A Educação de Jovens e Adultos: respeito à diversidade

Um rápido olhar que contemple o tema desta quinta edição de Intercâmbio de Experiências em EJA, organizado pelas e pelos que fazem a FACHO, e que também tome em consideração os títulos das mais diversas Oficinas oferecidas, permitirá uma instigante visão de conjunto das inquietações mais fortes que marcam as prioridades dos organizadores desta experiência.

A diversidade cultural manifesta-se, com efeito, sob um vasto e complexo quadro multidimensional, para bem além, inclusive, do que possamos oferecer neste V Intercâmbio, ainda que aqui busquemos focar seus rebatimentos específicos em EJA. Diversidade implica o exercício contínuo e crescente de diálogo em vários campos do viver e do conviver, tais como nossa dimensão cósmica; nossas relações sociais de gênero, de etnia; nossas relações geracionais; nossa dimensão de espacialidade; nossa condição de trabalhadores e trabalhadoras; nossa dimensão de cidadãos, cidadãs; nossas relações com o Sagrado, em suma: nossa condição humana.

Nesses dias, somos chamados a refletir, a partir dos distintos espaços de EJA, diferentes ângulos da diversidade cultural: desde as manifestações dos estigmas, discriminações e preconceitos, passando pela abertura aos valores do Outro, seja no campo da linguagem, nos diferentes espaços educativos formais e não-formais, até o recurso às artes, a exemplo do teatro, como espaços de humanização.

Tão rica é a diversidade temática e subtemática aqui proposta, que, sob certo sentido, somente a quem tivesse a oportunidade de acompanhar o conjunto dos relatos e das reflexões intercambiados, participando de todos os espaços de debate, seria dado contemplar de modo mais pleno.

Empenhados em refletir sobre a questão da diversidade cultural, particularmente sobre suas implicações e desdobramentos no campo de EJA, temos pela frente, desde o início, amplas possibilidades de abordar essa questão. Poderíamos, por exemplo, optar pelas abordagens oferecidas pelas oficinas, ou pelo menos por algumas delas. Preferimos, porém, de nossa parte, sem prejuízo de nos remeter, aqui e ali, a aspectos suscitados pelas distintas oficinas, optar por exercitar um olhar, inicialmente, sobre as possibilidades e os limites do exercício da diversidade cultural como fundamento do processo de humanização dos Humanos entre si e em sua relação com o Planeta; e, em seguida, examinar a incidência desse processo especificamente no cotidiano das práticas de EJA.

  1. O respeito à diversidade cultural como fundamento do processo de humanização dos Humanos entre si e em suas ralações com o Planeta. Seres incompletos, interdependentes, historicamente condicionados (ainda que não determinados), sentimo-nos chamados a tecer, no chão do nosso cotidiano, inúmeros fios de relações com os nossos semelhantes e diferentes, sendo estes últimos o nosso desafio maior. Em ambos os casos, nós nos revelamos seres relacionais.

Isolados, estaríamos condenados a sucumbir frente às inúmeras barreiras que se interpõem, das mais distintas formas, à nossa caminhada. Impossível se torna uma realização que se deva atribuir a um desempenho exclusivamente individual, o que não significa negar ou desprezar o lugar da individualidade no processo de realização humana. O fato é que nossa condição humana só se realiza na “civilização do nós”.

Situação tanto mais inevitável quanto avançamos no tempo. É verdade que nossa natureza social não vem de hoje. Os antigos já o atestavam. Ocorre que, à medida que se complexifica o processo de globalização – e é bem o caso do atual contexto histórico -, cada vez mais se impõe o desafio de nossa realização coletiva. Realização que se torna cada vez mais impedida pelo atual modo de produção e de consumo vigente. Tal como ou até mais ainda do que outras sociedades de classes, o modo capitalista de organização social, econômica, política e cultural não cessa de fornecer sinais inequívocos de sua absoluta incapacidade de atender às necessidades fundamentais – seja as de natureza material, seja as de caráter espiritual – do conjunto dos Humanos em harmonia com o Planeta.

Pela qualidade dos frutos, reconhece-se a natureza da árvore. Basta examinar levemente que frutos tem produzido o modo capitalista de produção e de consumo, nas distintas esferas da realidade humana e social. No plano econômico, prevalece a incessante concentração de riquezas e de renda em mãos de um número cada vez menor de grupos e de pessoas, à custa do crescente empobrecimento de amplas massas humanas, em todos os quadrantes da Terra, mal sobrevivendo ou vegetando em condições de desemprego ou sub- emprego, destituídas das condições mínimas de saúde, de educação, de moradia digna e de outros bens e serviços públicos essenciais, não apenas a uma pequena minoria, mas a todo o conjunto dos membros de qualquer sociedade humana.

No campo político, o quadro não é diferente. No cenário internacional, observa-se o domínio dos grandes conglomerados transnacionais que controlam as decisões supremas da comunidade internacional, a penalizarem enormes maiorias, nos diversos continentes. No âmbito nacional, a estrutura e o funcionamento do poder igualmente se dão de modo extremamente concentrado em mãos de muito poucos, e em detrimento de amplas parcelas da população. A estrutura de organização política das democracias formais se encontra profundamente viciada e comprometida. Mesmo os partidos políticos de esquerda perderam seu potencial transformador. Situação que se reproduz nos espaços não-estatais, em que se pontifica uma cultura presidencialista (ou seja: tem que haver alguém que conduza a todos, que faça o que é dever do conjunto dos cidadãos), e nos quais se verifica a tendência a uma concentração de poderes nos mais distintos espaços públicos e privados (nos ambientes de trabalho, nas associações, nos sindicatos, nas igrejas, nos clubes esportivos, nos espaços acadêmicos, etc.

Desse tipo de relação resulta uma grade de valores, marcada pela larga vigência do individualismo, da concorrência desenfreada, do mandonismo, do consumismo, da avidez de em tudo se tirar vantagem, do discurso da razão cínica, da cultura da ambigüidade, da lassidão ética, enfim, da cultura de uma esquizofrenia individual e coletiva.

Dinamicamente entrelaçadas, tais esferas concorrem para o fortalecimento dessa estrutura, desse modelo de organização social, em relação ao qual todo esforço de reformas pontuais está destinado ao fracasso, contribuindo apenas para sua consolidação. Sua superação demanda, inevitavelmente, a construção de uma sociabilidade alternativa, radicalmente oposta à vigente, e que há de contar com características tais como:

– do ponto de vista econômico, a superação da propriedade privada dos meios

de produção e das fontes de vida, passando a ter um caráter de propriedade

social, com distribuição social das riquezas e da renda;

– do ponto de vista político, em vez do Estado e seus aparelhos, a sociedade

passará a ser gerida por uma rede de conselhos comunitários;

– do ponto de vista cultural, há de se promover uma grade de valores, de modo

a acentuar, nas relações do cotidiano, o exercício da decisão colegialida, da

cooperação, do protagonismo coletivo, da emancipação, da solidariedade, da

partilha, da autonomia, da prática como critério de verdade, da coerência, da

dignidade do trabalho, entre outros valores.

 

  1. O exercício da diversidade cultural no cotidiano de EJA: limites e possibilidades

Pôr em prática, de modo sistemático, o respeito à diversidade cultural, nos diferentes espaços de nossa convivência bem como especificamente no cotidiano das práticas de EJA constitui um grande desafio, em relação ao qual nos é preciso ter consciência de nossos limites e de nossas possibilidades. Quanto aos limites, importa ter presente que em vão tentaríamos assegurar as condições satisfatórias do exercício conseqüente e orgânico da diversidade cultural – inclusive nos espaços de EJA -, sem que tal esforço se faça de modo organicamente associado à busca ininterrupta de construção de uma sociabilidade alternativa.

Sendo a vida humana constituída de uma vasta e complexa teia de relações humanas e sociais, um processo de formação que se proponha dar conta de tal complexidade, há de tomar em consideração a necessidade de empreender uma formação omnilateral, ou seja: a aposta numa formação que consista no desenvolvimento do ser humano como uma totalidade, e, ao mesmo tempo, do conjunto dos humanos, e não apenas de uma parte, tal como se dá no modelo capitalista, afinal de contas,

– apenas uma parte da população tem assegurados os direitos ao trabalho digno,

a condições desejáveis de trabalho, a uma remuneração justa;

– apenas uma parte da população tem assegurados os serviços públicos de

moradia, saúde, educação, previdência social, segurança pública, lazer, fruição

e produção da Cultura, entre outras direitos.

 

E, inversamente, cabe-nos também perguntar:

– defendendo que não deveria haver entre nós desempregados, mas os há aos milhões, e desses milhões de desempregados, qual a proporção entre mulheres

e homens, entre negros e não negros, entre pessoas com e sem deficiência?

– defendendo que todos têm direito à moradia, perguntamos: dos que não têm casa ou moram em casebres indignos, quantos são não-negros, quantos têm

cursos superiores, quantos são pessoas não portadoras de deficiência?

– defendendo que todos têm direito a um justo julgamento, perguntamos: quem vai mesmo preso, via de regra? (Aqui não vale lembrar as exceções: são exceções, não constituem a regra do dia-a-dia de nossas prisões)

Até aqui, tratamos de considerar limites relevantes para a desejável universalização do exercício do respeito às diferenças, do respeito à diversidade cultural, no cotidiano de nossa convivência, pautada nos padrões do modo capitalista de organização social. Registro que não devemos esquecer, ao considerarmos também as potencialidades desse exercício, mesmo no contexto capitalista. É o de que tratamos, a seguir.

Tendo presente que o nosso dia-a-dia se constitui numa rede de relações, tornando-se comparável a um grande mostruário composto de inúmeros fios de nossa existência, de nossa convivência, nas mais distintas relações (gênero, etnia, geração, espacialidade, trabalho, Natureza, Sagrado…), quando passamos a ter consciência de nossas potencialidades, vamos encontrar em cada um desses espaços vitais preciosas oportunidades de exercitarmos o respeito às diferenças, o respeito à diversidade cultural, ao mesmo tempo em que cuidamos de combater, pela raiz, as freqüentes manifestações de preconceitos e discriminações que ainda pululam em nossa convivência.

Algo que nos ajuda consideravelmente nessa aventura humanizadora é o nosso renovado compromisso de contínuo aprimoramento de nossa capacidade perceptiva, que se dá pelo esforço de aguçar o potencial de nossos sentidos. Temos olhos, ouvidos, audição, paladar, tato, coração, intuição… Mas, nem sempre somos capazes de nos dar conta dos inúmeros sinais que se apresentam em nossa convivência. Nossos olhos, tão sadios, percebem mal ou simplesmente nada alcançam de muita coisa que está à nossa frente.

Caminhamos, as coisas se passam, os acontecimentos se dão, e muita coisa importante deixamos escapar. “Mas, você acabou de passar por lá, e não viu, não?” – “Não, não vi…”. É que nos acomodamos a ver o trivial, o que estamos acostumados a ver se repetindo. Nosso olhar não está motivado a perceber coisas novas, que já estão acontecendo pertinho de nós, em volta de nós, e nós não percebemos por limitação nossa.

O mesmo sucede, em relação aos demais sentidos. Temos bons ouvidos, mas costumamos contentar-nos com escutar banalidades: as mesmas músicas medíocres, os mesmos sons, as mesmas vozes. Não ousamos escutar vozes novas, novos sons, novas expressões musicais.

– EJA vivenciada na perspectiva freireana de EP (como se faz a tessitura desses fios do cotidiano de EJA? (Plano de aula, perfil, conteúdo, metodologia, avaliação)

+ Requerimentos para a formação docente

+ Requerimentos para a Gestão (Projeto Político-Pedagógico, conselhos e outros)

+ Requerimento para a Comunidade

+ Requerimento para a Política Pública

Outros pontos a sublinhar:

– Perfil

– Exercitar a memória histórica

– Exercitar a capacidade perceptiva (atenção aos sinais,

João Pessoa, 8 de agosto de 2008.

 

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