
No segundo dia do seminário Comunicação e Ação Afirmativa: O Papel da Mídia no Debate sobre Igualdade Racial, realizado na Associação Brasileira de Imprensa, no dia 15 de outubro, ocorreram duas mesas de debates que foram regidas novamente em seguida à exposição do manifesto assinado por diversas entidades do movimento negro. A primeira contou com a participação de Muniz Sodré, professor da ECO/UFRJ e presidente da Biblioteca Nacional, e da jornalista Márcia Neder, da revista Cláudia, com intermediação de Carlos de Medeiros (Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial do Município do Rio de Janeiro).
A jornalista Márcia Neder começou discorrendo sobre o histórico da revista Cláudia, segundo ela há 48 anos na liderança das revistas do gênero feminino. Antes de mencionar a questão racial, ela ressaltou “a questão da mulher que foi vítima de preconceito em várias áreas, uma luta muito dura para se inserir”. Neder defende que a revista sempre fale de racismo nas suas variadas formas, mas ponderou que “a mídia não é uma ONG, um partido político, ela reflete a sociedade e a sociedade brasileira é racista”.
Questionada sobre quantas mulheres negras posaram para a capa da revista, ela defendeu que a questão é mais ampla, pois não se vê mulheres feias, velhas ou gordas na mídia, é uma estética criada pela sociedade. Para ela o perfil que menos aparece é a mulher oriental, porque a revista tem de responder ao que a sociedade quer, ela não está dissociada do processo: daí a publicação de capas com Camila Pitanga, Thaís Araújo e Naomi Campbell, apresentadas como exemplos de negras já publicadas na revista.
O professor Muniz Sodré se apresentou como um cidadão negro e não antropólogo ou sociólogo. Começou levantando reflexões sobre as pessoas que discordam das suas posições, inclusive na universidade, muitas delas claramente de direita mas que não são racistas. Após citar uma fala de Joaquim Nabuco, um dos ícones da campanha abolicionista, criticou: “as bases da organização nacional continuam prorrogadas no Brasil, juridicamente e economicamente”.
Para ele há também “uma saudade da escravidão por parte da mídia e das classes dirigentes, porque esse é um país patrimonialista onde a riqueza vem do nascimento e a cor faz parte do patrimônio pela discriminação”. Em relação às ações afirmativas, ele relatou sua trajetória em 40 anos na UFRJ, como o único professor negro: “isso porque eu sou um negro pálido, são oligarquias setorizadas, as universidades são discriminatórias, sobretudo os concursos”, observou.
Ainda sobre as universidades ele comentou que se torna cidadão aquele que é visível na sociedade, além de ser importante a visibilidade de si mesmo num espaço colonizado pela aparência branca: “a colorização é importante, a lógica da aproximação, freqüentar lugares que barreiras históricas impediram, eu quero é que o outro se aproxime”, concluiu.

No final da tarde a mesa foi composta por dois pesquisadores, João Feres (Iuperj) e Rosângela Malachias (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – Ceert), junto à jornalista Miriam Leitão, de O Globo. Os dois primeiros expositores apresentaram seus dados coletados em estudos sobre a veiculação da mídia a respeito das políticas de cotas raciais. “Vocês não têm noção do que é ser um centro de estudos dos negros dentro da USP”, mencionou Rosângela sobre as dificuldades que enfrenta no Ceert, cuja finalidade da entidade na formação de gestores e educadores ela descreveu em seguida.
Ela pesquisou as matérias opinativas na Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo, além das revistas Veja, Época e Isto é, entre os anos 2001 e 2008, de acordo com palavras-chave em relação às cotas. Foram encontradas 1.029 matérias nos jornais e 121 em revistas: “os jornais são contra a criação de políticas que incentivam a mobilidade dos negros no Brasil”, constatou. E finalizou, depois de outras apresentações, destacando a necessidade de controle social no que é veiculado nas mídias, exemplificando com as TVs que são concessões públicas: uma atriz negra da Globo, Juliana Alves, já apareceu numa novela da rede lendo o livro “Não somos racistas”, do diretor de jornalismo da organização, o Ali Kamel, um mershandising irradiado por todo o Brasil sem o contraponto.
Também com um estudo de mídia sobre a questão das ações afirmativas, João Feres apresentou, dentre outras pesquisas, a realizada com a revista Veja. Entre os anos 2005 e 2009 ele encontrou 66 artigos, classificados em contrários, favoráveis, ausentes e ambivalentes, além da evolução temporal, distribuição gráfica e outros detalhes: 77% foram contrários, 14% favoráveis, 6% ausentes e 3% ambivalentes às cotas raciais.
Para encerrar sua fala, ele mencionou a pesquisa do Datafolha que apresentou 65% da população brasileira a favor das cotas raciais: “a gente tem um problema sério sobre se a mídia reflete ou não a sociedade, nesses dados ela não reflete. É um dos principais problemas da democracia brasileira. No Rio de Janeiro o problema é maior com o oligopólio da Globo, um problema sério tanto da democratização do conteúdo quanto da propriedade: a própria postulação do problema não tem espaço, como faremos?”, questionou.
A jornalista Miriam Leitão confirmou “essa sensação dos participantes sobre o posicionamento das empresas a partir de determinado momento que se extravasou para as reportagens”. Para ela o debate sobre a questão negra foi escamoteado pela sociedade, porque tem raízes muito profundas, mitos foram construídos para fazer prevalecer o pensamento hegemônico: “o racismo brasileiro é muito bem sucedido, os brancos não se incomodavam nem se incomodam com a sua hegemonia na elite brasileira”, disse.
A resistência em mudar é muito grande e “a cota é uma ferramenta que pode servir em outras etapas para o Brasil se encontrar com ele mesmo, pois a narrativa do Brasil não é a sua própria”, complementou. Voltando à questão da imprensa, questionada sobre o controle social da mídia, Miriam observou que estamos passando por uma revolução tecnológica em que as coisas estão mudando cada vez mais rapidamente.
“As pessoas têm mídias sociais, os consumidores da informação têm o poder nas mãos e devem produzir sua própria rede”, comentou associando à vitória de Obama nos EUA e defendeu que prefere isso ao controle concentrado em algumas pessoas: as mudanças na lei argentina, elogiadas pelo pesquisador, foram criticadas pela jornalista em seu argumento. Por último ela reforçou o fato de que “o país não enfrentou de frente ainda que temos um problema e precisamos resolvê-lo” e “o que mais incomoda é dizer que o Brasil não é racista, porque não permite o debate”.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/
