A era dos memes

Que as criações audiovisuais estão cada vez mais sofisticadas, com recursos e efeitos especiais que intensificam o realismo das cenas, e atores e atrizes interagindo em sincronia quase que perfeita com as câmeras, em espantosa simbiose, não se discute.

Que o conteúdo de produções como Avenida Brasil – telenovela da Rede Globo que vem atingindo picos de audiência surpreendentes – é realmente de qualidade, também não se questiona, pois apresenta, de fato, grande riqueza teledramatúrgica.

Mas será mesmo que produtos da mídia como a novela de João Emanuel Carneiro se diferenciam tanto daqueles veiculados em anos ou décadas passados, a ponto de justificar tamanha discrepância em termos de índices de audiência ou repercussão país afora?

Seria tal fenômeno mérito exclusivo da produção ou existe aí alguma influência do incessante avanço do uso de ferramentas de comunicação por parte da população e pelos próprios veículos, que bombardeiam seus portais de notícias com flashes sobre cada capítulo da trama?

Qual será a piada envolvendo a Carminha em nosso jornal impresso de amanhã?

Seria injusto cogitar que Avenida Brasil deve seu sucesso à internet, até porque a novela conta com uma série de ingredientes que a tornam especialmente atraente ao grande público. Mas não se deve descartar a hipótese de que sua repercussão esteja sendo, em parte, motivada – e com isso, talvez, superdimensionada – pelo fato de as pessoas estarem se comunicando mais intensamente em uma rede que não para de se expandir.

Em apenas poucos capítulos, telenovelas ou qualquer outro produto que demande acompanhamento durante determinado período rapidamente se tornam uma febre, não por serem necessariamente fenomenais ou superiores aos de outrora, mas pela maior interação (em tempo real) entre as pessoas e, claro, pelo crescente estímulo ao consumo – condição sine qua non para que um indivíduo seja efetivamente integrado à sociedade.

Se, antigamente, quando o Faustão apresentava uma banda como sendo “o maior sucesso do país” o telespectador que não a conhecia eventualmente sentia certa angústia por estar por fora daquela “última novidade”, hoje, não acompanhar os desdobramentos de Avenida Brasil por meio dos milhares de memes em sites e redes sociais é quase que estar vivendo à revelia da História. Ou, pelo menos, é essa a sensação que fica.

Que a internet está conectando mais e mais as pessoas, todos já estão fartos de ouvir. Cumpre notar, porém, que, principalmente com a profusão de aparelhos móveis conectados à rede, as pessoas começam a viver, na prática, duas ou mais realidades em simultâneo: a física (teoricamente, a real) e a virtual, uma vez que passam boa parte do dia interagindo em um ambiente sem fronteiras, onde ficção e hardnews convivem lado a lado e, muitas vezes, assumem formas híbridas.

Nesse contexto, cabe relativizar o sucesso de algumas das produções culturais de hoje.  Fenômenos de audiência o são por contarem com fórmulas de sucesso cada vez mais precisas, ou porque, a cada atualização da página da internet, tem-se uma nova informação a seu respeito, o que estimula o interesse do público?

Certamente há um misto desses dois aspectos. Mas talvez a maior contribuição ao impressionante patamar a que algumas produções têm sido alçadas em pouco tempo – como o comercial da Luiza, que estava no Canadá – esteja associada a mudanças na percepção e tratamento do cyber-sujeito. Se, antes, os comentários do internauta repercutiam apenas em blogs e fóruns perdidos na internet, atualmente, o universo analógico, mesmo o impresso, se rende a suas trolagens. Hoje, os “avatares” são, acima de tudo, considerados preciosas fontes de informação, por consistirem em pontos de convergência e referência de novas tendências.

E não custa lembrar: de 140 em 140 caracteres, enche-se o papo da galinha.

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