A estratégia política dos EUA em relação ao Brasil

As dimensões geográficas, demográficas e econômicas do Brasil, seu potencial, sua privilegiada posição geopolítica e geoestratégica no continente sul-americano, voltado de frente para o continente africano, o tornam o único possível rival à influência hegemônica dos Estados Unidos no Hemifério Ocidental Sul.
Assim, a estratégia estadunidense geral visa preservar a aproximação com o Brasil, aumentar a sua influência sobre a elite brasileira, convencê-la da inevitabilidade, irresistibilidade e dos benefícios da influência hegemônica e da liderança norte-americana no hemisfério. Em segundo lugar, cooperar para que o país se mantenha como ponto de equilíbrio ao sul, mas que ao mesmo tempo não se desenvolva, econômica e militarmente, em níveis que possam torná-lo competitivo com os Estados Unidos, em termos de influência econômica e política, na região do Hemisfério Ocidental.
Desta forma, ao mesmo tempo em que se aplicam ao Brasil alguns dos objetivos estratégicos em nível mundial e para a América Latina, é possível identificar objetivos estratégicos específicos da superpotência hegemônica para o Brasil.
Do ponto de vista de sua estratégia militar, os EUA têm procurado, em primeiro lugar, manter a influência americana sobre a doutrina e o equipamento militar brasileiro, enquanto, a partir da queda do Muro de Berlim e dentro do enfoque geral de desarmamento da periferia, argumentam que a inexistência de inimigos, ameaças, visíveis no momento atual, fazem prever uma era de paz perpétua, em que as Forças Armadas brasileiras devem ser reduzidas em efetivos e se adaptar à luta contra os “novos inimigos”, quais sejam, o narcotráfico, o terrorismo, etc. Em segundo lugar, sua estratégia tem como objetivo evitar o surgimento de uma indústria bélica brasileira de nível competitivo e, muito em especial, evitar a aquisição pelo Brasil de tecnologias de armas modernas e de destruição em massa.
A estratégia política norte-americana em relação ao Brasil tem como seu principal objetivo apoiar os governos brasileiros que sejam receptivos à iniciativas políticas americanas no hemisfério e em geral e, simultaneamente, manter canais abertos ao diálogo com a oposição, mesmo a oposição a esses governos “simpáticos”. Como corolário desse objetivo maior, a estratégia estadunidense procura evitar a articulação brasileira com outros Estados que possa pôr em risco a hegemonia e a capacidade de negociação americana.
Um aspecto de sua estratégia tem sido convencer a sociedade e o governo brasileiro da “culpa exclusiva” brasileira pela situação de direitos humanos no país e pela situação de subdesenvolvimento em geral e até eliminar o conceito de “desenvolvimento”, substituindo-o pela noção de injustiça. A lapidar frase “O Brasil não é mais um país subdesenvolvido, é um país injusto” reflete, cabalmente, a equivocada percepção de um amplo setor da intelectualidade brasileira, e que é, cada vez mais, desmentida cotidianamente pela realidade.
No campo econômico, a estratégia americana tem como objetivo máximo assegurar a maior liberdade de ação possível para as empresas americanas, evitar o surgimento de empresas competidoras fortes de capital brasileiro no Brasil e, como corolário, reduzir o papel do Estado como investidor, regulamentador e fiscalizador da atividade econômica. Secundariamente, porém certamente de forma complementar, procura sugerir com insistência a adoção de políticas de “crescimento” econômico com base em vantagens comparativas estáticas e propugnar o combate assistencial à pobreza de preferência a uma estratégia de desenvolvimento econômico e social.
A estratégia ideológica, que é central para todas as demais, procura convencer a elite e a população brasileira do desinteresse e do altruísmo americano em suas relações com o Brasil, inclusive com o objetivo de garantir o apoio da elite brasileira à idéia de liderança americana benéfica no continente e no mundo. Para atingir tais objetivos, a estratégia estadunidense considera como imprescindível garantir o livre acesso dos instrumentos de difusão do American Way of Life à sociedade brasileira e formar grupos de influência norte-americana no Brasil e, como meio, formar a elite brasileira em instituições americanas.
Como reverter essa influência nefasta para a Nação? Eu diria que através de medidas governamentais – abrangendo o amplo espectro da tecitura social -, no sentido de esclarecer a sociedade brasileira das mazelas do Neoliberalismo e do “atrelamento automático” aos ditames da superpotência mundial. Faz-se mister conscientizar e mobilizar as elites brasileiras no sentido de que dispam-se do comodismo e assumam atitudes corajosas objetivando reeducar as nossas lideranças e o povo em geral, criando condições favoráveis ao florescimento de uma atitude mais nacionalista, mais patriótica e mais favorável ao surgimento de um desenvolvimento autóctene, sem a intromissão de potências estrangeiras em assuntos de natureza interna, em nosso país.
(*) Coronel-aviador, conferencista especial da ESG, membro do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e vice-diretor do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Artigo publicado no Monitor Mercantil.

8 comentários sobre “A estratégia política dos EUA em relação ao Brasil”

  1. O Brasil tem condiçoes de ser uma potencia mundial superior aos EUA, devido às nossos vastos recursos naturais e ao clima muito favorável, entre outros.
    A análise do coronel é correta em geral, precisamos sim valorizar a nossa integraçao com os outros países latino-americanos, principalmente sulamericanos, para formar um bloco forte economicamente onde os EUA nao tenham influencia decisiva.
    Precisamos conquistar urgentemente nossa soberania e a melhor forma para isto é somando forças principalmente com nossos vizinhos e irmaos latinoamericanos.
    Porque a potencia imperirialista do norte já mostra suas garras para o nosso lado, com descarada a a instalaçao das bases militares estadunidenses na Colombia, ameaçando a soberania de toda a América do Sul.
    Se nao nos integrarmos para nos defender, vamos perder todo o petróleo venezuelano e brasileiro, nossas águas, nossa biodiversidade, …
    Enfim, seremos, de fato, apenas inquilinos morando de aluguel [caro] nestas terras, de propriedade dos EUA …
    Apenas escravos descartáveis a seu serviço …
    O momento é grave e precisamos realmente tomar posse soberana do que temos, ou perderemos tudo definitivamente!

  2. Bom e preciso, mas uma parte da elite brasileira acredita em tudo que falam…a campanha da grande imprensa, dos neoliberais comandados pelo incompetente FHC mostram uma parte disto. O texto é bom e causa surpresa ser escrito por um militar.

  3. Acho muito fácil relegar aos outros a culpa por nossas mazelas. Os EUA teriam, assim, o primeiro caso de sucesso do “Dilema de Garrincha”, sem combinar com a outra parte venceu. Se assim foi, como diz o Coronel-Aviador, mais um motivo para aprendermos com eles.

  4. Os militares estão em muita dívida com o povo brasileiro. Entre os muitos países latino-americanos que sofreram golpes opressores, mediáticos e censuradores, o Brasil é, se não me engano, o único que ainda não trouxe os traidores, torturadores e seus comandantes, a serviço da ditadura militar, à justiça, como deve ser feito e o fizeram na Argentina e no Chile.
    Talvez devêssemos ter um convênio de treinamento de soldados brasileiros com a guarda nacional da Venezuela, que demonstraram verdadeiro patriotismo e heroísmo, restituindo o presidente eleito ao poder e, com isso, a soberania, democracia e dignidade do país e do povo, contra o golpe militar de 2002.
    Ao contrário, mandamos soldados brasileiros prá serem ‘cascos azuis’ da ONU, que invadiram e ocupam o Haiti, a serviço dos impérios do norte (Canadá, França e EEUU), onde depuseram o presidente eleito, Jean-Bertrand Aristides.
    Deixamos de vender aviões tucanos à Venezuela, devido a uma restrição imposta pelos EEUU http://www.greenleft.org.au/2006/655/7487
    A história nos diz que as forças armadas do sul são a primeira arma de ataque do império estadunidense, não precisa invasão a princípio, pois o exército já está dentro do território a ser golpeado e explorado. Como Chávez continua presidindo Venezuela, devido ao fracassado golpe militar de 2002, agora estão mandando forças beligerantes estadunidenses à Colômbia entreguista de Álvaro Uribe.
    Se o milico estiver realmente interessado em defesa do nosso patrimônio e do povo brasileiro, proponho que vá investigar se ainda estamos mandando soldados a serem treinados na famigerada escola das américas, http://www.soaw.org/article.php?id=233 agora denominada whinsec, nos EEUU. Pois esses tais soldados serão os primeiros a infringirem a ordem constitucional e trair a nação brasileira, quando convir às elites podres e corruptas, pois soldados são uns ‘yes-man’: treinados a serem subservientes, a obedecer e não questionarem ordens ‘superiores’, como fazem atualmente, em Honduras.
    Precisamos também de uma mídia brasileira independente, a exemplo da Telesur, Democracy Now, Al-Jazeera, etc. A corja que está aí, só faz propaganda enganosa e desvirtua o jornalismo sério e investigativo, que deveria prestar serviço ao público, não aos interesses de marqueteiros aproveitadores, que fazem eleger devastadores do meio ambiente como Blairo Maggi e avançar interesses do agronegócio, dos transgênicos, multinacionais como Monsanto, FMI e banco mundial.
    Só a verdade (e honestidade) nos libertará.

  5. Parabéns, Coronel Manuel.
    Alguns dirão que você é louco. Está tendo alucinações.
    Muitos bons brasileiros, com quem converso, estão, de boa fé, crentes que temos mesmo que nos conformar e aceitar a “liderança” dos EUA.
    E, tenho certeza, você não se refere ao povo dos EUA, mas aos “sábios” de lá. Se não conseguem convencer outros povos de sua “luminosa missão”, empurram a aceitação goela a baixo pelo poder das armas.

  6. Ha nas forças armadas uma parcela de brasileiros concientes e o preconceito de civis e militares deve ser superado e brasileirosfardados ou nao lutarem pela soberania do pais

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