A grande tragédia brasileira

Imagem: ceranjagi.wordpress.com
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Passei uma semana convivendo com refugiados na Grécia. Uma das experiências me marcou profundamente: o mais jovem, de Gana, era um dos 16 que estavam em uma tenda minúscula num campo com acomodações terríveis, inimagináveis. “Somos uma família”, me disse, explicando como não se conheciam direito, mas agora tudo dividem. “Dá para ele [aponta], ele é o mais velho”, completou ao receber um material que eu entreguei ao grupo.

A gente lê sobre isso, mas vivenciar é ‘aterrorizante’: a nossa “cultura ocidental” dita “civilizada” é um arremedo de desejos individualistas egocêntricos, com cada um por si. Vivenciar outra cultura como aquela é um tapa na cara: a coletividade está acima dos egos. Eles viviam na pior situação possível sem esquecer sua filosofia.

Há três dias eu cheguei no Brasil. Hoje fui pela primeira vez a um mercado comprar frutas, algo aparentemente banal. Um pouco mais caro, mas paciência: estou cansado, vai ser aqui mesmo. Nesse mercado encontra-se a nata da classe média metida a rica do meu bairro. Nunca devemos generalizar – mas a quantidade por metro quadrado é impressionante. Estou calmo, reenergizado com tamanha solidariedade encontrada no lugar mais improvável, de acordo com os nossos padrões idiotizados pela mídia, que foi o campo de refugiados.

Eis que um exemplo da espécie aparece: diz estar na fila e fazer compras, ao mesmo tempo. Ele atrapalha a fila, confunde três pessoas que imaginavam estar vago o espaço e sempre volta, arrogante: estou na fila, você não viu? Eu não tinha visto mesmo. Passei. Descobri que era um holograma só depois.

“É, não te vi”, disse. “Pode passar.” A resposta: “É óbvio que eu vou passar”. Ao que eu explico que achei que ele estava fazendo compras e, portanto, não estava na fila – com o carrinho já perdido a dois metros de distância. Por isso passei. No que ele responde – veja bem – me AMEAÇANDO: “Passa só pra ver o que acontece”.

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Eu passei os últimos seis, sete anos fazendo uma longa reflexão sobre o que se convencionou chamar de “brasileiro”. O médio, diríamos. Não aquele super solidário, nem o que aumenta o preço da água durante uma seca. O médio. Eu li muitas obras durante esse período sobre brasilidade, história, cultura nacional – e a minha única (e frágil) conclusão é a de que esse “brasileiro” existe. Resta saber o que é.

Nesses anos, sucessivos acontecimentos como o do indivíduo-ego acima eram registros vivos, para mim, do que Ribeiro Couto chamou de “homem cordial”, expressão posteriormente emprestada a Sérgio Buarque de Holanda, que a desenvolveu. Não confundam “cordial” com “bom”, “educado” – ele é, se é que dá pra resumir, visceralmente inadequado às relações impessoais que se colocam pela sociedade para ele, demonstrando no entanto uma suposta afetividade.

Eu conheci até hoje uns 7, 8 países, buscando sempre conversar ao máximo com as pessoas comuns, além de ter conhecido cidadãos no meu trabalho de incontáveis países. A cada dia que passa, cresce assustadoramente a impressão de que o brasileiro é o povo mais afetuoso entre os que vi – e o mais individualista e egocêntrico. Nos anos 1930, Buarque de Holanda previu nossa tragédia.

Deveríamos refletir profundamente sobre que tipo de sociedade somos – e qual a nossa contribuição individual para esse estado de coisas. Ao olhar para a elite política brasileira, alguns veem o horror. Eu preciso admitir para vocês minha posição cada vez mais frequente, que é o que tem tirado por muitas vezes o sono: estamos diante do espelho.

Somos um país que raramente entrou em guerra ao longo de sua História, mas que está em uma permanente guerra individualista, onde perdem mais frequentemente – evidentemente – os mais pobres, os destituídos de poder e influência.

Eu adoraria classificar o ego ambulante do mercado de “babaca”: seria reconfortante, além de eventualmente ser verdade. Infelizmente, estamos de uma alternativa assustadora: ele pode ser o cidadão médio, a ponto de toda uma classe política estar ali parcialmente representada. É esse indivíduo o mesmo que vai possibilitar que um governador tenha conseguido, junto com sua mulher, desviar mais de 6 milhões de reais em joias.

Qual projeto político prosperará com uma sociedade doente como a nossa? Como uma cultura tão egocêntrica e incapaz de sequer reconhecer essa trágica situação vai gerar um governo honesto?

Eu honestamente não vejo saída rápida. Desculpem os que acham que temos uma crise institucional: discordo. Temos uma crise de valores, com profundos reflexos institucionais. Olhamos muito para cima, sem nos darmos conta de que não estamos olhando nem para o lado nem, pior, para dentro.

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Qual a grande ironia dessa reflexão? Em geral há quem diga que eu ficaria deprimido por visitar um campo de refugiados. Fiquei mesmo. O motivo: os refugiados me ensinaram um pouco mais de humanidade, enquanto os brasileiros continuam me ensinando o ódio e o desprezo pelo coletivo.

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