileiros em Harvard cresceu, mas o que a universidade quer é a diversidade do aluno brasileiro que estudou no sistema de ensino do País, que cursou escola pública, e não só em colégios americanos e britânicos aqui”, disse.
Aposto nesta geração de alunos bolsistas, cotistas e prounistas e nas gerações de professores universitários para dividirmos os mesmos espaços e darmos continuidade à luta. A política de ação afirmativa não será eterna. Não queremos. A luta por mais direitos e igualdade não é solitária, mas com todos que se sensibilizam com as injustiças e suas formas de atuação.

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