Maureen Fieldler
Nos círculos católicos de hoje em dia, as discussões sobre o futuro da vida religiosa feminina são muitas vezes acompanhadas de gemidos, suspiros e lamentos. Jovens já não entram mais para a vida religiosa, as comunidades estão envelhecendo e algumas comunidades podem deixar de existir nos próximos vinte a trinta anos. As conversas por vezes viram saudosismo pelos “velhos tempos de vacas gordas”, quando os noviciados estavam cheios a ponto de transbordarem, candidatas vinham bater à porta.
Essa costumava ser a minha atitude. Eu muitas vezes ficava preocupada com a idéia de que a vida religiosa, à qual pessoalmente me sinto chamada, pode desapararecer nas duas próximas décadas. Mas agora, estou convencida de que eu estava fazendo as perguntas erradas e aqule saudosismo dos bons velhos tempos é, provavelmente, um desperdício de energia.
Talvez o modelo de “vida consagrada” que nós temos experienciado esteja evoluindo e deva evoluir, pois assim tem sido, desde os tempos das mães e dos pais do deserto. Então, eu me propus a explorar novos modelos de compromisso.
Quero, no entanto, ser clara: eu não estou escrevendo da vida religiosa, como a conhecíamos. Embora, nos dias de hoje, seja aparentemente atraente para bem menos jovens, provavelmente assim continuará, embora com números mais baixos. É bom lembrar-nos de que a quantidade das que hoje entram para a vida religiosa é muito semelhante à que havia na década de 1930. O grande impulso de vocações veio após a Segunda Guerra Mundial. Quem sabe quando virá a próxima onda?
Dito isto, o maior necessidade hoje é a busca de novos modelos de vida comprometida para o século XXI, é descobrir como o conceito e a realidade de uma vida comprometida estão evoluindo e podem evoluir ainda mais, no século XXI. Tais vidas oferecem serviço real e necessário para nossa Igreja e nosso mundo.
Eu emprego a expressão “vida comprometida” muito propositadamente. Designa um compromisso de vida que vai além das exigências do Batismo, mas ela não abrange necessariamente os três votos – pobreza, castidade e obediência – que são o centro da vida religiosa.
Um incidente que me fez pensar sobre isso foi um encontro sobre a condição de co-membros (“co-membership”), na Comunidade de Loretto, minha comunidade religiosa. No final de 2012, Martha Alderson, que estava então coordenando nosso programa de “co-membros” (“co-membership”), comentou que ele tinha, então, tantas pessoas como candidatas a serem “co-membros”, que (o programa) foi estendido por maistempo! Ela se viu assoberbada de trabalho para responder aos pedidos de informação e gestão do processo de co-membros (“co-membership”), para aquelas que já haviam iniciado sua jornada.
Isto me surpreendeu como uma faísca de relâmpago. Talvez haja aí um recado, um “sinal dos tempos”, no sentido que quis dar o Concílio Vaticano II.
A iniciativa de “Co-Membership”, em Loretto, começou em 1970 e, mesmo assim, a nossa então Presidenta, Helen Sanders, insistia em que esses novos membros deviam ser chamados “co-members”, não associadas. A visão requereu tempo para se desenvolver, mas depois de 42 anos, essas sementes estão dando frutos.
Nos primeiros anos, a maioria dos “co-members” era formada por ex-membros já com votos pronunciados que haviam deixado a Comunidade para se casarem – ou por outras razões – mas querendo permanecer em contato e particiapar, em algum nível. Muitos desses co-membros foram e continuam sendo, com frequência, pessoas que conhecemos e que trabalham nas escolas ou em serviços comprometidos com a justiça.
Mas hoje, os co-membros estão crescendo de modo mais diversificado. Os co-membros atuais recrutam novos co-membros. Embora a maioria esteja na altura dos 50 anos ou mais, alguns estão na casa dos 20 ou 30 anos. A maior parte é de casados. Alguns têm ligação menos direta connosco do que aquelas primeiras que participavam do programa. Temos um casal de presbíteros, e ficamos orgulhosas por contar com o Bispo Charles Buswell, de Pueblo, Colorado, como um co-membro do Grupo, até o seu falecimento.
Numa época em que tão pouca gente se mostra interessada numa adesão tradicional, com votos pronunciados, por que será que o nosso programa de co-membros está decolando? Por que será que ele é atraente para muitas pessoas?
Não é por ser fácil. Em Loretto, os co-membros não são apenas auxiliares leigos ou um grupo de adesão em razão do sua função. Por ser um grupo, isto requer compromisso real, e o processo de se tornar um grupo leva cerca de dois anos, em média.
Muitos põem o foco no Ministério universal de Loretto: “Trabalhamos pela Justiça e atuamos pela paz”. Na minha experiência, é esse impulso, esse carisma – como também o desejo de fazer parte de uma comunidade com tal mentalidade e sua espiritualidade – que atraem a maioria dos co-membros. Na verdade, muitas vezes pensei que, se tivéssemos um voto comum a todos os membros, esta seria sua essência: “Trabalhar pela justiça e atuar em favor da paz”
As pessoas que são co-membros, é claro, não fazem os três votos tradicionais, mas desenvolvem e fazem publicamente seus próprios compromissos.
Quaisquer que sejam suas promessas declaradas, os co-membros são acolhidos no coração da Comunidade, onde eles participam de grupos comunitários (as unidades comunitárias de base), assembléias, liturgias e celebrações.
Os co-membros servem nas comissões, às vezes assumem posições pessoais e podem ser eleitos para o Fórum, um grupo de lideranças que se reúne regularmente para fazer avaliações, pareceres e recomendações sobre questões não-canônicas. (Eles não temem, porém, em dar seu parecer sobre qualquer assunto.)
O grupo de co-membros inclui homens e mulheres, casados ou solteiros, homo ou hetero-sexuais, católicos e os de outras tradições de fé que se afinam com o espírito de Loretto. Neste nível, os co-membros são ligeiramente mais numerosos do que os membros professos. No grupo de minha própria comunidade, há 14 co-membros, inclusive, para 2013, três casais.
Numerosos são os xemplos de compromissos assumidos pelos co-membros pela justiça e pela paz. Um grupo passou anos trabalhando com as vítimas de tortura. Um outro se juntou a uma delegação ecumênica com destino ao Vietnã, para investigar os efeitos nefastos do agente laranja naquele país. Um co-membro coordenou, durante anos, o nosso programa de voluntariado, enquanto seu marido, também um co-membro, contribuiu fortemente para o desenvolvimento e a utilização da tecnologia de Internet na Comunidade. Outros ainda facilitam reuniões, coordenam o escritório de nossa organização não-governamental nas Nações Unidas e organizam “experiências de fronteira” para nos ajudar a compreender a situação dos imigrantes.
Alguns co-membros trabalham no exterior com pessoas pobres: no Haiti, na Guatemala e na Nicarágua. Ainda, outros vivem na Casa Mãe, onde promovem vida ecológica e coordenam os cedros da paz, um grupo de casas que são usadas por pessoas que procuram a solidão orante por algumas semanas ou meses.
Seja como for, a condição de co-membros é uma forma de vida comprometida. Não é “vida religiosa”, mas é uma forma real de compromisso, no entanto, e estou confiante de que vai continuar a evoluir.
Essa forma adesão como co-membros em Loretto é apenas um exemplo do que é possível na Igreja contemporânea, se nos desprendermos dos velhos antolhos e deixarmos que voe nossa imaginação espiritual.
E sobre uma coisa temos que ser claros: a vida religiosa e as formas de vida comprometida sempre evoluíram na história da Igreja. Pensemos nos pais e mães do deserto, nos primeiros séculos, que se empenharam em desenvolver um tipo de vida cristã comprometida, muito antes que a vida religiosa formal tomasse forma. Consideremos os primeiros Beneditinos, que acreditavam que a estabilidade em um mosteiro era parte de um compromisso religioso. E lembremo-nos, em seguida, dos mendicantes Franciscanos e Dominicanos, que rejeitaram a estabilidade para que pudessem movimentar-se, implorar por suas necessidades, misturar-se com os pobres e pregar a Palavra.
Lembremo-nos das lutas das Religiosas que tentaram sair do claustro e envolver-se em ministérios ativos com os pobres e oprimidos nos séculos XVII, XVIII e XIX. Lembremo-nos do desenvolvimento dos institutos seculares e de grupos como o Graal. Pensemos nas Casas do Trabalhador Católico onde seus membros vivem com simplicidade e sem violência, servem os pobres e trabalham pela paz, mesmo correndo o risco de serem presos por seus protestos. A evolução da vida comprometida não é novidade. Ela está sempre evoluindo e vai continuar a evoluir – se nós só “dançamos com o Espírito!”
Fonte: http://ncronline.org/news/sisters-stories/evolution-committed-life-21st-century
Tradução: Alder Júlio Ferreira Calado)
