
A Cultura foi uma das principais características do I Festival Internacional da Utopia, que ocorreu entre os dias 22 e 26 de junho em Maricá, no Rio de Janeiro. Teatro, música, artesanato, expressões artísticas de diversos setores, dentre outras iniciativas, convivendo harmonicamente em meio à diversidade, foi uma identidade do encontro. Mas a cultura também foi alvo de debates, como o realizado por algumas lideranças, estudiosos e o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira.
O encontro de diversos setores nos últimos anos através da cultura, de acordo com Pablo Capilé, do Fora do Eixo, foi o que resultou na força de resistência ao golpe militar com a ocupação de diversos órgãos do Ministério da Cultura em todo Brasil. Segmentos que não tinham voz se conectaram através de políticas públicas, como os Pontos de Cultura, e passaram a debater diversos temas como direitos humanos, comunicação e meio ambiente, dentre outros.
“Uma mudança da cultura política que só foi possível por causa de um governo popular com todas as suas contradições e limitações. A América do Sul se tornou o continente mais à esquerda do mundo, e chega a esse processo golpista no Brasil. Mas essa geração acumulou força suficiente para resistir, e falar com a sociedade brasileira”, afirmou o ativista.
A cultura assumiu um protagonismo na linha de frente de resistência no século XXI, assim como a comunicação em defesa dos sem terra, negros, indígenas, mulheres, etc. A cultura e a comunicação não são mais utilitaristas, acrescentou. “Isso vai ajudar a atualizar a agenda da esquerda para enfrentar essa crise e fortalecer essa janela que se abre para a resistência. A cultura está se levantando, é preciso ver nossos erros com lucidez para reinventar onde erramos e dar continuidade aos acertos, que não foram poucos. O Festival é o fim de um ciclo e início de outro”, concluiu.
O engajamento político do artista

Somos um país onde insistimos em ignorar os invisíveis, pontuou o músico Tico Santa Cruz. Conhecido por seu
engajamento político nas discussões do país, o vocalista da banda Detonautas defende que a sua responsabilidade enquanto artista deve ser do tamanho do seu privilégio. “É um conforto que mais de 90% do povo brasileiro não vive, então como artista não posso me omitir frente às injustiças sociais ou políticas. O artista não é um instrumento só para o entretenimento, é um instrumento de combate e reflexão. Sei de todos os boicotes e bloqueios que isso pode me causar, nunca fui muito simpático à grande mídia e criei a minha própria”, afirmou.
Embora crítico ao Partido dos Trabalhadores (PT) por muitos anos, o ativista reconhece que o governo vinha dando acesso político e econômico à população mais pobre. Segundo ele, a crise política se agravou e foi pautada principalmente por setores que não venceram nas eleições. “A democracia não é realizada como deveria. Setores do judiciário e político resolveram tomar o poder à força usando a indignação legítima da população. Agora veem que foi um movimento para destituir o poder democrático conquistado pela Dilma, que é uma pessoa honesta e não quis fazer negócios com esses corruptos que estão há tantos anos no poder”, criticou.
Ao se infiltrar no sistema, Santa Cruz diz que passou a incomodar muita gente mas conseguiu manter sua arte. O cantor destacou a vasta diversidade cultural do país, e a repressão à criatividade por parte dos poderosos que detém o controle. “Resolveram criminalizar a cultura tentando destituir o imaginário das pessoas e mexer com o coração delas. A criatividade é muito perigosa para essas pessoas, que só usam replicadores. Precisamos contrapor essa narrativa, fomos manipulados para acreditar que não temos competência de gerenciar nossas riquezas”, afirmou.
Ditadura e Rede Globo

O Brasil foi o único país da América Latina que anistiou seus torturadores da mesma forma que aqueles que combateram a ditadura, lembrou a psicanalista Maria Rita Kehl, autora de diversos livros. Como a Comissão da Verdade só foi instalada décadas depois e os torturadores não foram punidos como criminosos, foi criada uma cultura da violência que atinge pouco a classe média e afeta as periferias. “Temos a única polícia que continuou militarizada. Segundo uma pesquisadora norteamericana, é a única que na democracia mata mais que na ditadura. Mas mata os meninos da periferia e não da classe média, porque sairia em todos os jornais. Resistência seguida de morte usada contra esses jovens era a justificativa na ditadura para o extermínio de militantes. Anistiamos os militares como tão vítimas como seus prisioneiros, e viramos o país que mais mata na região numa democracia”, criticou.
Na década de 80 a pesquisadora estudou a Rede Globo, que nasceu pequena em reação à Record e a Tupi, dentre outras emissoras, e se tornou um império. A estratégia usada pelos seus executivos foi de se aproximar do Ministério da Cultura, da Educação e do Superior de Guerra para mostrar que era preciso levar uma imagem positiva do país a todos os recantos do Brasil onde podia haver insatisfação. “Foi na época da guerrilha do Araguaia. A Globo ocupou as redes da Embratel e as novelas começam a tematizar sutilmente e de forma sempre conformista os temas latentes na sociedade brasileira, o que ocorre até hoje. Mas as redes sociais hoje espalham contra informação com uma força muito grande. A televisão nos dava uma certeza imaginária de em qual país estávamos”, afirmou.
A imagem do presidente Lula, nesse sentido, foi transformada numa “figura fofa” quando logo após de eleito deu uma entrevista ao Fantástico que lhe tirou sua expressão de líder operário e de esquerda. “É uma questão política. A cultura brasileira, como o samba, que vem da emancipação de uma voz reprimida, essa cultura popular é que vai novamente trazer para a esquerda de novo. Porque o Lula foi sugado pela cultura do espetáculo, além da corrupção endêmica. Precisamos criar uma cultura poderosa de novo, como a música de protesto durante a ditadura e o samba nos anos 30. Trazer esse Brasil que está aí de forma subjetiva, apostar na cultura popular”, concluiu.
Compromisso com a humanidade

O ator norteamericano Danny Glover ressaltou a necessidade de um verdadeiro compromisso sincero com a humanidade. O artista disse que nós brasileiros estamos tentando restaurar nossa democracia, e a cultura é a articulação contínua e a expressão da nossa humanidade para isso. “O que produzimos moralmente é algo dinâmico, essa resistência é algo redentor e reflexivo. Vim de um movimento que celebrava a cultura negra há 50 anos, foi um momento extraordinário de regaste da dignidade dos afrodescendentes. Precisamos usar todas as ferramentas para expandir essa democracia e resgatá-la de forma mais inclusiva”, afirmou.
Os cidadãos comuns que reivindicam e assumem posições pelas mudanças estão lutando pela sua própria transformação, pontuou. E a cultura é vital para promover esse debate, como o extermínio de jovens negros nas favelas, acrescentou. Ao lembrar de sua bisavó, que foi escrava, o ator destacou que é preciso observar o passado para encontrar novos territórios, pautas, atores e lutar pela humanidade. “O Lula falou da imaginação, precisamos rever e criar novas formas de organização da sociedade. Einstein falou que a imaginação é mais importante que o conhecimento: é crucial, é o pão da mudança. Precisamos recuperar essa capacidade sagrada para nossa própria salvação. Salvar o planeta, a mãe terra que precisa tanto de nós”, ressaltou.
Conspiração da oposição

Ao destacar que o Brasil não está isolado do mundo, o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, lembrou que a economia internacional está vivendo uma crise profunda e crises políticas e sociais, guerras, se espalham mundo afora. Por outro lado, é o momento para avanços em meio às contradições, como o acordo realizado na Colômbia que cessou a mais antiga guerra civil da região com as FARCs. Em relação à conjuntura no Brasil, Ferreira defendeu que se trata de um golpe diferente do que ocorreu na década de 60 pois não requer as forças armadas nas ruas. “Foram bem sucedidos como em Honduras e Paraguai com cerco e aniquilamento através da mídia, criando uma manipulação da opinião pública e a mobilização do judiciário e parlamento para realizar essa interrupção. Sempre foram os pobres que lutaram nessas ditaduras, quando a população não quer eleger seus candidatos e eles renunciam à ordem democrática”, observou.
Como a oposição não ganhou as eleições nos últimos 12 anos, sabe que não será eleita pela população se disser realmente o projeto que quer implantar. Quando perceberam que é irreversível esse processo de redução das desigualdades começa o processo de conspiração, explicou Ferreira. “Dois dias depois da reeleição de Dilma iniciaram a conspiração: o PSDB desistiu das urnas. Não dizem o que realmente querem. Colocaram o PMDB para executar o golpe, mas é quem está por trás. Temos muitos erros também, é preciso reconhecer que sem eles não teriam chegado até onde chegaram. A esquerda e o PT têm que dizer onde erramos”, afirmou.
Ao relatar os avanços promovidos nos últimos anos, como a maior redução das desigualdades, segundo a ONU, o ex ministro falou sobre a importância dos arranjos institucionais que garantiram mais direitos e um futuro mais confortável a milhões de pessoas. A oposição tem um plano que não pode ser apresentado antes do impeachment, complementou Ferreira. “Porque se botarem, a revolta, a rebelião, a rejeição será mil vezes maior. Eles não suportam a ideia que na próxima eleição não têm possibilidade democrática de concorrer com o Lula, que foi o primeiro presidente depois da redemocratização que escancarou as portas da democracia e tornou capaz de acolher as demandas da população em processos institucionais”, destacou.
Estão tentando limitar a liberdade das pessoas em todos os níveis, segundo ele, que está preocupado com a possibilidade do uso da força para impor esse projeto anti popular já que as pessoas não vão aceitá-lo. “Querem nos submeter às economias do mundo, então a luta pela soberania é estratégica. Temos condições de dialogar com o mundo inteiro e isso está ameaçado por esse colonialismo cerebral da nossa elite, que não consegue pensar o Brasil como grande nação e reduzir as mazelas do povo. Temos a maior biodiversidade do mundo, somos condenados ao sucesso. Podemos realizar essa utopia interna e com os outros países“, disse.
Jornalista, 44, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis em https://amzn.to/3ce8Y6h). Saiba mais: https://gustavobarreto.me/

foi de grande relevância esta leitura para irrequecer o meu artigo sobre o quilombo. maravilhoso.