A ‘civilização’

Foto denominada “Indifference”, de Marco Giumelli (via Flickr/CC BY 2.0)
Foto denominada “Indifference”, de Marco Giumelli (via Flickr/CC BY 2.0)
Foto denominada “Indifference”, de Marco Giumelli (via Flickr/CC BY 2.0)

O que é, afinal, “civilização”?

A questão foi amplamente estudada sob diversos pontos de vista, e muitos demonstraram como é impossível dissociar o termo ‘civilização’ do racismo estrutural presente nas sociedades europeias de alguns séculos atrás.

A maioria dos autores eurocêntricos tem dificuldade em admitir a proximidade do conceito de civilização com a eugenia, que, por sua vez, encontrou grande acolhimento no nazifascismo. Tratava-se de utilizar o nascente método científico para sustentar uma tese absolutamente anticientífica: a superioridade de algumas raças em detrimento de tantas outras. E mais: praticamente todas as “grandes” universidades europeias e estadunidenses possuíam laboratórios de eugenia.

Popularmente, a ideia se espalhou. Diz-se que alguém é mais “civilizado” quando é mais educado, tem bons modos à mesa etc. Trata-se da continuidade de uma lógica racista e eugênica.

No mundo “civilizado”, a Europa – ou o “Ocidente” como um todo – mantém a pose. É o local onde a “civilização” prosperou e onde os museus exibem artefatos roubados de todo o mundo. É onde múltiplos governos se calam diante de mais um genocídio por conveniência política e econômica. E onde migrantes continuam sendo abandonados ou atacados, mesmo sendo contribuintes de primeira grandeza para as sociedades “civilizadas”, que, sem eles, não conseguiriam sobreviver economicamente.

A “civilização” ocidental depende massivamente do mecanismo da dívida, conforme tem demonstrado repetidamente a ONU em seus relatórios. Em metade do mundo – o Sul Global, em geral – os governos gastam mais com seus credores do que com saúde ou educação, e pagam juros muito mais altos pelo mesmo serviço financeiro. A colonização persiste.

Há também quem confunda o coletivo com o comum. A coletividade garante um bom serviço público (quase sempre), incluindo um transporte público invejável nas cidades mais ricas do mundo, enquanto muitos de seus cidadãos são tão individualistas que não conseguem sequer olhar nos olhos uns dos outros.

Em um desses países “invejáveis”, o governo teve de criar o “dia do vizinho” na tentativa de fazer com que pessoas que moram porta a porta falassem umas com as outras. Aqui fica claro: coletividade não é comunidade. Senso coletivo não é senso de comum, de solidariedade.

Esse descolamento do comum transforma a realidade de tal forma que a situação de bilhões de pessoas seja encaixada em termos como “pobreza” e “miséria”, muito bem definidos por acadêmicos em livros cuidadosamente guardados em universidades inacessíveis para a maioria da população – incluindo aqueles que vivem próximos a elas.

Esse tipo de sociedade pode funcionar? Apenas se descolarmos o senso de comum. Do contrário, está fadada ao fracasso.

Um comentário sobre “A ‘civilização’”

  1. Em primeiro lugar, a alegria do seu retorno ao lugar que é seu! Em seguida, coladinho, o que o dia vem mostrando. Coisas que conversamos já mais de uma vez. O sol acaba de nascer. Os passarinhos a comer o que encontram pela calçada. O mar extenso e o céu acima de nós. Como diz o “Livro do Tabu-O que não deixa você saber quem você é,” de Allan Watts. Os seres humanos não estão no mundo, são do mundo. Esquecer esta verdade é o que nos mata. Separados da unidade que somos, caímos na ignorância e na autodestruição.

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