A ferida que não se fechou

charge taveiraPor Fábio Nogueira e Fábio Lima,
Ontem à tarde, estava numa conversa com um amigo e a pauta era para variar a crise política do Brasil. No meio do debate esse meu amigo lembrou-me da criação da República. Seu nascimento é decorrente de golpe, e pensávamos que a experiência do golpe era coisa de cinquenta anos atrás. Pensava, fui enganado.
Não houve diálogo com a monarquia, sequer um processo de transição para que não houvesse traumas e sequelas no futuro. Tomou o poder à força. A República nascia corrompida, violenta e excludente. A participação popular foi nula, o povo assistiu a tudo bestializado, como já dizia o professor em História José Murilo de Carvalho em sua obra “Os bestializados”. Por que, então, a surpresa hoje? As táticas mudaram. Não há necessidade mais de armas e violência. Os velhos hábitos truculentos foram substituídos por instituições legitimadas e necessárias em qualquer país sério. Com a canetada de juízes e políticos corporativistas, a ajuda preciosa da mídia e o apoio logístico dos empresários não tinha por que o golpe chapa branca dar errado. Nada é coincidência.
Em cento e vinte anos de republicanismo, onze presidentes da República não conseguiram concluir os seus mandatos. Algo errado? Estávamos num período tranqüilo, de términos de mandatos, independente da ideologia. Tínhamos a ideia que estávamos no caminho certo. Em 1995 começa esta fase que terminou ontem, um duro golpe na democracia. O tempo não perdoará.
O governo Dilma cometeu inúmeros erros, como qualquer outro presidente faria. Crise econômica, impopularidade e pedaladas fiscais nunca foram motivos para romper o mandato de qualquer chefe de governo do Brasil. Países com fortes laços democráticos não permitiriam que um vice-presidente conspirasse para derrubada de uma presidente eleita democraticamente, entretanto a república nunca foi o exemplo correto. Foi a república que inaugurou a série de golpismos que conhecemos. Pena.
Novamente passamos por uma manobra econômica e política totalmente controlada pelos interesses norteamericanos. No ápice de querer combater a corrupção, o ódio e a ira caíram justamente para a única pessoa sem o rabo preso. Um ódio misógino, um ódio infantil, um ódio cordial. E em seu lugar, ressurgindo dos antigos museus da ditadura, surgem os dinossauros políticos.
Um terço do novo ministério está com nome sujo na lista da Lava Jato e todos ganham foro privilegiado. O mesmo foro que a oposição do PMDB lutou para retirar do Lula quando este foi escalado para ser Ministro da Casa Civil. Mulher e Negro não têm representação alguma, e ainda tiraram no pacote o Ministério da Cultura. Os nossos povos originários já se veem ameaçados e mortos pelos poderosos da Agropecuária. Um bispo no ministério da ciência e tecnologia. O mesmo que ia aos espetáculos da Fé e dizia que o homem no palco só tinha uma célula no corpo. Filosofia e Sociologia vão embora junto às “Escolas sem Partido”, que até Darwin (Evolução das Espécies) é punível ao professor ensinar. E não ouse contestar Adão e Eva, porque voltamos a Era das Trevas.
E aonde está o povo? Refém. Em dúvida. E principalmente insatisfeito. Refém pelo trabalhador que tem seus direitos extintos e começa a ver que as contas só sobem e o dinheiro não dá há muito tempo. Em dúvida em quê acreditar, o circo que foi esse impeachment, a mídia fora de contexto com a realidade e se haverá um futuro para todos. Insatisfeita em ver um bando de empresários brancos brincarem de “jogo da vida” com as suas vidas.
Não sabemos o dia de amanhã, a história não nos concede esse privilégio. Sabemos que estar para vir outra geração, que nos cobrará muito por esse momento nebuloso da história política do Brasil. Daqui a vinte anos, não saberemos o que dizer para os alunos nascidos hoje. Menos ainda dirão os livros de história e os historiadores.
Ano que vem estarei graduando-me em história, disciplina que tem me ajudado a expulsar os “demônios” da minha cabeça. Por isso, agradeço todos os meus professores, colegas e amigos que fazem parte dessa minha trajetória e a cada dia têm enriquecido o meu conhecimento para entender melhor o nosso país .
(*) Fábio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro.
Fábio Lima é ativista da causa indígena e futuro professor de história.

Deixe uma resposta